O PRIMO DO BASÍLIO

12 de Agosto de 2011 ivanlimasp Contos 1004

Ele fala pra todo mundo lá na padaria do "seu Manoel" no bairro do Mandaqui, que é primo do heroi corinthiano Basílio, autor do famoso gol que deu o título do Campeonato Paulista de 1977 ao Timão e libertou a Fiel de um sofrimento de 23 anos sem títulos. Com essa história José Roberto Basílio, o Zoca como é conhecido, se tornou figura emblemática no bairro.
Ele participa das peladas nos campos e quadras das redondezas desde garoto, mas nunca demonstrou ter qualquer inclinação para o futebol. Os amigos o deixavam participar na esperança de algum dia serem premiados com a visita do primo ilustre e, quem sabe, ganharem um autógrafo seu. Porém, jamais alguém vira o Zoca na companhia de seu primo famoso, o João Roberto Basílio, ou apenas Basílio no meio futebolístico. Ele também nunca mostrou pelo menos uma foto ao lado do jogador, nem tampouco um autógrafo e nem mesmo uma camisa 8 do Timão dos anos 70, o que poderia até serem aceitos como prova de seu parentesco. Mas nada. Apenas a semelhança do nome e o mesmo sobrenome é que dão sustentação ao figurão Zoca. O "seu" Manoel, dono da padaria onde o pessoal se encontra todo sábado depois das peladas pra tomar umas geladas e jogar conversa fora ficava indignado.
Certo dia ele pôs uma pressão em cima do Zoca:
-Ó gajo, tu falas aos quatro cantos que és primo do tal Basílio, o heroi corinthiano, mas até hoje nunca ninguém te viu com el', ó pá! Que raio de parentesco é iesse, homem? Pelo que sabemos o tal Basílio não é esnobe nem nada, é um gajo bestial. O que passa?
-Ah "seu" Manoel, sabe como é né. Gente famosa não gosta de ficar por aí dando mole. Tem que preservar a imagem. Meu primo é muito reservado. Mas eu vou sempre à casa dele, quando faz churrasco me convida.
-Está certo, se tu dizes eu acredito, mas tu vais fazer uma coisa por mim.
-Diga lá portuga, o que é?
-O Basílio começou a carreira na minha querida Lusa, ó pá. Então, quando fores à casa del' eu vou mandar uma camisa da briosa para el' autografar pra mim.
Por essa o Zoca não esperava. Gaguejou e falou:
-"Seu" Manoel, vai ser um prazer fazer isso para o senhor, mas vai ser assim, de graça?
-Eu sabia que tu não me farias um favor desses a troco de nada não é. Pois bem, que todos sejam testemunhas que no dia que trouxeres a minha camisa da Portuguesa autografada pelo teu suposto primo Basílio, terás direito, tu e teus amigos a beberem cerveja de graça, todo sábado por um mês neste estabelecimento.
Os olhos de Zoca brilharam e a euforia dos amigos foi grande. Porém o "seu" Manoel, que não é burro nem nada completou:
-Mas tem uma condição aí, não penses que vai ser assim tão fácil, ó pá.
-Pode falar "seu" Manoel, qualquer coisa eu aceito.
-Você e seus amigos poderão beber cerveja de graça todo sábado, durante um mês neste estabelecimento, desde que teu suposto primo Basílio esteja junto, confere?
Enquanto "seu" Manoel dava gargalhadas alisando o bigode os amigos de Zoca ficaram calados olhando um para a cara do outro na certeza de que não teriam cerveja de graça coisa nenhuma.
Porém o Zoca respondeu:
-"Seu" Manoel, me dá cá a camisa da Lusa e pode encher suas geladeiras que no próximo sábado já vai ter cervejada aqui.
-É o que vamos ver, é o que vamos ver "seu" Zoca.
E Zoca pegou a camisa das mãos do português e se foi.
Passada uma semana, no sábado seguinte, no fim da tarde como de costume, a turma que havia jogado uma pelada se reuniu na padaria do "seu" Manoel, porém o Zoca não estava presente.
O semblante do português ficou sério e com ares de preocupado perguntou aos presentes:
-Onde está aquel' tratante? Cadê o Zoca com a minha camisa da Lusa? Será que perdi o freguês e a minha adorada camisa da briosa? Era só o que me faltava, como fui acreditar naquel' mentiroso?
De repente, para a surpresa de todos entra na padaria o Zoca com a camisa da Portuguesa devidamente autografada por Basílio e com uma inscrição: "cerveja tem que ser bem gelada".
O portuga quase caiu das pernas. Zoca então falou:
-Portuga, desce cerva bem gelada para mim, para meus amigos e para meu primo Basílio.
E eis que para a admiração de todos e desespero do "seu" Manoel entra no seu estabelecimento o grande ídolo da nação corinthiana Basílio, autor do gol mais famoso do Brasil e fala:
-Nunca duvidem do que um Basílio é capaz.
E durante os quatro sábados seguintes a rotina na padaria do "seu" Manoel foi a mesma. Cerveja de graça para os amigos do Zoca e para o primo Basílio.
Até hoje não se sabe se o Basílio é mesmo primo do Zoca, mas que ele gosta de uma cervejinha, isso é sabido por todos.

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