Livro: crônicas de uma morte atrapalhada - I

04 de Junho de 2014 challenger Contos 905

Depois de um dia exaustivo no meu bar, notei que estava ficando velho
demais. Eu tenho 76 anos e nunca havia me achado "velho". Mas como eu
descobri isso? Achei uma moeda de um real no chão e quando a peguei,
ouvi um "crec" nas minhas costas. E por conta desse "crec", estou a
quase três meses andando "curvado". Porcaria. Só não fui para o hospital
porque tenho medo de que o médico me receite, entre outras coisas, uma
bengala. Odeio bengalas. Odeio tanto, que se eu encontrá-la na mão de um
outro "velho" , eu chuto essa porcaria para bem longe. Mais tarde eu
explico porque.

  Eu tenho um bar. Herdei de um pai que nunca conheci. O nome dele?
Não está na minha identidade e muito menos nos arquivos do cartório aqui
da cidade. Já fiz a minha pesquisa. Deve ser José, porque o chamavam de "Zé
Malandro". Devia ser parente daquele papagaio dos quadrinhos, o "Zé
Carioca". Meu pai era carioca, um típico carioca malandro e sem vergonha
que veio para Minas Gerais. Diziam que ele havia fugido de alguns pais
revoltados por ter suas filhas "desonradas" por meu pai. "Desonradas",
que palavra mais velha. Será que isso é sinal de velhice?

  Como eu sei tanto do meu pai? Porque a minha tia (junto catarro na
boca e cuspo longe), minha velha tia, a única parente que me sobrou, a
pessoa que cuidou de mim, não parava de falar no meu pai. Dizia ela que
minha mãe, era a filha mais linda de sua irmã (minha vó). Tentei
imaginar como a minha mãe seria bonita, porque a minha tia era uma bruxa
velha, que usava bengala e tinha incontáveis gatos. Ah, eu disse que
odeio gatos? Pois bem, onde eu estava? Ah sim. E sabem por que eu odeio
bengalas? Por causa da maldita bengala preta que minha tia usava. Usava
para se equilibrar e para me bater. Já apanharam de bengala? Nunca? Não
desejo isso para ninguém!


  Enfim, minha mãe conheceu meu pai, quando este sujeito chegava na
cidade. Eles meio que se toparam numa rua e ele, que diziam que era
bonito e malandro, jogou todo o charme numa moreninha que devia ter uns
dezesseis para dezessete anos. Não me lembro de nenhuma informação sobre
a idade do meu genitor, mas diziam que ele se vestia e falava como um
malandro e talvez aí o apelido.


  Para resumir a história, porque ela é bem longa, os dois se
juntaram num casamento forçado e alguns dias depois eu nasci. Depois de
alguns anos, meu pai fugiu da cidade, deixando o seu bem mais precioso, seu bar.


  Em 1928, criou-se a primeira escola de samba do Brasil, a Deixa
Falar. Zé Malandro, adorava samba, festa, bebidas e claro, mulher. Teve a
ideia genial de ter um bar, onde tudo isso estaria junto e ainda
ganharia dinheiro. Colocou o nome do bar de "Deixa Beber", iniciando uma
história de sucesso. Comecei a trabalhar muito novo, com dez anos. E
podem acreditar em mim, vi o mundo inteiro e suas histórias no bar
"Deixa Beber". Aliás, o nome do bar tem uma outra versão, mas depois eu
conto, escrever no computador me deixa zonzo e mais lerdo do que o
costume.


  Amanhã, depois de fechar o bar, volto a escrever.


  Como? Não me apresentei? Mas que cabeça a minha não? Meu nome é...

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