O homem da marquise

05 de Maio de 2014 ROOSEVELT Contos 1098

Um dia me perguntaram como vivem os Espíritos. Eu tentei explicar, mas, sou homem de poucas palavras. Então, contei essa história... Choveu muito em Aracaju aqueles dias. Não conto as vezes que esqueci o guarda-chuva e me molhei todo. Aracaju quando chove mostra sua verdadeira fisionomia. Seus córregos transbordam; os canais que cruzam a cidade vomitam seu conteúdo fétido nas casas vizinhas. Os ratos, os escorpiões, as aranhas e as baratas vão, como refugiados urbanos, se abrigarem nas casas próximo aos córregos. Recordo-me das pessoas que moravam nas ruas. A chuva as expulsa de lugar nenhum, a cidade é apenas uma possibilidade, elas, na verdade não tinham onde ficar. Andei como uma alma penada em uma noite de chuva grossa pelos becos do centro da cidade. Vi os mendigos se protegerem da água debaixo das marquises dos prédios. Esses cidadãos tinham documentos, mas, isso nada importava. Documentos são só documentos. Quando chove nas cidades grandes as contradições ficam mais acentuadas. A miséria humana se torna mais nítida para aquele que se dispõe a vê-la. Foi numa noite dessas que encontrei Demócrito. O homem dormia dentro de uma caixa de papelão debaixo da marquise do prédio de um banco. O homem descansava de mais um dia de peregrinação pelas ruas e avenidas da cidade mais bonita do Brasil. - Moço! - Quem? - Moço! - Quem? Esforcei-me para me apresentar ao homem que descansava com uma pedra debaixo da cabeça. Era uma pedra chata; parecia ser de rocha metamórfica, eu não sei, mas, a pedra era algo que logo me chamou a atenção. - Moço, essa pedra não te incomoda? - O amigo vá cuidar de sua vida! - Mas, moço essa pedra deve doer para caramba, não? - Rapaz, vá... - Não precisava tanto! - Eu te conheço rapaz!? Você chega aqui na minha casa pra me ofender! A palavra casa me remeteu a situação desastrosa do rapaz. Sem casa, sem teto, sem esperança, sem endereço no mundo. Dizem que os direitos são iguais, mas, os que moram nas marquises sabem que a vida para eles é um monólogo de queixas e desilusões. - Eh, eu ia passando e vi você assim, então, resolvi parar e dizer alô. - Ah, você é o bom samaritano!? - Deixe de ironia, uma pessoa na sua condição deve ser sempre humilde. - Dizem que o sofrimento molda os homens. Olha moço até hoje o sofrimento só causou desgraça pra mim, nada de coisa boa. - Todo mundo diz o que pensa, mas, ninguém garante nada. Como é seu nome? - Demócrito. - Eh, meu amigo, quanto tempo faz que você está nas ruas? - Vixe, faz muito tempo! O Sergipe havia sido campeão aquele ano. Os olhos do rapaz Demócrito se encheram de brilho quando ele disse “Sergipe campeão”. Olhei para o rapaz por um instante, seu rosto foi aos poucos desaparecendo na penumbra daquela marquise de concreto, e ao fundo, uma porta de vidro ganhava forma diante de mim. Depois da imensa porta de vidro, um escritório bancário ganhou forma. Na cadeira preta de rodinhas, atrás de um birô de vidro fumê estava a figura de um homem de negócios. O homem tinha uma postura confiante, e um olhar altivo. Olhava sempre por cima dos ombros, e o queixo se mantinha constantemente um pouco elevado. Seu terno era de linho autêntico, cor de creme, em volta de seu pescoço, uma gravada azul de bolinhas brancas que insinuava a quem chegasse que se tratava do gerente do banco. Demócrito, ou o Doutor Demócrito, trabalhava naquele banco desde novo. Iniciou como auxiliar administrativo, depois passou para caixa e depois, a convite de um político local, se tornou o gerente do maior banco do estado. “Demócrito vai longe”. Disse Aniele com o tom de “vai mesmo”. “Eh, mulher tenho orgulho dele, ele é um rapaz de ouro”. Na verdade naqueles anos idos, o rapaz Demócrito estava sob a inspiração de seu anjo de guarda, tudo que ele fazia dava certo. - Meu caro deputado Vespasiano! - Meu caríssimo Demócrito! Está gostando do novo cargo, está em conta? O salário é bom? - Eh, dá para o gasto. - Entendo! Tenho um projeto para a gente. Num se preocupe, tudo legal tudo bacana! - O que manda o ilustre deputado? - Preciso de uma conta laranja. - Como? - Uma conta laranja! - Está doido macho? Quer me ferrar? - Não meu amigo, nós vamos ficar ricos; eu e você! Demócrito coçou a garganta e perguntou ao empolgado cliente. - Como? A conta serviria para depósitos escusos oriundos do mundo político e do mercado negro. O titular da conta era um lavrador residente no povoado Areia Branca nos arredores de Campos. Os depósitos começaram a ser feito. No primeiro ano entrou pouco dinheiro, somente a bagatela de R$700.000,00. Mas, no segundo, a conta foi crescendo e se avolumando. O gerente tinha a parcela de 20% do total mensal. Demócrito cresceu; comprou imóveis e carros. Sua mulher tinha um carro Peugeot; seu filho tinha uma Ferrari, até o papagaio se beneficiou; o louro saiu da gaiola comum e foi para um viveiro tipo “SPA de bicho”. Os anos passaram. Todo mundo se acostumou com o dinheiro da continha fantasma do povoado Areia Branca. “A câmara de deputados está propondo uma CPI no banco do estado. Os parlamentares suspeitam que o banco esteja lavando dinheiro de campanha”. “E agora, meu ilustre deputado?” “Rapaz fique quieto que isso vai dar em pizza, a câmara quase toda está com o rabo preso”. Demócrito continuou com o deputado; com o tempo, as coisas se aquietaram novamente. “Rapaz, eu num pensei que ia ser preso!” “Homem a coisa pública é para ser desviada”. “É mesmo amigo; é assim desde os primeiros dias do Brasil”. “Oxente, num é o que!” A narrativa de Demócrito me empolgou e eu fiquei mais tempo debaixo da marquise para ver como aquela história terminaria. À proporção que o homem ia desvendando os segredos de seu passado seu rosto ganhava luz, parecia que ele ainda estava preso àquele personagem contraditório. Demócrito tinha tudo sobre controle para seus clientes ilustres. A conta fantasma se transformou em contas fantasmas. O resultado disso foi o aumento considerável da renda do gerente do banco. A CPI apurou o caso das “contas laranjas” envolvendo alguns políticos locais. Os políticos saíram sem muito estrago, afinal, o responsável era o gerente do banco – o Demócrito. Os depósitos vinham de verbas legítimas; o trambique começava do banco para as contas laranjas. Demócrito foi preso. O confisco de seus bens, os gastos com advogados, e a profunda depressão fizeram Demócrito não voltar para casa depois da pena de 4 anos na penitenciária. Demócrito cumpriu sua pena e foi morar nas ruas. A visão do escritório feneceu como uma vela no fim do pavio. Agora, meus olhos viam uma casa de papelão debaixo da marquise do banco. Nela descansava Demócrito. - Vida boa hein? - Aqueles foram os melhores anos, anos de ouro. - Mas, você num sabia que isso ia sujar? - Amigo, posso chamar você assim? - À vontade. - Depois que o dinheiro entrou, a consciência se calou. - Mas, você num sabe que a corda arrebenta para o menor? - Sim, e daí. Amigo você num imagina o que o dinheiro pode fazer. - E sua família onde está? Demócrito se virou para o outro lado da rua onde tinha uma banca de revistas. Na frente da mesma tinha uma foto de uma atriz famosa. Demócrito fixou seu olhar nela. O olhar do homem ficou vago, parecia o olhar de um defunto. Seus pensamentos formaram um arco sobre sua cabeça. Era um arco marrom escuro. Esse era seu pensar sobre a família. Logo após a falência, Isis foi morar com Tibúrcio, o melhor amigo de Demócrito. A senhora alegou: “Eu precisava de estabilidade, não se pode criar um filho sem estabilidade”. O pequeno Marcelo estava com a vó, que morava no interior, em São Cristóvão. O silêncio debaixo da marquise era grande. Vez ou outra o vento da antiga Rua da Aurora soprava em nós. Interessante, o vento trazia mais lembranças para Demócrito. E nossa conversa rendia mais. - Demócrito! Você me prometeu que não passava de hoje! - Amigo, tenha paciência! Esqueceu que sou casado? - Num quero mais desculpas. O jovem senhor empregado numa empresa importante da cidade, puxou a cabeça do jovem Demócrito e beijou-lhe no rosto. O carro seguia seu destino e dentro deles os dois amigos faziam seu ritual. - Demócrito sabia que eu imaginava que seria assim. - Pois, num se acostume não. Foi só essa vez. - Sei não, eu ouvi você... - Onde é mesmo que você vai descer? O rapaz de meia idade desceu na Praça Fausto Cardoso. Naquela época, homens de todas as idades procuravam novas experiências na Praça Fausto Cardoso. O vento da Rua da Frente soprou desta vez com voz de choro. Eu não via mais o escritório, nem o carro, ou outro lugar, ou outra coisa. Era apenas o rosto velho de Demócrito e eu. - Meu velho viveu muito. - Muita vida, muitas coisas. - E agora? Quanto mais minha humilde pessoa tentava mudar a conversa, o homem começava tudo de novo. A história de sua vida havia parado em algum lugar e ele não conseguia recomeçar. Hoje, minha pessoa sabe que recomeçar é uma benção de Deus. - Demócrito! - Quem? - Demócrito! - É você novamente? - Eu não saí Demócrito. Eu estou aqui. - Quem é você? Eu olhei para a porta de vidro do banco, e vi o gerente do mesmo. O homem estava sentado numa cadeira preta de rodinhas. Era um homem bonito, de olhar empolgado e cheio de confiança. Minha pessoa se aproxima: - Bom dia Demócrito! - Bom dia meu ilustre Deputado. - Já decidiu? - Vai abrir mesmo a conta? Demócrito pergunta com a voz um pouco rouca. - Positivo. - Então, vamos começar com R$700.000,00. - Meu caro deputado você é um homem de muita fé... 

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