(Des)união

07 de Maio de 2014 Elias Lima Contos 2034

Era o dia do seu casamento.
O dia mais esperado de sua vida. Na verdade, o segundo dia mais esperado de sua vida. O primeiro foi o dia em que seus pais se separaram. Não suportava aquelas mortes. Todos os fins de semana. Um ritual, na qual ela sempre esperava com intenso medo.
Mas hoje é o segundo dia ou o dia mais esperado de sua vida. Quem sabe desta vez uma única união dê certo em seus olhos né?

Ela sente medo. E lembra-se de tudo que passou com a mãe: histérica, agressiva e alcoólatra. Lembra dos socos que a mãe levava do pai sempre que ela falava mal de sua avó paterna. Eram vassouras, pratos, tigelas, louças. Tudo quebrado.

Tudo quebrando-se em sua mente. Dilacerando-a em mil pedaços. Incontáveis. Dolorosamente incontáveis.

23:30

Todos os convidados estão no salão de festa. Há música, docinhos, alegria. Tudo como sempre sonhou. E todos começam a gritar o seu nome, Justine, Justine!

Eles estão batendo palmas. Sorridentes. Demais.

Por que eles estão tão felizes?
Não conseguem enxergar que ela sangra por dentro?

Ela está apavorada.
Ela viu o bolo de casamento. Com os dois bonequinhos: o noivo beijando a noiva no primeiro andar do caríssimo bolo.
Está inerte.
Não consegue sair do lugar.
Algo a prende.
Prende os seus pés.

O coração acelera ininterruptamente. Todos estão batendo palmas, chamando o seu nome e sorrindo. Justine,venha!
E toda aquela alegria que ela estava sentindo e que está vendo agora se torna o seu maior medo. As pessoas estão lá, batendo palmas para a sua felicidade. Ela quer ser feliz?

O bolo rosa. Aquele maldito bolo rosa! Tem vontade de gritar para todo mundo se calar: Tirem aquele maldito bolo rosa!
Justine? Vem cortar o bolo!
Os olhos atormentados tremulam seus lábios. E ninguém percebe?
Todos estão cegos?

Amor! Venha?! Diz sorrindo o seu recém marido, pegando suavemente a sua mão direita. Está na hora de cortar o bolo, e todo mundo está ansioso para saber de quem será o primeiro pedaço! Diz sorrindo novamente para ela. “Você é a minha princesa, sabia?” Sussurra em seu ouvido, tentando tranqüilizá-la daquilo que ele não faz idéia.
Não! Não! Não, não e não. Diz com a cabeça baixa fitando o chão. Não posso!
O quê? Pergunta Jefferson.
Não posso amor! Diz chorando.
O que foi benzinho? Pergunta ele curvando-se para enxergar o rosto dela com lágrimas sujas de maquiagem.
“Eu prometi que nunca seria infeliz”. Diz com a voz trêmula. “Eu jurei pra mim todos esses anos, todos os dias antes de dormir que jamais seria infeliz. Que jamais viveria infeliz ao lado de alguém. Me fazendo infeliz e fazendo infeliz quem está comigo.” Desabafa.
“Mas o que eu fiz amor? Me diga, eu quero saber, eu te peço desculpas se fiz algo sem perceber.” Continua Jefferson.
“Nada Jeff, você não me fez nada. Pelo contrário. Você me deu tudo e fez tudo. E fez além do que eu esperava. Eu só não quero cortar o bolo ta? Só isso.”
“Tudo bem, ninguém precisa cortar o bolo, tudo bem tá?”
“ Eu digo para eles que cortaremos o bolo amanhã e daí você finge um mal estar quando eles ligarem e então está tudo bem meu amor. Tudo bem ta?”

“Agora aperta a minha mão e me beije. Eu te amo e não vou deixar que nada estrague este momento. E eu nunca vou te fazer infeliz. Te prometo.” Disse Jefferson, beijando os lábios dela molhados de lágrimas.

Então Justine jogou fora o retrato da festa de casamento de seus pais, onde a mãe dela está cortando um bolo rosa para comemorar a (des)união.



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