Utopia

05 de Maio de 2014 Priscila Pereira Contos 791

      Mais um dia havia terminado e Gustavo voltava para casa sozinho, como sempre. Caminhava devagar, ouvindo um rock melódico nos fones de ouvido. O uniforme da fábrica de autopeças não caía bem nele, fazia com que parecesse ainda mais invisível. Suas feições eram muito comuns, sem atrativo algum, não chegava a ser feio, horrível, era só desprovido de beleza. Já estava acostumado, não se incomodava mais.
Ainda sonhava em viver um grande amor, mas guardava esse sonho como uma utopia, junto com ser um jogador de futebol famoso e um astro do rock.

     Era romântico e sensível por natureza, filho único de família humilde, teve que começar a trabalhar ainda adolescente, após a morte do pai, para ajudar nas despesas da casa, sua mãe, de saúde frágil, trabalhava como faxineira em casas de famílias ricas que não a valorizavam. Com muito empenho e força de vontade havia subido quase todos os degraus administrativos da fábrica e pode enfim sustentar a casa sozinho e dar um descanso para sua mãe.

     Estava relativamente bem de vida agora, conseguiu comprar um terreno e construir uma casa, comprou um carro, e com a recente morte de sua mãe, não havia maiores despesas, guardava quase tudo o que ganhava. Vivia sozinho e confortável. Havia se apaixonado uma vez, ainda no início da adolescência, quando tudo é mais intenso, ela era linda e gostava de conversar com ele, eram amigos, ele julgou ter encontrado o amor de sua vida e ela só queria alguém para passar o tempo. Depois de algum tempo ela o deixou por um playboyzinho rico e bonitão que a maltratava, depois disso perdeu a fé nas mulheres, cria que todas só se importavam com a aparência e com dinheiro.

     Apesar de quase invisível e sem esperança de que alguma mulher o notasse, nunca descuidava da higiene pessoal e sempre estava impecavelmente limpo e cheiroso, gostava de perfumes de qualidade, sempre pensou que o perfume dizia muito sobre a pessoa que o estava usando. Apesar de muito tímido, e de na maior parte do tempo estar lendo ou ouvindo música, conseguia manter uma conversação inteligente com desenvoltura, era apreciado por todos de seu conhecimento, tinha poucos, mas fieis amigos. Era um homem bom, de ótimo caráter, que só esperava que algum dia alguém lhe desse a chance de mostrar como podia amar, ser fiel, cuidar, valorizar, essas coisas que todas as mulheres queriam, mas só se viesse embrulhada em um belo e rico pacote.

     Ainda andando sozinho pelas ruas, ouvindo música e desatento ao mundo que o rodeava, parou em um sinal fechado, onde uma moça também aguardava para atravessar, olhou timidamente para ela e sorriu, sem esperar resposta alguma, mas para seu espanto, ela sorriu de volta, o sorriso mais lindo que ele já vira, pensou que já havia ganhado o dia, uma garota bonita e desconhecida o havia notado e sorrido para ele. Enquanto atravessavam a rua ela disse: “Gostei do seu perfume” , ele corou, sorriu e agradeceu. Queria puxar um assunto, mas não sabia qual, estava nervoso; ela tomou a iniciativa e perguntou o que ele estava ouvindo, Gustavo respirou profundamente, e foi falando, com calma, conversando normalmente com a moça, que logo descobriu se chamar Sabrina.

     Dois anos exatos depois, Gustavo e Sabrina estavam em lua de mel, ele só tinha dois sonhos utópicos agora e ela, agradecia aos céus a sorte que tivera, ele era o homem mais maravilhoso do mundo, foi como ganhar o presente mais aguardado de todos embrulhado em um saco de papel, mas felizmente para Gustavo, Sabrina se importava mais com o presente do que com o embrulho.


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