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A CAVEIRA ENTRE AS ROSAS

O último cliente havia acabado de sair e eu estava sentada em um dos bancos de espera do estúdio tomando um café morno. A noite já vinha caindo, mas ainda permaneceríamos abertos durante algumas horas. Naquela terça-feira, o movimento estava calmo. E então ele entrou. Era moreno e não devia ter mais de quarenta e cinco anos. Havia um misto de cansaço e disposição nas suas atitudes e ele entrou decidido.

- Quero uma caveira, dessas mexicanas. Uma caveira com um punhal atravessado, cercada por quatro rosas.
Não era um pedido incomum. Já havia tatuado centenas de caveiras, inclusive as mexicanas, e a ideia do novo trabalho pouco me impressionou. Me intrigaram as rosas, então entabulei uma conversa, para que o nosso tempo transcorresse mais animado.
- Interessante a escolha das rosas. Não costumo tatuar muitas caveiras rodeadas por rosas. O contraste me parece interessante...
- São as minhas quatro filhas, ele disse. Uma homenagem a elas. E a caveira na verdade sou eu, com este punhal atravessado que significa a minha vida, o fardo que resolvi com muita coragem assumir. A caveira é mexicana porque evoca pesar e alegria ao mesmo tempo, e esta é a minha vida. Esta tatuagem também reafirma a minha masculinidade.

Pensei por um instante no que ele havia acabado de me contar. Certamente, se tratava de um homem sensível e um pai amoroso.
- Você quer a arte colorida?

- Não, minha querida, não precisa. Eu quero em preto-e-branco mesmo. Não preciso de mais cores, aminha vida até que é bastante colorida. As minhas meninas, desde a mais velha com catorze anos, entrando na adolescência, idade difícil...mas desde a mais velha até a minha “bebê” de sete anos já dão todos os coloridos da minha vida, com as tintas da juventude. Sabe, eu passei todos esses anos cuidando delas. Fui eu quem lhes banhou e lhes penteou os cabelos, e tive a tarefa nada fácil, para um pai, de escolher as mais belas fitas para adornar-lhes os cabelos. Comprei seus vestidos e sapatos, brinquei de boneca com elas e até ajudei a mais velha com a maquiagem. Então de cores eu não preciso, só preciso eternizá-las na minha pele, para que nem eu e nem elas nunca nos esqueçamos de toda a luta que travei e de todas as alegrias que elas me dão.

- Você cuida delas sozinho?, perguntei debruçada em seu braço, já envolvida pela história.
- Cuido,ele me respondeu com um suspiro. Cuido há muitos anos. Desde que a mãe delas resolveu partir. Sabe, nos casamos muito jovens, com aquelas promessas de amor eterno. Ela já estava grávida da primeira. Mas com o passar dos anos, fui percebendo que ela não sentia-se mais feliz. Mesmo com todas as meninas. Ou talvez por causa dela, eu não sei. Todas as noites, quando ela não estava na cama e eu a encontrava na sala e pedia-lhe para que viesse dormir, ela me dizia “falta algo”. Acho que foi sua alma, que foi aprisionada cedo demais. E quando chegou a certo ponto,ela quis começar uma vida completamente diferente.
- Em um dia, enquanto tomávamos o café, ela simplesmente não pôde mais e me disse “preciso começar uma vida nova. Você pode me ajudar?”

- Respirei fundo. Tive a impressão de esta ser a história de amor mais bonita que eu já ouvira na vida.
Ele não percebeu a minha emoção e continuou:

- Naquele momento, entendi que aquela mulher precisava de toda aminha compreensão. Precisava viver o que o casamento e maternidade precoces lhe haviam roubado. Precisava reescrever a história da sua vida e nesta história, não havia mais lugar para nós cinco. Então assenti. Eu a amava e era lógico que iria ajudá-la. Ela não precisava se preocupar, eu assumiria a educação de todas as meninas. Ela me olhou com lágrimas nos olhos, disse “muito obrigada” e partiu. Mas não para senpre. Ela ainda vem ver as meninas de vez em quando. E hoje posso dizer que somos todos muito felizes com a vida que escolhemos.

- E não foi difícil cuidar de tantas crianças sozinho?, perguntei, trabalhando instintivamente com muito mais dedicação ao desenho da caveira com as rosas.

- Sim, bastante. Mas eu sou um homem forte e não sou dado à depressões. O que fiz, na verdade, foi me matricular em um curso de desenvolvimento infantil para ter a certeza de que seria capaz de entendê-las em suas fases e oferecer-lhes o melhor do que sou capaz. E tive muito êxito nisto. Não falta nada para as minhas filhas e elas estão crescendo como crianças felizes. Talvez nem toda família precise ser igual para ser boa, não é?

“É verdade”, me peguei pensando enquanto limpava os resquícios da tatuagem recém-criada. Aqui está, falei mostrando o espelho.
Ele abriu um largo sorriso. “Ficou melhor do que eu imaginava. Elas vão adorar as rosas!”. E saiu, satisfeito pela homenagem que prestara à sua própria alegria de ser. Terminada a sessão, não apenas aquele homem levava algo diferente em si, como também deixava sua marca em mim, que eu levaria como exemplo pelo resto da minha vida.

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*Este conto é baseado em uma história real.