Em uma tarde fria e ensolarada de junho, onde o vento soprava calmo e
gélido e o céu era de um azul perfeito e sem nuvens; uma senhora estava
sentada num banco de praça a pensar.  Clarisse era seu nome, era bonita
ainda, mas com um olhar triste, cabelos longos, brancos com alguns fios
castanhos, como mechas, preso em um frouxo coque. Seu corpo havia
envelhecido, mas sua alma não, e muito menos sua memória.    Ainda
se lembrava de um grande amor que nunca tinha vivido,  já tinham se
passado cinquenta anos, mas ela ainda gostaria de saber se teriam sido
felizes ou não, se teria dado certo. Um amor como aquele ela nunca
sentira de novo, claro que tinha amado novamente, até muitas vezes, mas
nunca como aquele.    Foram separados no auge da adolescência e da
paixão, uma paixão tão forte como a morte, que não conseguiu dissolver
com o tempo nem com a ausência, ainda hoje uma música, uma fragrância,
um sentimento a fazia lembrar-se dele. Não sabia se era recíproco, se
esse amor ainda estava gravado nele, provavelmente não e de qualquer
forma nunca saberia, não queria tocar naquele assunto mais, não queria
abrir feridas ainda não cicatrizadas.    Ainda sentada na praça a
pensar e lembrar, o sol esquenta sua pele  e lhe dá uma sensação de
contentamento, os pássaros cantam numa árvore próxima, crianças correm e
idosos conversam. Ela olha para rua em frente e o  vê  passando
lentamente, ele olha para ela e dá um sorriso triste e um pequeno aceno
de mão, ela nada responde, de seus olhos uma grossa lágrima rola, por
tudo o que poderia ter sido, quem sabe.