Quando tudo mudou...

14 de Junho de 2014 Luis Henrique Kolba Contos 791

   Durante a noite, passando pelas ruas
húmidas por causa das finas gotas de chuva que caiam, era apenas o resto do
forte temporal fora á minutos atrás, os locais mal iluminados pela iluminação
pública e precária, o cenário mais parecia um convite para a morte do que para
qualquer outra coisa. A cada esquina apareciam olhos vazios, pessoas sem
controle do corpo, cuja alma já fora roubada pelas drogas e o que lhes restara
era apenas um olhar vazio e vago a procura daquilo que pode matar, de alguma
forma, o seu vício, seja a forma que for eles fariam para mantê-lo, a minha
sorte, é que todas as esquinas que eu passava por esses seres, pois pessoas já
não são mais, já estavam "satisfeitos". Eu bem podia trocar de rota,
fazer a volta na cidade, ir pelo outro lado, mas por diversas vezes este lugar
me interessava, ainda não sei bem o porquê mas acredito ser por causa dessas
pessoas, para ver até onde podemos chegar, pois acredito que este seja o
estágio onde já não somos mais seres humanos mas sim, animais a procura de
saciar sua vontade apenas.



   Todo o percurso que eu fazia por ali
sempre era o mesmo, encontrava as mesmas pessoas nas quatro esquinas ate a
minha casa, que não era das maiores, tinha apenas o necessário, um quarto
quente e aconchegante, uma cozinha, uma sala, um banheiro e uma pequena
varanda, cercada por um muro simples de tijolos e com uma cerca elétrica em
cima só para garantir mais proteção, na verdade era uma proteção ilusória, pois
se alguém quisesse entrar ali, nada o impediria, mas isso me tranquilizava ao
menos.



   Os dias não variavam muito, sempre era a
mesma coisa acordava às cinco da manhã, tomava meu café com pão torrado feito na
hora, tomava um banho, pegava meu computador ao lado da cama, pois mais uma
vez, como sempre acontecia, dormi trabalhando, e o colocava na mochila junto
com os projetos que teria que entregar na semana que vem, então olhava para o
relógio já eram 6 horas e 20 minutos então estava na hora de sair de casa e ir para
o trabalho.



   No escritório, tudo sempre era a mesma
coisa também, chegar cumprimentar as mesmas pessoas de almas vazias, pela carga
do trabalho excessivo, e ver as olheiras gigantescas em seus pálidos rostos,
indicando que mais uma vez mal dormiram. Então ia para o meu espaço, nada mais
que uma salinha de quatro por quatro metros, onde eu fazia os meus projetos
para a empresa e dali mesmo enviava para o chefe, um trabalho cansativo, pois
era aquilo o dia todo, computador e documentos, sem conversas e sem troca de
experiências. O único tempo que tínhamos para trocarmos palavras era nos cinco
minutos do cafezinho, onde as pessoas nada falavam, pois essas, as que já
trabalhavam a mais tempo na empresa, eram tão vazias e mesquinhas que mau
podiam pensar em algo além do seu projeto, e isso tornava o ambiente ainda mais
cansativo e o pior, é que nos dois anos que já trabalho nessa empresa, nada
mudou.



   Quando dá à hora de todos irem embora, a maioria
das pessoas recolhem as suas coisas e se vão, eu apenas decido ficar, uma hora
ou duas a mais para acabar alguns detalhes do projeto. Antes de sair de vez do
prédio, falo um pouco com o segurança, que tem um pouco mais de alma naquele
lugar e então volto pelo mesmo caminho o qual fora ao trabalho pela manha, e
encontro os zumbis ambulantes perambulando por ali, os mesmos sem vida de
sempre, a procura de matar o vicio. 
Continuo então, indo em direção a minha casa para mais uma vez chegar,
fazer uma sopa e ir direto para o quarto, deitar na cama e ficar no notebook
avaliando relatórios do dia todo até que eu durma de cansaço, o que geralmente
não demorava mais do que meia hora, e no outro dia seria tudo de novo. Tudo
seria sempre constante e monótono, as mesmas pessoas, os mesmos locais, mesmos
trabalhos, vistas, ruas e horários, tudo sempre igual, ou pelo menos era para
ser, só que hoje, tudo mudou.



   Acordei o mesmo horário comi a mesma
coisa, e por algum motivo, aquele pão parecera mais seco que o normal e desceu
raspando dolorosamente pela garganta, olhei para o relógio e eram apenas 6
horas, ainda estava meio cedo, mas por algum motivo deu vontade de sair mais
cedo essa manhã então rapidamente peguei minhas coisas e sai para o frio da
rua. Fiz o mesmo trajeto de sempre, mas notei algo diferente por ali, pois
nesse horário não tinha ninguém pelas ruas, nem os corpo vagante, nem um alguém
pelos cantos, nada de carros pelas ruas, nada nem ninguém, achei estranho, mas
continuei meu caminho. Comecei a achar que o caminho inteiro seria assim, mas
na metade dele, notei alguém atravessando a rua, estava distante e indo na
mesma direção que eu não consegui distinguir muito nitidamente quem era, mas
notei que era uma mulher de, mais ou menos, um metro e setenta de altura e
magra, vestia um sobretudo negro e usava um sapato de salto não muito alto mas
que era o suficiente para fazer o barulho de cada passo ressoar por aquelas
ruas sem vida e sem movimentos. Continuamos na mesma direção, e a cada passo eu
me aproximava um pouco mais dela, e podendo assim ver seus longos cabelos
loiros e sentir o cheiro de rosas que vinha dela, o estranho era que não
aumentei a velocidade para alcançar ela, mas mesmo assim parecia que ela estava
andando mais de vagar, querendo que eu me aproximasse, ate que cheguei na
entrada do trabalho, pois a distância de onde eu a vi e o escritório, não eram
longes, eram apenas duas quadras de distância. Em vez de entrar como tantas
vezes eu havia feito, eu fiquei ali, parado esperando ela desaparecer na
próxima esquina, ali como um tolo, mas valeu a pena esperar, pois segundos
antes daquela moça dobrar a direita na esquina, e sumir da minha vista, ela me
deu um olhar e foi possível notar, além de seus lindos olhos azuis claros, um
leve sorriso, o sorriso que eu sabia que ficaria na minha mente o dia inteiro
então, depois de alguns segundos de bobeira, me virei entrei no prédio para
começar meu trabalho.



   Naquela pequena sala, entre pilhas e mais
pilhas de documentos que iam e vinham para a minha mesa, eu via aquele sorriso
de novo, um sorriso tão lindo e simples com aqueles olhos azuis que cintilavam
com a luz do começo da manhã e aqueles longos cabelos loiros, com aquele cheiro
de rosas que chegavam a até mim, aquela linda visão passava milhões de vezes em
minha mente. Enquanto o pensamento na linda moça voava, o tempo se ia e os
documentos eram preenchidos, então o pessoal começo a sair e eu vou ficando,
como o de costume, então olhei para o relógio, por simples força do habito,
desviei o pensamento daquela linda mulher e me toque que já eram onze horas da
noite, peguei toda a documentação que tinha pronta, a organizei e a levei para
a mesa do chefe, lhe pedi desculpas pela demora e quando estava para sair
daquela sala que era meio desconfortante para mim, ele me chamou pra conversar,
meu coração chegou a parar e suei frio, mas voltei e me sentei na cadeira a
frente dele.



   A pequena reunião durou meia hora, ele me
elogiou pelos meus trabalhos e me perguntou como poderia fazer para melhorar os
resultados da empresa e outros assuntos sobre o lucro dos nossos trabalhos, e
no fim, disse o mais impressionante, nunca esquecerei aquelas palavras...
"amanhã pode vim as nove da manha, meu braço direito". Nessas
palavras soube que estava promovido, me levantei e sai da sala impressionado,
talvez as coisas estivessem começando a mudar, peguei as coisas na minha mesa e
então fui ao bar, que fica em frente ao prédio da empresa, lá todos que saiam
do trabalha iam para relaxar um pouco depois do dia estressante de trabalho.



   O lugar não era muito chique, nem o melhor
da cidade, o chão era madeira, bem como o balcão e as mesas, mantendo bem a
aparência de como eram os bares antigamente, e no fundo do bar, dava-se para
notar que ainda tinha algumas pessoas do escritório ainda bebendo, alguns
rostos eram conhecidos outros nem tanto. 
Após a breve avaliação do local, me dirigi ao balcão, onde pedi apenas
uma cerveja para o atendente do estabelecimento, era um senhor de idade,
aparentava ter uns 70 anos, barba rala e mancava um pouco da perna direita, ele
me serviu a cerveja em um copo pequeno e deixo a garrafa ao lado, para se caso
eu quisesse mais. De copo em copo terminei com a bebida e olhei para o relógio
novamente, a terceira vez desde que eu entrara no bar e me surpreendi com a
hora, já era meia noite e meia, me levantei, paguei pela cerveja e sai do bar,
na rua estava mais frio que antes e agora estava ela vazia como estava pela
manhã, fui então em direção a minha casa e de novo, todos os lugares continuavam
vazios.



   Aquele lugar sempre tão silencioso e
vazio, quase nunca havia barulho além de sussurros e arrastar de pés, mas agora
a rua estava vazia e não havia nada que chamasse a atenção, pelo menos nada até
uma esquina antes da minha casa onde pude ouvir um grito abafado, não foi auto,
mas no silêncio daquela noite qualquer um podia ouvir qualquer barulho, mesmo
que este seja mínimo, comecei a olhar ao redor para tentar notar algo suspeito,
então por sorte vi um vulto entrando em um beco logo à frente.



   Inevitavelmente comecei a segui-lo, sem
saber se tinha algo errado ou mesmo quem ou o que era, mas algo me dizia que
ali tinha alguma coisa estranha. Primeiro virei à direita para entrar no beco e
depois a esquerda e assim fui seguindo o vulto pelos becos que eu nem conhecia
e nunca vira, até que esse vulto finalmente parou, ele estava cercado, não
tinha uma escapatória,  então largou
delicadamente no chão algo que tinha no ombro e se virou, começando a se
aproximar de min.  Finalmente deu para
ver mais nitidamente o que eu estava seguindo, era um homem de aproximadamente
um metro e oitenta, a mesma altura que a minha, barba espeça e aparentava ser
forte, porém os olhos giravam olhando para todos os lados com medo de alguma
coisa e o rosto estava pálido, estava claramente sobre efeito de drogas, que o
estavam deixando alucinado, algo ali estava muito errado, e eu me perguntava o
que ele havia largado no chão? A resposta teria que ser dada depois, porque
naquele instante, ele vinha para cima de mim e pelo jeito, não era para
conversar.



   Ele veio direto e tentou me dar um soco na
cara, que desviei com facilidade por causa do estado dele, então se era isso o
que ele queria, era isso o que eu daria, dei um soco bem dado no maxilar dele o
que o fez recuar, logo dei um segundo bem na boca do estomago, mas quando fiz
isso ele segurou minha mão, me girou e me atirou perto daquilo que ele havia
largado no chão, bati meu corpo forte no chão, fiquei meio tonto e vendo-o
vindo em minha direção, mas olhei para o lado, para ver o que ele havia largado
tão delicadamente no chão, e então puder ver o que era, notei o que era uma
mulher de cabelos loiros, de casaco escuro, eu podia jurar que era a mulher que
eu havia visto hoje pela manha, e a confirmação veio no delicado cheiro de
rosas que o vento carregou dela ate mim.



   Vendo aquela garota e imaginado o que aquele
brutamonte fez com ela, meu corpo se encheu de raiva e de calor, parecendo que
eu ia explodir, nisso a tontura passou e então levantei, mas não era como
antes, agora eu era um homem que nem eu mesmo conhecia, a ira me tornara uma
nova pessoa, um ser disposto a tudo para protegeria aquela, e do nada veio o
primeiro soco e eu desviei o retribuindo quase que no mesmo instante mirando no
maxilar do meu adversário, só que diferente dele, eu acertei em cheio o fazendo
cambalear para traz pela força e a ira embutida no soco, e rapidamente fui para
perto dele e antes que ele pudesse pensar em fazer algo dei um chute bem na
boca do estômago dele, nisso ele cuspiu uma bola de sangue no chão, ele já
estava meio zonzo, então para finalizar com a minha explosão de ira dei um
gancho de esquerda por baixo do queixo dele, o fazendo cair para traz desmaiado.



   Após aquela luta toda, fui em direção da
linda mulher e a peguei no colo, a mais bela que já havia visto, ela até tentou
abrir os olhos para ver o que havia acontecido, mas eu a tranquilizei, disse
que estava tudo bem e que agora ela estava segura e podia descansar, ela
pareceu então relaxar, de alguma forma, apenas a minha voz a tranquilizou. Na
pequena distância entre aquele ponto e ate a minha casa ela até cochilou no meu
colo, quando cheguei a deitei na minha cama e tratei de cuidar dos cortes e
ferimentos que ela tinha ganhado por resistir aos maus tratos daquele homem que
só queria o mal para este anjo tão belo, após terminar de cuidar dela, a cobri
com duas cobertas quentes, disse em seu ouvido que podia descansar e que agora
estava segura, para tranquiliza-la mais 
uma vez, e a resposta veio em um som fino e belo, porem baixo, foi um
obrigado bem sonolento e por fim ela dormiu. Sai do quarto, fui até a cozinha
fiz um café e um pão torrado, me sentei no sofá e por um instante a loucura do
dia inteiro passou pela minha mente, então agora aqui estou eu, com uma xicara
de café na mão, o pão torrado em outra e olhando para o relógio e notando que
são 6 horas...


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