A EX BRAVA ISAURA

12 de Agosto de 2011 ivanlimasp Contos 1157

Isaura era uma solteirona de quase quarenta anos que morava com a mãe numa casinha de dois cômodos em um vilarejo rural chamado Peitudos, na região sul de Minas Gerais.
Era famosa no local e nas redondezas, não por dotes físicos, pois era feiosa a coitada, mas pelo seu grande mau humor. Isaura nunca tivera um namorado nem um paquera sequer. Na escola sempre fora preterida pelos rapazes, até pelos capiaus mais desajeitados. Era muito trabalhadora e desde que seu pai falecera quando ainda era uma adolescente, trabalhou duro na roça para sustentar a si e a sua mãe. Estudou na escola rural local até completar o ensino fundamental e depois foi estudar magistério na cidade. Durante três anos acordava às 5:00 horas da manhã, tomava o ônibus e voltava às 12:00 horas, almoçava e cuidava da roça até anoitecer. Depois de tomar um banho e jantar, sentava-se no alpendre da casinha, conversava um pouco com a mãe e quando esta ia dormir, ficava sentada mais um pouco, sob a luz de um lampião lendo, que era seu maior prazer na vida. No ônibus escolar ela não conversava com ninguém pois todos a tinham como esquisita, o que a aborrecia muito e deixava-a tão furiosa a ponto de trocar socos com os garotos. As meninas então, nem se fala, morriam de medo dela e a chamavam de medonha.
Passados os três anos, formou-se no magistério e foi contratada pela prefeitura para lecionar na escola rural onde havia estudado. Então Isaura tornara-se professora, deixando de lado o trabalho na roça. Como era de se esperar, Isaura era tremendamente brava com os alunos, sobretudo com os preguiçosos, que não eram poucos. Eles até tentavam agradá-la levando presentes típicos da roça como frutas, galinhas, leitões e teve até um que levou uma vaca leiteira, mas nada agradava a moça. Puxões de orelha eram o castigo mais brando que impunha aos alunos. Colocava-os ajoelhados sobre grãos de milho com o rosto colado na parede, deixava-os em pé durante toda a aula e sem recreio, ficava muitas vezes até duas horas a mais depois das aulas com alunos de castigo fazendo exercícios de matemática. Era realmente muito brava. Nem sua mãe, que ao contrário da filha era um doce de pessoa, sabia explicar os motivos de tanto mau humor da moça.
Não havia muito para se fazer naquele lugarejo. A rotina de Isaura era de casa para a escola, da escola para casa e aos domingos ia na igreja com a mãe. O padre ficava receoso quando via Isaura na fila da confissão pois sabia que lá vinham muitas e muitas queixas da moça sem que ele pudesse fazer nada para ajudar, a não ser ordenar que rezasse muitos pai nossos e aves Maria, o que a deixava muito brava até o ponto de brigar com o pobre vigário, como se este tivesse culpa pelos seus infortúnios. De vez em quando o pároco promovia uma quermesse e era o momento de maior alvoroço no vilarejo, pois todos participavam, moços e moças, velhos e velhas, crianças, adolescentes, homens e mulheres em geral. Todos menos uma, Isaura. As poucas vezes que foi, sempre voltou para casa com raiva pois sempre acabava brigando com alguém, geralmente com algum rapaz que a fazia de boba mandando correio elegante falso marcando encontro e a deixando plantada esperando enquanto os outros riam dela. Por isso, há muitos anos, quando tinha quermesse ela se fechava em sua casa e não saía para nada. Sua pobre mãe insistia mas ela não colocava a cara para fora da porta. Depois de muito brigar, sua mãe se cansava e a deixava em paz e ia para a festa. Porém, desta vez aconteceu algo diferente. O padre anunciara no domingo anterior à quermesse que espalhara convites por toda a região e até na cidade e que muitas pessoas diferentes viriam e aquela seria a melhor e maior quermesse jamais realizada naquela paróquia. Aquilo aguçou a curiosidade de Isaura e no sábado de manhã chamou sua mãe e foram para a cidade comprar roupas novas, o que não faziam há muito tempo. Sua mãe foi sem perguntar nada pois sabia que se perguntasse receberia uma resposta atravessada da filha. Isaura entrava e saía das lojas sem nada comprar, pois sempre brigava com as vendedoras, até que chegou em uma loja que realmente gostou de uma roupa e acabou comprando, mesmo brigando com o gerente que não lhe concedeu desconto. Passou em outra loja e comprou um perfume, depois saiu da loja e foi a um salão de beleza. Cortou os cabelos, fez as unhas das mãos e dos pés, mas brigou com a manicure que lhe tirou um bife da cutícula e foi embora. Realmente seu visual melhorara bastante e com isso sua autoestima elevou-se também. Para a surpresa de sua mãe, do padre e de todos os locais, Isaura aparecera na quermesse depois de muitos anos. Apenas sua simples presença já causaria alvoroço, ainda mais agora com aquele visual diferente, perfumada e muito bem arrumada. Ela ameaçou brigar com todos que a olhavam espantados, porém sua mãe deu-lhe um cutucão, chamou-a para um canto e implorou que a filha se comportasse e ela o fez.
Sentaram-se em uma das mesas e ela olhou em seu redor e realmente havia muita gente diferente, de outros lugares que ela nunca havia visto. Em uma das mesas estavam sentados um casal e um homem de meia idade, moreno, calvo, de óculos e com os poucos cabelos que ainda lhe restavam grisalhos. Mas ele tinha uma presença interessante, estava sempre rindo com os demais, contava piadas, parecia muito bem humorado e aquilo chamou a atenção de Isaura. Por um instante aquele homem olhou em sua direção e percebeu-a olhando-o. Os olhares se cruzaram e algo estranho aconteceu com Isaura. Ela tremeu e sentiu sua mão ficar suada. Aquilo nunca lhe acontecera antes. O homem, por sua vez, percebeu algo na moça diferente das mulheres que conhecera até então. De súbito, interrompeu uma piada que contava aos amigos e foi em direção a Isaura. Quando o homem se aproximou ela ficou sem saber o que fazer. Ele parou à sua frente, olhou-a nos olhos e falou:
-Olá, boa noite, tudo bem? Meu nome é Francisco, pode me chamar de Chico. Posso me sentar?
Nesse instante a mãe de Isaura pediu licença e saiu rapidinho para não atrapalhar o que ela entendeu como uma paquera, e que nunca havia presenciado acontecer com a sua filha.
Isaura olhou séria para o homem e sua vontade foi mandá-lo voltar para onde havia saído, mas algo a impeliu a ser cordial, pelo menos aquela vez. Ela então respondeu:
-Olá, tudo bem, meu nome é Isaura. E emudeceu.
Chico, um homem experiente na vida, que já conhecera uma dezena ou mais de mulheres, viu tratar-se de uma inexperiente na arte da paquera, por isso tomou as rédeas da situação e pergunou novamente:
-Posso me sentar com você?
Não havia outra saída para Isaura a não ser concordar, e ela o fez com a cabeça. À partir daí os dois engrenaram uma conversa, o que deixou todos os locais espantados, pois nunca haviam visto Isaura trocar mais que duas palavras cordiais com alguém, principalmente com um homem.
Os amigos do Chico também ficaram curiosos e resolveram ir até a mesa onde o casal estava para conhecer a tal moça que roubara a atenção do amigo. Aproximaram-se e Chico os apresentou:
-Esta é Isaura, ela mora aqui em Peitudos e é professora na escola municipal.
Esses são meus amigos Iran e Lúcia, eles tem um sítio aqui perto e de vez em quando eu os visito.
Apresentados todos, o casal de amigos voltou para sua mesa e assim foi até o fim da festa. Chico e Isaura conversavam animadamente quando a mãe dela se aproximou e ela o apresentou:
-Mãe, este é o Chico, ele mora em Campinas e veio visitar seus amigos que moram num sítio aqui perto.
Sua mãe olhou aquele homem e viu nele alguém que poderia mudar a vida de sua filha; pressentimento de mãe. Então disse:
-Muito prazer “seu” Chico, meu nome é Amélia.
Ele respondeu com a polidez que lhe era característica:
-O prazer é todo meu “dona” Amélia, encantado em conhecê-la.
Dona Amélia então disse que estava na hora de irem para casa e todos se despediram.
Aquela noite Isaura foi dormir sorridente e com uma sensação de bem estar como nunca havia sentido antes.
Na manhã seguinte, logo cedo, Chico estava no vilarejo para a missa, coisa nada comum para ele, mas como havia combinado com Isaura, foi cumprir sua palavra. Encontrou-se com ela e sua mãe na frente da igreja, conversaram um pouco e logo entraram. A mãe de Isaura foi para a fila da confissão mas a moça desta vez não foi, preferiu sentar-se num banco ao lado do convidado. O padre sentiu-se aliviado.
Depois da missa ela o levou para almoçar em sua humilde casa. A comida era simples mas muito boa, preparada a quatro mãos. Isaura e sua mãe cozinhavam muito bem. Comeram frango caipira no molho, mandioca cozida, arroz, feijão e farinha de milho. No caminho entre a igreja e a casa de Isaura Chico passara num bar e comprara umas cervejinhas geladas, coisa que não dispensava, ainda mais num domingo.
Após o delicioso almoço, sentaram-se no alpendre da casa e conversaram um pouco. Chico então convidou Isaura para um passeio em seu carro. A moça hesitou mas sua mãe incentivou e ela foi. Chico levou-a até a cidade, foram a uma sorveteria, tomaram um delicioso sorvete e quando entraram no carro para voltarem para casa, inesperadamente Chico cravou-lhe um beijo na boca.
Isaura ficou atônita, sem saber como agir, mas gostou e continuou beijando e sendo beijada. Calafrios passaram pelo seu corpo e sentiu coisas que nunca tinha sentido antes e estava gostando. Muitos beijos depois, pegaram a estrada de volta para casa e ao passarem por um cafezal a moça pediu que Chico parasse o carro. Desceram e adentraram a roça. Ela mostrou-lhe onde trabalhou durante muitos anos da sua vida e levou-o a um canto, debaixo de uma frondosa mangueira onde voltaram a se beijar e acabaram por consumar uma relação sexual. A moça que até então era virgem, jamais experimentara tal sensação e ficou quase que em transe. Chico, que embora experiente nunca havia estado com uma virgem, também. Depois de alguns minutos sem nada dizerem, quando voltaram ao estado normal descobriram-se perdidamente apaixonados.
Voltaram para a casa de Isaura e anunciaram à sua mãe que pretendiam se casar. A mãe ficou eufórica e aceitou no mesmo instante. Foram naquele dia mesmo falar com o vigário, que abençoou de pronto e marcaram a data. O Chico que já estava aposentado, mudou-se para a casa de Isaura, montou um bar no vilarejo e depois de alguns dias se casaram.
Nunca mais se ouviu falar que Isaura tivesse brigado com alguém, nem mesmo com o Chico que às vezes exagerava na dose das bebidas que tinha em seu próprio bar, deixando por vezes até clientes sem ter o que beber.
Isaura agora era uma nova mulher. O que faltava à ela era um homem e agora ela tinha, não havia mais motivos para mau humor. Seus alunos nem lhe presenteavam mais e mesmo assim ela era atenciosa e não colocava mais ninguém de castigo. Não brigava mais com o padre, embora não mais se dirigia ao confessionário, mas o vigário não se preocupava com isso. Passava pelas ruas do vilarejo sorridente e cumprimentava a todos, independentemente se a cumprimentavam ou não. Ela estava feliz.
E assim ficou conhecida no vilarejo como a ex brava Isaura!

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