Fama

16 de Junho de 2014 Elias Lima Contos 1798

Acabou de discutir com o namorado, que a estapeou no rosto
duas vezes. Não tem tempo para continuar discutindo, pois tem um show a fazer.



Uma lágrima escorre de seu lindo rosto, tão admirado em seu
país. Ela é perfeita! Todos dizem.



A lágrima escorre preta, sujando sua face tão estampada nas
revistas.


Chega ao local do show acompanhada de diversos seguranças.
Fãs histéricos gritam o seu nome enlouquecidamente. Ela não quer barulho. Ela
só quer ficar só.



Lisbella! Só falta mais cinco minutos! Diz alguém do outro
lado da porta de seu camarim.



Ela está carregada de maquiagem. E olha-se para o espelho,
chorando. Borrou tudo de novo. Droga!



O público grita tanto que ela consegue ouvir do camarim a
euforia deles.



Eu tenho que sorrir, eu tenho que sorrir... Diz para si
mesma, chorando angustiadamente.


Lis! Três minutos! Diz alguém de novo.


Engole o choro. Agora ela é a Lisbella. A personagem que ela
tem que interpretar. A cantora bem-sucedida, bem quista em seu país, admirada
pela crítica e idolatrada pelos fãs. Ela não pode ser agora o que realmente é: uma
pessoa cheia de fraquezas como todos aqueles que gritam o seu nome.


Mas a fama surge com um ideal. E nesse ideal, todos saem
sofrendo. O sucesso conquistado, vibrado tem seus pesos, suas pedras. O seu teatro
para dar certo. Todos são felizes na fama. Todos são alegres.


Ela reza, como de costume antes de entrar no palco. Sente a
energia dos fãs a contagiar. Eu sou Lisbella... Diz pra si mesma. E caminha até
a porta do camarim. É hora de trabalhar.



Dá mais cinco passos e pisa no palco, acenando para mais de
50 mil pessoas.

Ouve gritos histéricos dizendo “lindaaaaa!”, “perfeitaaaa!”.



Sente vontade de chorar.

Mas agora ela é a Lisbella.



A jovem que conquistou o seu país com sua voz, seu jeito
doce e delicado, sem dar escândalos em boates ou fugindo dos paparazzis.

Ela é acima de tudo, altamente educada.


Começa a primeira música. Seu mais novo hit. E ela tem que
atingir muitas notas altas. E sorri. Canta, dança. Acha por um milésimo, que a
dor irá lhe fazer cair a qualquer hora, mas continua.


Momento “baladinha” do show. Ela canta estes versos com um
punhal em seu peito:



 "Como dizer adeus depois de tudo?

 Como esquecer seu
rosto depois de ter conhecido o amor?

 É duro ter que
encarar sozinha 

 O meu caminho de
novo..."


E não se agüenta e chora de emoção.

O público aplaude e grita.


O show termina.

Ela agradece como sempre, e se despede com um beijo nas
mãos.


Suspira, angustiada.


Ainda tem sessão de fotos com os patrocinadores do show, com
os filhos dos patrocinadores, com as esposas. E tem mais uns fãs que foram
sorteados numa rádio para tirar uma foto com ela e ter o cd novo dela
autografado. Ela só quer desaparecer.


Acaba e vai direto para o camarim.



Seu empresário logo chega com vários contratos milionários
para assinar. Ela não está afim. Ela só quer ficar quieta e chorar. Só!



Meu deus, ela é um ser humano! E não um robô!



Ela diz que sim para ele, que vai assinar tudo amanhã, assim
que ela terminar de ler. E pede um tempo para tirar a roupa do show, pois ela
está se sentindo sufocada.


Coloca uma peruca loira, um óculos escuros, tira a maquiagem
forte e vai até o ponto de ônibus sem ser notada. Desliga o celular. Avista um
táxi e dá um sinal.



Para onde moça?

Para qualquer lugar.

E fecha a porta do carro.


Avista uma lanchonete e decide parar. Ali moço. É ali que eu
quero ficar. Muito obrigada tá? Pode ficar com o troco. Tenha um bom trabalho.



Obrigado moça, está aqui o meu cartão para quando precisar.

Ok, um abraço.


E chega na lanchonete se sentindo livre.

Livre.

Não tem que dar autógrafos, nem sorrir, nem fingir. Nada.



O que vai querer moça?

Um pastel e um suco de manga, tem?

Tem sim.



No capricho, por favor tá?

Ok, já, já.

E deixa a lágrima escorrer.

Está precisando de alguma ajuda moça?

Não, eu só quero um canto pra chorar, só isso.

Ninguém vem aqui para chorar?

Não, geralmente não.

Então não se engane, muita gente quer, mas têm medo de se
mostrar fraco ou frágil.

Eu não, eu só quero ser um ser humano como todo mundo. Sem
ter que dar explicações de tudo que vou fazer ou vou pensar em fazer.

Não é horrível isto moço?

Sim, imagino.

Eu tenho tantas obrigações a cumprir que as pessoas já não me
enxergam como um ser humano e sim como uma máquina de fazer dinheiro.

Eu não imagino, mas entendo.

Eu só queria ser livre às vezes sabe.

Ser livre.

Sair correndo chorando pela rua sem ser parada por alguém.
Sem ser fotografada, sem ter que autografar.

Mas a senhora, é quem?

Deixa pra lá.

Está pronto?

Sim, está.

Embrulha para viagem, fazendo um favor querido.

Sim, é pra já.

Ah, não quero ser injusto com você. Sei que gosta do meu
trabalho pois estou vendo a capa do meu novo cd no balcão. Eu sou a Lisbella e
se você quiser eu tiro uma foto com você.



O atendente arregalou os olhos enviando a mão direita a
boca.

Psiu! Segredo nosso tá?

Sim, tá.

Olha, eu amo sua voz, sua música, tudo seu.

Click!

Obrigada por me ouvir tá?

Qual é o seu nome?

Lucas.

Obrigada Lucas.

Muito obrigada pela companhia esta noite. Estava realmente
precisando.

Tchau!

Tenha um bom trabalho querido!


E foi para o ponto de ônibus.



Avistou um taxi e foi para o local do show, pois no mínimo o
seu empresário já estaria ficando louco. Ela liga o celular. Tem mais de 30
ligações dele.



E o celular toca.

Eu já estou indo Marcus.

Pode deixar.

Tá.

Tchau.


Chega ao local e ninguém a nota. E ao passar pelos
seguranças retira sua peruca para provar quem ela é agora. E o dia termina. Vai
para o aeroporto com o Marcus e na poltrona mesmo, descansa e dorme. Amanhã eu
vou ter torcicolo, eu disse que devíamos ir para um hotel antes de partir né
Marcus? Poxa vida...


Acorda enfim, em casa.

O celular toca.

Marcus.

O quê?

Mas... Não, não. Nada disso aconteceu.

Tá bom, tá ok.


Os jornais locais e do Brasil estão noticiando que ela foi
estuprada e espancada pelo namorado minutos antes do show. Nas redes sociais,
milhões de compartilhamentos de uma “suposta” briga dela com o namorado e outra
de uma mulher caída, sendo chutada por um homem. Não é ela.



Mas ela sabe que isso vende. É isso que as pessoas gostam de
ler atualmente: a desgraça alheia. Enxuga o rosto, decepcionada com este mundo
business. E liga para Marcus.



Pode ficar tranqüilo. Marque uma coletiva de imprensa. Eu
falarei a respeito disso e direi o que realmente aconteceu sem “manchar” a
minha imagem tá? Pode deixar.



Tchau.

Desliga o celular.


Liga para a terapeuta e marca uma sessão urgente, pois está
com vontade de explodir de raiva e de tristeza. É domingo, ela não atende.
Droga!



Vai até a garagem para pegar o carro. Quer ver o mar. Isso a
acalma. E vai até o final dessa praia quase desconhecida no Rio de Janeiro. E
aflita, senta-se.



E põe-se a pensar de quando queria ser cantora e
reconhecida. Ter sucesso, viajar, conhecer outras pessoas, outros países,
outras culturas. Tudo que em sua vida na periferia ela nunca teve condições.



E conclui: o sucesso é também o nosso fracasso. Ao mesmo
tempo em que uma parte nos idolatra, a outra quer acabar com a gente.



Notícias vendem, sempre soube.

Mas mentiras vendem mais ainda.



Agora ela tem que encarar com o peito aberto as duras pedras
de seu tão alcançado sonho. Um sonho alimentado desde os primeiros anos de
infância, quando pegou um microfone pela primeira vez e não quis mais soltar. E
a partir dali, quis cantar em todas as festas da família.



E em seu paraíso agora, encontrou o seu inferno.



Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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