Escapou ali um beijo na orelha e uma mão que quis
esquentar a outra. Mas a gente correu pra fazer piadinha sexual disso,
como sempre. E você olhou do corredor e me perguntou: não to esquecendo
nada? E eu quis gritar: tá, tá esquecendo de mim. E você depois
perguntou: não tem nada meu aí? E eu quis gritar: tem, tem eu. Eu sempre
fui sua. Eu já era sua antes mesmo de saber que você um dia não ia me
querer. Mas a gente combinou que não era amor. É o que está no contrato.
E eu assino embaixo. Melhor assim. Tô super bem com tudo isso. Nossa,
nunca estive melhor. Mas não faz isso. Não faz o mundo inteiro brilhar
mais porque você é bobo.Não faz o mundo inteiro ficar pequeno só porque o
seu jeito é o melhor. Não deixa eu assim, deslizando pelas paredes do
chuveiro de tanto rir porque sua voz fica ridícula brava. Não transforma
assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. Não faz eu
ser assim tão absurdamente feliz só porque eu tenho certeza absoluta que
nenhum segundo ao seu lado é por acaso. Combinamos que não era amor e
realmente não é. Mas esse algo que é, é realmente muito libertador.
Porque quando você está aqui, ou até mesmo na sua ausência, o resto todo
vira uma grande comédia. E eu tenho vontade de ligar pra todos os
outros e falar: putz, cara, e você acha mesmo que eu gostei de você?
Coitado. Adoro como o mundo fica coitado, fica quase, fica de mentira,
quando não é você. Porque esses coitados todos só serviram pra me
lembrar o quão sagrado é ser absurdamente feliz mesmo sabendo a dor que
vem depois. O quão sagrado é ver pureza em tudo o que você faz, ainda
que você faça tudo sendo um grande safado. O quão sagrado é abrir mão de
evoluir só porque andar pra trás é poder cruzar com você de novo. Não é
amor não. É mais que isso, é mais que amor. Porque pra te amar mais, eu
tenho que te amar menos. Porque pra morrer de amor por você, eu tive
que não morrer. Porque pra ter você por perto, eu tive que não querer
mais ter você por perto pra sempre. E eu soquei meu coração até ele
diminuir. Só pra você nunca se assustar com o tamanho. E eu tive que me
fantasiar de puta, só pra ter você aqui dentro sem medo. Medo de
destruir mais uma vez esse amor tão santo, tão virgem. E eu vou
continuar me fantasiando de não amor, só pra você poder me vestir e sair
por aí com sua casca de não amor. E eu vou rir quando você me contar
das suas meninas, e eu vou continuar dizendo “bonito carro, boa balada,
boa ideia, bonita cor, bonito sapato”. E eu vou continuar sendo só daqui
pra fora. Porque no nosso contrato, tomamos cuidado em escrever com
letras maiúsculas: não existe ninguém aqui dentro. Mas quando, de vez em
quando, o seu ninguém colocar ali, meio sem querer, a mão no meu
joelho, só para me enganar que você é meu dono. Só para enganar o cara
da mesa ao lado que você é meu dono. Eu vou deixar. Vai que um dia você
acredita.