Insólito.

12 de Maio de 2014 JWILER Contos 906

Insólito.
Descia uma gota de suor incômoda pelo meu rosto. Respirava com dificuldade, pois além do cigarro, e a poluição d’aquela cidade eleita por mim como futuro, indicava-me o cemitério. Era a terceira reunião de um dia que se iniciara antes da alvorada. Rotina medíocre que exercia por décadas; para ser sincero estava exausto! Maneira educada de dizer que estava com raiva.
Vivia mais um dia de batalha no trabalho. Dirigia num transito infernal. Pedestres andavam mais rápido que eu no meu velho carro sem rádio. Outro compromisso me esperava. Tentando acalmar os nervos cantarolava velhas canções, e inventava outras tendo como fundo minhas esperanças de uma vida melhor.
Uma buzina fantasma soou de um algum lugar, acompanhada de um tanque de guerra ou algo parecido. Nem deu tempo de pensar e meu carro voou por cima de outros que voaram por cima de tudo. Deve ter sido um destes desastres que não cabe na máquina fotográfica. Desacordado ou morto! Não sei qual dessas condições era a minha, sei apenas que não participei da dor. Sai ileso e caminhei em direção a um gramado que me levou a uma casa de madeira pequena e singela. Jardim na frente, pomar de maçãs, arbustos reforçando o verde das hortaliças. Mais parecia um quadro impressionista.
Bati palmas, nada! Bati na porta, nada! Toquei na maçaneta e a porta estava aberta. Para a minha surpresa um cartaz nominal: seja bem vindo! Há chá e bolachas na mesa – sirva-se. Sentei-me, completamente desentendido. Comi bem devagar aproveitando para um reconhecimento no interior da casa. Respirando suavemente observei aquela beleza interior. Luz natural, poucos móveis, mas todos de extremo bom gosto.
Termine o chá e vá para o quarto. Você precisa descansar... Parecia que a voz era da própria casa, que emendou – aproveite para se livrar destas roupas e coloque outras mais confortáveis. Há no quarto um guarda roupa com seu manequim. Meus olhos percorreram os trezentos e sessenta graus de uma circunferência e não vi ninguém.
No quarto, o incrível! Nem minha mãe ou mulher compraria uma bermuda e sandálias tão próprias para mim. Alguém me conhecia, imaginei!

Diante de uma cama de casal, melhor uma cama de reis, não resisti, deite-me e cochilei. Não sei quanto durou... Mal despertei e li no cartaz estrategicamente colocado no teto. Faça dessa, a sua casa, e o que puder para recuperar seu físico e seu equilíbrio emocional. A voz da casa completou; por que não vai tomar um banho no lago, aproveita e leva uma vara de pesca.
Obedeci! A água estava ótima. Liberei o adolescente e nadei bastante. Depois, sai e contornei as margens do lago até encontrar um lugar bom para pescar. Não fisguei nenhum peixe. Eles eram mais espertos que eu. Vieram muitos nadando com as costas para fora, coladinhos às margens. Podia vê-los por inteiro. Eles riam de mim, eu ria deles. Só faltaram dançar sobre as nadadeiras, deixando o corpo para fora da água, como fazem os golfinhos e também os desenhos animados. Curiosamente, apesar de não pegar nenhum, não me irritei como em outras pescarias.

O último deles trouxe um cartaz – porque você não dá uma corrida em volta do lago e vai até a cascata. Achei uma boa ideia suar um pouco. Quinze minutos e lá estava eu, Em seguida deitei sobre as pedras e ouvi aquela doce melodia d’água batendo nas pedras. Uma aula de meditação!
Alertaram-me. Hora do almoço! Olhei em minha volta e não vi ninguém.
Voltei para aquela casa. Abri a porta e não me contive: sorri e chorei ao mesmo tempo. A mesa posta com as coisas que eu gostava. Outro aviso: Coma só o necessário, o extraordinário fará mal a você.
Terminei a refeição, seguindo o conselho dado. Na varanda uma rede com um alerta: disponível por vinte minutos.
Aproveitei bem este tempo. Balançando suavemente. Comecei a folhear às páginas de um livro sobre filosofia do corpo e da alma e em seguida tirei outra soneca de minutos.
Depois caminhei até o jardim. Lá uma chuva fria tocou os meus pés – notei que não estava mais com as sandálias. Peguei o regador e passei a molhar as plantas, e as flores. Demais! Havia esquecido aquela maravilhosa sensação – de pura liberdade.
Como um imã, aquela paisagem, e os beija-flores, me prenderam ali até o final da tarde. Aquele momento em que o sol vira uma moeda de ouro e se esconde lá no fundo do horizonte espalhando raios dourados para todos os lados. Novamente aquela voz já conhecida; hora de jantar! Comi uma deliciosa sopa de legumes, daquelas que nos faz repetir e lamber os lábios. Inacreditável!
Fui para a cama ao som de músicas clássicas – bem baixinho: volume recomendado para recém-nascidos.
Acordei na minha casa, no meu quarto. Enfaixado dos pés a cabeça. As duas pernas penduradas em uma espécie de arara e, esticadas por pesos. Minha esposa e meus filhos em volta da cama. Em coro exclamaram: graças a Deus, nossas preces foram atendidas. Abraçaram-me com cuidado, deixando claro que me amavam. Nos seus rostos estampado um grito de felicidade. Ouvi alguém dizer: seis meses inconsciente: só pode ser um milagre. E eu pensei – quem algum dia poderá me explicar...


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