Fugindo da solidão.

Mais uma semana se passara. Como todas as outras. Sem sal sem pimenta. Sem nenhum tempero. Levantar, arrumar-se. Arrumar a casa. Cozinhar. Lavar. Passar. Ler jornais e assistir novelas. Às vezes uma esperança: quem sabe hoje o telefone toca, e alguém me convida para o cinema ou para o teatro. Mas, nada. Felizmente o domingo chega. Dia de feira. Onde se ganha; um bom dia senhora. E distrai-se conferindo a qualidade dos hortifrútis e comendo um pastel de queijo com calabresa. Ela, mulher independente e culta. Exigentes com suas amizades. Que são poucas. Uma irmã que mora longe. Amigas que não preenchem os dedos de uma mão.
A feira esta lotada, como de costume. Multidão. Pessoas de todas as idades e classes sociais. Pechinchando e comprando. Ela com sua sacola antiga. Caminha vagarosamente de barraca em barraca. Totalmente despercebida. Sem nenhuma pressa... Mora sozinha. Não tem que dar satisfação a ninguém. Seu apartamento; dois quartos, sala, banheiro, cozinha e uma pequena lavanderia. Financeiramente esta tranquila. Tem uma boa aposentadoria que lhe permite comprar o que quiser. Mas, só gasta o necessário, sem exagero. Sua sacola trás apenas o suficiente para a semana; peixe, verduras e algumas frutas. Chegando da feira toma o elevador até o terceiro andar e entra. Coloca as compras em cima da mesa da cozinha. Separa o que vai cozinhar no almoço, Almoço para uma pessoa só. Ela! O resto guarda na geladeira. Resolve, naquele dia, fazer um peixe capixaba. Receita que aprendeu num livro. São muitos, os livros de receita que possui. Faz tudo com cuidado, e sem pressa. Ritual que faz há dez anos. Período que já passou, desde o dia da sua separação. Não tem filhos. Esta muito insatisfeita. Seu telefone quase nunca toca. Vez ou outra seu ex-marido liga. Pra ela tanto faz. Ele já é passado. Assiste muita televisão. Tem uma instalada em cada quarto. Uma pequena na sala e outra na cozinha. Às vezes estão todas ligadas ao mesmo tempo. Assim sente a presença de gente, um jeito de driblar a solidão! Ninguém da família aparece. Uma amiga ou outra vem para jantar. Mas com raridade. Vive arrumando cursos, de curta duração, para passar o tempo; tricô, natação, computação. Deles, surge sua restrita rede social.
Mais uma vez vem o final dos cursos. As amigas desaparecem. Seus pequenos contatos, frutos de colegas de sala de aula, também. E agora, conversar com quem? Pensa! Boa noite e bom dia pra quem? Dorme num confortável colchão de casal. Apenas um travesseiro. É espaço demais para uma pessoa só. Chega! Chega de monotonia, e solidão. Toma uma atitude drástica. Vai para o computador. Pesquisa na internet algumas agências de viajens. Decide conhecer o mundo. Faz reserva para um país bem distante. Desliga a energia elétrica e limpa a geladeira. Fecha o apartamento. Toma um taxi até o aeroporto. Seu primeiro destino; fica do outro lado do oceano. Ela esta loira, bem vestida, cabeça erguida, sapatos altos. Com poucos pertences em uma pequena mala. Radicaliza; decidindo refazer o guarda roupa em uma nova cidade. Entra no avião. Adormece. Sonha com uma nova vida. O avião aterrissa, seu primeiro destino. Respira fundo e desce, sem nenhuma pressa: Linda e totalmente invisível, novamente só no meio da multidão...