Café

29 de Maio de 2014 Edson veloso Contos 935

- Ei, táxi, táxi, tá…Valentina estava há dez minutos no mesmo lugar, com a esperança de encontrar um táxi, que a levasse ao seu destino. Era natal e os taxistas corriam o máximo, – que a cautela em relação às ruas escorregadias permitia- para encontrarem suas famílias.- Droga.O jeito era encarar nada mais, nada menos que os dois quilômetros que a separava do seu ponto preferido na cidade, o “Café Preto”, – O melhor café da cidade, ou o seu dinheiro de volta- além de possuir a maior diversidade de café de Paris, disponibilizava um acervo de livros para seus clientes. Café e livros, combinação que atraia algumas dezenas de pessoas.As ruas estavam quase desertas. Iria se atrasar. Ajeitou o seu casaco cinza e começou a caminhada. Ela frequentava o Café Preto duas vezes por semana – às vezes três- sempre no mesmo horário. No caminho, enquanto andava, imaginou um mundo menos burocrático, onde tudo atendesse à suas necessidades, pensou bem, achou que não seria muito divertido. Continuou o seu caminho. E mais ou menos meia hora depois, já se podia ver a fachada do café.Estava realmente muito frio, acelerou o passo para chegar logo e se aquecer, não deu outra, escorregou e se espatifou no chão.– Merda, merda, merda. Hoje não é o meu dia.Ao abrir a porta, um pequeno sino no alto do batente anunciou sua chegada. Rostos se viraram em sua direção. “Alguém precisa tirar isso daqui.” – Pensou. Sentou-se no mesmo lugar que costumava se sentar e pediu o de sempre. Valentina era uma mulher que não apreciava muitas mudanças. Correu os olhos pelas estantes com livros, um havia chamado sua atenção, o apanhou. – Romance? Revirou os olhos, mas não o devolveu. Alguns minutos depois e algumas paginas lidas;- Mais um desses, -ergueu a caneca- por favor. – Fazendo mais um pedido à garçonete.Sua concentração era surpreendente, para com um livro que outrora desdenhara. Estava há horas naquele mundo, mergulhada em um romance típico, porém bem escrito. E mais uma vez, a atenção de todos foi atraída pelo pequeno sino no batente da porta. Gabriel entrou com a cabeça baixa, revisava algumas notas em suas mãos. Valentina percebeu que ele caminhava em sua direção. Ao se aproximar mais dela, ergueu a cabeça e quando a viu, pareceu muito confuso. A encarou por alguns segundos, olhou para os lados e sentou-se próximo a ela. Valentina o observava de tempos em tempos, com os cantos dos olhos, e de tempos em tempos – não os mesmos tempos que os de Valentina- Gabriel a observava também, mas diretamente, sem disfarces, com um ar de nervosismo e indignação.Gabriel suava, uma de suas pernas balançava em um ritmo cada vez mais acelerado, passou a mão pelo cabelo e novamente a encarou.- Ei, você está bem? – Perguntou Valentina.Ele se levantou bruscamente, pegou suas coisas e sentou-se à sua mesa. Valentina o observava com espanto. Enquanto ele naturalmente revisava as mesmas notas de antes, porém, agora naturalmente, sem um aparente ataque epilético.- Meu nome é Valentina.(Silêncio)Ele olhou pra ela sem entender, e se deu conta do que tinha feito.- Minha nossa, me desculpe. Meu nome é Gabriel. Gabriel Vieira.“Gabriel? Gabriel Vieira? Familiar.”- Pensou ela. Apertaram-se as mãos, mas logo Gabriel desviou o olhar para as suas notas. Valentina cerrou os olhos, voltou à sua leitura e balançou a cabeça. “Louco” – Concluiu mentalmente. Passaram alguns minutos dessa forma, hora ou outra Valentina o espionava, com olhares embuçados sobre o livro. Gabriel ergueu sua caneca para a garçonete e fez um gesto com a cabeça, enquanto Valentina o observava, ele voltou os olhos para as notas e depois para Valentina, já ela mais que depressa voltou a ler, ele olhou para o titulo do livro que Valentina lia e esboçou um sorriso.- Romântica, então? – Acenou com a cabeça para o livro.- Ah, não, bem o livro chamou minha atenção, então o peguei e comecei a ler. Mas romance não é geralmente a minha primeira escolha.- Então, você não gosta?- Não, bem, é que eu sou muito realista em relação a isso. Não sou daquelas que espera um príncipe encantado. Mas se eu tivesse a certeza, que o amor da minha vida, estivesse por aí, entre as sete bilhões de pessoas existente no mundo, eu juro, juro com toda a minha verdade que bateria de porta em porta, até encontrá-lo.- Isso se ele não te encontrar primeiro.Valentina se surpreendeu com a citação que acabara de ouvir. Pois era a continuação da mesma que acabará de citar.- Você está citando o livro Srta. Valentina?– Ah, droga, já o leu?- Fui eu quem o escreveu.Ela olhou para a capa do livro, mas é claro, Gabriel Vieira, por isso que o nome soou familiar. Deixou escapar o mais vergonhoso dos seus sorrisos.- Então… Você é um escritor? “Que pergunta obvia.” – Sua mente a puniu por ela.- Sim. Sou.- Daqueles que amam as palavras e coisa e tal?- Veja, se eu pudesse, organizaria gestos em uma vida ao invés de palavras em uma folha em branco. Palavras são lindas, não me entenda mal, mas também podem machucar. Muitos dizem que dariam todo o seu amor, um fato lindo se concreto, mas e se for apenas… Apenas palavras vazias? Isso pode matar.(silêncio)- Então, você gostou do livro?- Ah, sim, muito bem escrito, parabéns.- Obrigado, obrigado. E qual foi sua parte favorita?- Ah, deixe-me ver… Deixe-me ver… Ela folheava o livro, a procura de sua citação favorita.- Ah, aqui, achei. “Você sabe que não precisa me prometer uma casa com cachorro, dois filhos e um quarto enorme e branco. Você sabe que existe a probabilidade de que nossas promessas e planos feitos em guardanapo, não cheguem a sair do papel. Mas você gosta de fazê-los. E eu gosto quando você diz “nós”. Me inclui naquele projeto de viagem e deseja que as horas comigo se arrastem, pra que os dias pareçam mais longos. Gosto do jeito que você pronuncia meu nome com o sotaque que eu amo, e ri do meu “porrr favorr”. Gosto até do barulho irritante do bip, quando meu celular, anuncia uma nova mensagem, dizendo “escutei a música que você indicou o dia todo. Lembrei-me de você o dia todo.” E apesar de não sabermos do amanhã, sei que posso contar contigo amanhã, e você sabe que também pode contar comigo. Sei que posso chorar no teu colo e dizer coisas que não devia, porque você não vai fugir como não fugiu da primeira vez. Ficou e secou o meu choro. E me deu a mão. O mais importante me deu a certeza de que viver a dois é ver o mundo de três modos: o meu, o seu, e o nosso.”Os olhos de Gabriel brilharam enquanto ouvia Valentina ler, a sua também, citação favorita.- Realmente essa parte é muito boa.- Como… Como que é escrever um livro? Como você se sente?- Bem, é muito engraçado, veja. Enquanto eu o escrevia, ele parecia uma extensão do meu corpo, era meu apenas. Agora, o vendo em suas mãos, parece mais seu que meu.- Você estava bem? Digo. Você parecia um pouco… Estranho na outra mesa.- Ah me desculpe, você deve estar me achando um louco. É que eu venho sempre no mesmo horário aqui, no Café Preto e sempre, sento aqui, nessa mesa. Não consigo trabalhar de outra forma, a não ser assim, digo, aqui nessa mesa, ou no meu escritório, é claro.– Eu também sempre venho no mesmo horário, é que hoje eu me atrasei, sabe, taxistas desesperados pra chegarem em casa. – Valentina falava, enquanto beijava-o com os olhos. – E também sempre sento aqui, nessa mesa.Um silêncio gritante pairava entre os dois, se deliciavam com olhares marejados, brilhantes.- Então, o destino nos trouxe aqui? – Disse o rapaz.- Destino? Creio que não, apenas as consequências. Você acredita mesmo nisso de destino?- Estou começando acreditar… – Então, você… – Uma voz de repente corta a conversa. E dessa vez, não foi o pequeno sino que roubou a atenção de todos.- Senhores, me desculpem, mas a previsão meteorológica é péssima. Possivelmente a energia cairá e tem tempestade pela frente. Teremos que fechar o café. Muito obrigada.Valentina e Gabriel se olharam com um olhar de desapontamento, aquela noticia significaria o fim daquela conversa e estavam cientes disso.- Bem então é isso. – Lamentou Gabriel.- É isso. – Concordou Valentina.Levantaram-se, após acertarem a conta – paga com insistência por Gabriel – seguiram os outros que também iam saindo do café. Enquanto andavam, – coincidentemente para a mesma direção- agarravam-se aos segundos para se conhecerem melhor. Até Gabriel parar em uma esquina.- Bem, é aqui que eu viro.- Já eu sigo reto.– Quando nos veremos de novo?- Deixe por conta do destino.- Achei que não acreditasse em destino.- Também achava que não.

OBS: Parceria com Ludmila Sampaio 

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