Caminho

08 de Junho de 2014 Elias Lima Contos 1655

Adoecido pelo excesso de luzes, ele resolveu parar.
Está sem forças.
Parou no meio do caminho. Agachou-se e olhou para o céu, como se esperasse uma resposta.

Trovoadas.
Nuvens pesadas de tristezas, carregadas de angústias e cinzas de melancolia pairaram em sua cabeça. Outras, mais escuras e sombrias aglomeravam-se, na tentativa de bloquear o sol.

O vento sopra forte. As folhas se levantam do chão de onde estavam caídas e põe-se a voar livremente e ligeiramente.

Tempestade.

Ele não quer se entregar. Já correu muito para chegar até ali. Parar seria estúpido. O que levaria desta vida ao morrer? Covardia?

As gotas pesadas da tempestade começaram a molhar sua face cansada, somando-se ao suor de seu fadigado espírito.

Ele sentou-se.
Quis sentir a tempestade invadindo sua alma, penetrando-a através de seu fraco corpo.
Seu espírito está se molhando. Se banhando das águas do céu.
E ele enxerga que ele pode ir além do que sente, do que vê nessa sociedade que insiste em limitar o seu horizonte.

E deixa a chuva molhar seus cabelos.
Ele respira novas energias. Será?
E deixa o vento levar todos os papéis com os seus manuscritos, afinal, tudo que escreveu está intacto e guardado dolorosamente em sua pesada memória de lembranças sombrias. E que elas jamais desaparecerão de sua mente tão perturbada.
Nada se apagará com terapias, nem filosofias, nem literatura.
Nada.
Sua memória é a sua verdade e dela ele não pode se livrar mais.
E jamais.

Abaixa a sua cabeça banhada pelas gotas cinzas de chuva e começa a chorar. Mágoas contidas são águas paradas que não desaguaram em nenhum lugar.
Mas agora elas estão desaguando e desabando em seus olhos frios, cheios de inseguranças.
Medos e traumas de infância.
Dores infinitas de seu passado vêm o assombrar, o paralisar. Querem o seu sangue, sua alma.
E os seus fantasmas pedem para ele parar, dizendo que seus sonhos são ingênuos e que de nada adianta tentar.
Nada vai dar certo.
Nada.

Ele tenta respirar, mesmo exausto.
Dificilmente consegue encontrar um ar puro, livre dessas sombras.

Mas o sol aparece novamente, afastando todas as suas nuvens pesadas. O tempo se abre e ele mal consegue enxergar o sol.
E decide: mesmo com tantas marcas, ainda vai continuar. Vai percorrer este caminho: sua missão ou seu destino?
E ninguém o irá parar.
De testemunha viva ele tem Deus e seus Orixás.
Desta vida ele só tem um sonho: se superar.
No coração, uma esperança: esquecer de tudo que viveu e sentiu mesmo quando ainda era criança.
E no espírito, uma missão ou destino: morrer sabendo que fez o melhor que pôde enquanto podia fazer.
E chora em paz.

As gotas de chuva vão se secando como as mágoas vão se esvaindo juntamente com os raios de sol.
E descobre: a chuva é doce.
E agradece o Sol por espantar todos os seus medos e fantasmas e agradece a Natureza por acordá-lo desta desilusão profunda.
Então ele se levanta.
Um pouco fraco, mas quer levantar e mostrar ao mundo que ainda existe esperança nele, em sua alma violentada tantas vezes por quem ele ama.

E em fé, caminha em harmonia com os seus pés.

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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