Em seu quarto você se protege. Se sente segura e salva daquilo que diariamente não pode evitar.
Então você tranca a porta e põe-se a chorar. Coisa que se contenta em não fazer na frente de todos na escola, pois no mínimo eles iriam muito gargalhar.
O seu quarto é o seu lugar.
Você é livre nele.
E nele você se despe de todos os seus medos diários e começa a cantar baixinho, como se quisesse conversar com os anjos.
Você é abandonada em seu lar.
Seus pais mal percebem sua entrada e sua saída de casa.
Você se sente esmagada por estes sentimentos que dia após dia só vêem para torturá-la. Não se sente parte dessa sociedade desumana.

Só é visível quando tem que ir à escola, quando é chacota de todos por usar roupas fora da moda, velhas e costuradas. E por obrigação de seus pais que dizem que não querem criar vagabunda em casa.
Adora a noite.
Fica da janela olhando para as estrelas brilhando. E olha para a lua, desejando brilhar intensamente que nem ela. Quem sabe um dia, quem sabe...
E delira em sua imaginação.
O que seria de nós sem os nossos delírios né?
Então, neste momento ela não se sente esmagada por ninguém. Ali, da janela, sonha em sair deste bairro e viajar, para bem longe daqui. Longe de tudo que faz ela desaparecer todos os dias.
Longe de tudo que a faz esmorecer.
Ai, deitada em sua cama, com o seu pijama de ursos carinhosos, você imagina que irá vencer e que um dia dirá a todos a sua grande história.
Vai mostrar que venceu, que lutou e que superou todos os seus medos e todos os desprezos alheios.
Ai, deitada e olhando para o seu abajur em forma de aquário, você se obriga a esquecer tudo que vivenciou hoje, ontem e anteontem, para arduamente conseguir cair em seu sono apaziguador.
Amanhã é outro dia e quem sabe, a realidade muda de repente e você volta a sorrir igual quando era bebê?
Volta a acreditar que todas as pessoas são boas e que este mundo é um lugar seguro de se viver né?
Quem sabe...

Boa noite, Ana.