A professora sentou-se provocativamente no sofá. O menino à mesa – lápis, papel e o livrodidático indicado.

26 anos, reluzentes pernas morenas, em combinação perfeita com os olhos amendoados, elatinha considerável reputação no ensino da língua inglesa. Sua aula, R$ 800,00 ahora. E a classe média alta pagava. O preço impõe a qualidade.

- João, hoje vamos fazer uma tradução. Por favor, venha aqui e pegue o texto.

O menino levantou-se e recolheu o papel. Não olhou muito a professora, talvez porrespeito ou mesmo certo receio que ela pudesse inspirar. O texto:

“By the 1950s, it was feared that underdeveloped countries, already susceptible to the Soviet vírus,might see a model in China, which seemingly ‘had hit a formula for rapiddevelopment that might prove attractive throughout Asia, the Near East, and Africa’” (Chomsky).

A tradução:

“Pelos idos de 1950, temia-se que os países subdesenvolvidos, já suscetíveis ao vírus soviético,pudessem adotar o modelo chinês, que aparentemente ‘desenvolvera a formula parao rápido desenvolvimento, que se tornava uma atração através da Ásia, do Leste mais próximo, e da África’” (Chomsky).

Ao final do trabalho, o menino mostrou à professora o que tinha feito. Ela leu rapidamentee ele com certa timidez lhe perguntou:

- Ficou bom?

- Não.

- Qual seria a nota?

- Zero.

- Por que?, surpreendentemente ele arriscou.

- Porque em nenhum momento você olhou para a sua professora para saber como estava indo, ela nesseinstante com as pernas um pouco mais afastadas, o texto às mãos.

Rio, 15/05/2014