Fugindo da solidão.

24 de Maio de 2014 JWILER Contos 843

Fugindo da solidão.

Mais uma semana se passara. Como todas as outras. Sem sal sem pimenta. Sem nenhum tempero. Levantar, arrumar-se. Arrumar a casa. Cozinhar. Lavar. Passar. Ler jornais e assistir novelas. Às vezes uma esperança: quem sabe hoje o telefone toca, e alguém me convida para o cinema ou para o teatro. Mas, nada. Felizmente o domingo chega. Dia de feira. Onde se ganha; um bom dia senhora. E distrai-se conferindo a qualidade dos hortifrútis e comendo um pastel de queijo com calabresa. Ela, mulher independente e culta. Exigentes com suas amizades. Que são poucas. Uma irmã que mora longe. Amigas que não preenchem os dedos de uma mão.
A feira esta lotada, como de costume. Multidão. Pessoas de todas as idades e classes sociais. Pechinchando e comprando. Ela com sua sacola antiga. Caminha vagarosamente de barraca em barraca. Totalmente despercebida. Sem nenhuma pressa... Mora sozinha. Não tem que dar satisfação a ninguém. Seu apartamento; dois quartos, sala, banheiro, cozinha e uma pequena lavanderia. Financeiramente esta tranquila. Tem uma boa aposentadoria que lhe permite comprar o que quiser. Mas, só gasta o necessário, sem exagero. Sua sacola trás apenas o suficiente para a semana; peixe, verduras e algumas frutas. Chegando da feira toma o elevador até o terceiro andar e entra. Coloca as compras em cima da mesa da cozinha. Separa o que vai cozinhar no almoço, Almoço para uma pessoa só. Ela! O resto guarda na geladeira. Resolve, naquele dia, fazer um peixe capixaba. Receita que aprendeu num livro. São muitos, os livros de receita que possui. Faz tudo com cuidado, e sem pressa. Ritual que faz há dez anos. Período que já passou, desde o dia da sua separação. Não tem filhos. Esta muito insatisfeita. Seu telefone quase nunca toca. Vez ou outra seu ex-marido liga. Pra ela tanto faz. Ele já é passado. Assiste muita televisão. Tem uma instalada em cada quarto. Uma pequena na sala e outra na cozinha. Às vezes estão todas ligadas ao mesmo tempo. Assim sente a presença de gente, um jeito de driblar a solidão! Ninguém da família aparece. Uma amiga ou outra vem para jantar. Mas com raridade. Vive arrumando cursos, de curta duração, para passar o tempo; tricô, natação, computação. Deles, surge sua restrita rede social.
Mais uma vez vem o final dos cursos. As amigas desaparecem. Seus pequenos contatos, frutos de colegas de sala de aula, também. E agora, conversar com quem? Pensa! Boa noite e bom dia pra quem? Dorme num confortável colchão de casal. Apenas um travesseiro. É espaço demais para uma pessoa só. Chega! Chega de monotonia, e solidão. Toma uma atitude drástica. Vai para o computador. Pesquisa na internet algumas agências de viajens. Decide conhecer o mundo. Faz reserva para um país bem distante. Desliga a energia elétrica e limpa a geladeira. Fecha o apartamento. Toma um taxi até o aeroporto. Seu primeiro destino; fica do outro lado do oceano. Ela esta loira, bem vestida, cabeça erguida, sapatos altos. Com poucos pertences em uma pequena mala. Radicaliza; decidindo refazer o guarda roupa em uma nova cidade. Entra no avião. Adormece. Sonha com uma nova vida. O avião aterrissa, seu primeiro destino. Respira fundo e desce, sem nenhuma pressa: Linda e totalmente invisível, novamente só no meio da multidão...


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