Livro: RENOVAÇÃO - Capítulo 1

19 de Junho de 2014 challenger Contos 902

Que puta dor de cabeça! Tento abrir os olhos, mas a claridade que entra pela janela, ofusca minha visão. Continuo desorientado, onde estou afinal? Abro os olhos, com minhas mãos no rosto, tentando me proteger dessa luz, que agora virou minha inimiga. Vejo garrafas de whisky espalhadas no chão, algumas completamente vazias, outras em mãos de mulheres seminuas. Acho que estou na sala, mas não sei de quem é aquela casa, tento puxar algo da minha memória. Chaves, coloco rapidamente minhas mãos no bolso e aliviado, acho minhas chaves do apartamento no meu bolso. Abro minha carteira, que também estava no bolso e não há nenhum dinheiro, mas meu cartão continuava lá, junto com a minha identidade. Passa a sensação de que alguém pegou meu dinheiro. É, eu lembro que alguém pegou a minha carteira, no meio de alguma coisa que não lembro, tento pegar minha carteira, mas estava tão bêbado... Filho da puta!

   Me levanto, meio tonto, a cabeça martela, o mundo gira. Um gosto ruim na boca. Coloco minha mão no bolso que fica o celular. Porcaria, onde está o meu celular? Olho em volta, procuro no meio daquele lixo todo. Restos de comida, copos de plástico com cheiro de cerveja. Onde está o meu relógio? Mas que merda! Olho num relógio da cozinha. Aquela cozinha que parecia um bar estilo copo sujo, com várias coisas espalhadas pelo chão, a pia lotada de comida, com pratos quebrados. Onde é que estou afinal?

   E que dia é hoje? Olho em volta mais uma vez e tento reconhecer alguém naquela casa. Olho para os rostos de perto, afasto o cabelo de algumas mulheres. Não lembro de ninguém, mas começo a escutar um barulho vindo de um outro cômodo. Passo pelo corredor, tentando não fazer nenhum barulho. Um quarto totalmente desarrumado, com roupas espalhadas pelo chão, um cheiro de álcool com um cheiro forte de maconha inunda aquele lugar. Vejo que há dois caras em cima de uma mulher. Não, não é uma mulher, parece uma novinha. Ela está desacordada. Um deles a penetra com violência, fazendo um barulho irritante em cima daquela cama de ferro. O outro a chupa e desce uns tapas forte no rosto dela. É, ela realmente está apagada. Não fui percebido, mas me sinto mal com aquele lugar.

   Procuro mais uma vez meu celular e até ligo usando o telefone que há na casa. Está desligado. Ainda bem que é o celular que uso para as minhas saídas. O relógio? Comprei numa banquinha por dez reais. Tento achar uma água na geladeira, mas dentro acho nojeiras que é melhor nem escrever. Como eu vim parar aqui? Dou mais uma olhada na casa e vejo que são sete e quarenta da manhã. É, pelo menos o meu costume de acordar cedo continua. Meu Deus, eu tenho que parar com isso, com essa vida.

   Saio para a rua, a luz parece ganhar vida e me arrebenta a cabeça. Estou num bairro pobre, decadente. Na rua há só trabalhadores, indo para a labuta. Caminho seguindo eles, tentando me localizar. Dou "bom dia" e um "licença" para uma senhora que me passou na caminhada Ela me olha dos pés à cabeça, com cara de poucos amigos. Pergunto que bairro era aquele e que dia da semana era. Ela resmunga algumas palavras e só consegui identificar um "vagabundo bêbado". Que velha escrota do caralho. Chego numa banca de jornal, o cheiro do cafezinho me reanima. Dou outro "bom dia" e pergunto que bairro era aquele. O jornaleiro me olha desconfiado e diz. Quase caí para trás. Estava só do outro lado da cidade, no bairro mais pobre e violento da cidade. Levo minhas mãos a cabeça.

   -Meu Deus, como eu vim parar aqui? -Não me lembro de nada! -Senhor, que dia é hoje?

   -Olha aqui ô vagabundo, não me vem com essa conversa! -Se quiser me enrolar ou tentar me roubar, vai acabar se dando mal. -Quer um jornal, compra logo e passa!

   Fiquei meio assustado com toda aquela agressividade. Olhei para um jornal e fiquei pasmo. Era domingo. Mas como? Eu só lembro da sexta-feira, quer dizer, da suruba que eu estava, numa boate proprícia para tal modalidade. 

   -Desculpa senhor, não queria... -Estava tentando me lembrar, pois acho que me roubaram e...

   -Olha aqui, não me vem com essa conversa. 

   Ele começou a aumentar a voz, quase berrando no meu ouvido. Minha cabeça parecia que ia explodir.

   -Tudo bem moço, não te fiz nada, só queria uma informação, mas o senhor com essa falta de educação e grosseria tão cedo numa manhã de domingo é de espantar qualquer um. Já vou embora e desculpa pelo incômodo. Quando o senhor passar por alguma dificuldade, espero que tenha toda a ajuda necessária, apesar de você ser assim, um filho da puta escroto.

   O cara ficou insano, faltava babar de raiva. Aos poucos que estavam ali perto, parecia que eu era um bandido e que ele era a vítima e partiram para cima de mim. Um senhor, mais velho que o jornaleiro apareceu com uma pedra na mão. Era surreal. Mais algumas pessoas apareceram, sei lá de onde e começaram a correr atrás de mim, gritando "mata", "mata", "ladrão", "bandido". Comecei a correr. Eu é que não iria ficar para explicar. Enquanto corria, mais rápido que pude, tentava entender o que estava acontecendo e porque isso comigo. Sempre fui educado com todas as pessoas. Faltava era ser preso. Corri o mais rápido que minhas pernas poderiam me oferecer. Não sabia para que lado corria, mas identifiquei um posto da polícia. Rezei para que ele fosse uma boa pessoa, senão estaria fodido literalmente.

   Expliquei toda a minha história para o soldado Cunha. Ele me olhava dos pés a cabeça novamente e perguntou se eu tinha algum dinheiro e com a minha negativa, ele abriu um bolso da sua farda, tirando sua carteira e me entregando dez reais, explicou que tenho que pegar dois ônibus para eu chegar em casa. Me passou o número das linhas e em qual parada eu deveria esperar. Olhei nos seus olhos quando aquele soldado da PM me entregou o dinheiro. Agradeci umas milhões de vezes e disse que amanhã mesmo, devolveria o empréstimo. Mesmo ele dizendo que não precisava, me certifiquei que estaria aqui amanhã. 

   O primeiro ônibus estava estupidamente lotado e a cada buraco que o pneu do ônibus caía, era um porrete no meu corpo. Nunca senti tanta dor. E não conseguia raciocinar direito. No segundo ônibus, mais vazio, consegui ficar sentado. A rua, com asfalto mais novo, sem buracos, mas mesmo assim não conseguia me concentrar. Olhava ao redor e me senti em casa novamente. Desci na parada perto de onde eu morava. Parei na Banca do Portuga. O dono realmente era português e tinha toda aquela lábia. Mas quando eu o conheci, era um homem amargo pelo que a vida lhe deu. Perdera a mulher, no qual havia mais de trinta anos de casados. Nos tornamos amigos, ele mais como um "tio" que nunca tive. Ajudei-o com algumas ideias e muita, mas muita conversa. Seu Portuga me olhou com cara de preocupado.

   -Senhor Julius, está tudo bem com o senhor? -Que cara de ressaca!

   -Bom dia Portuga. -Já disse para não me chamar de "senhor"? -Pelo amor de Deus, me vê uma garrafa de água, minha cabeça está estourando.

   Seu Portuga correu para a geladeira e me trouxe a garrafa de 1,5 litros, que sempre tomo, quase todos os dias. Correu para balcão e me trouxe uma aspirina. Desligou o rádio e foi até a máquina de café fazer um caprixado expresso, com pouco açúcar. Olhei para ele com tanta felicidade que me levantei para abraçá-lo. 

   -Portuga, o senhor é o melhor jornaleiro e amigo, bom frisar, dessa cidade. -Depois eu acerto tudo e te explico o que me aconteceu. -Preciso de um banho quente e demorado.

   -Senhor Julius, eu é que ainda preciso pagar por toda a sua ajuda. -Não se preocupe e venha depois para conversarmos. -Se precisar de qualquer coisa, pode me ligar.

   Seu Portuga era gente boa e a única coisa que eu gostaria no mundo, era que sua esposa não tivesse falecido. Passei pelo porteiro, que me veio entregar a correspondência. Ele me olhou com tanta preocupação, que esperou junto comigo o elevador. Agradeci a ajuda e neguei para que ele subisse junto comigo. Parecia que estava em outro mundo, com pessoas que o olham com mais humanidade e compaixão.

   Abro a porta do meu apartamento e sinto um alívio maravilhoso. É muito bom estar em casa de novo. Liguei meu samsung home theater, com as músicas da banda Lorde, começando com a 400 lux. Aumentei para que o som invadisse todo o meu apartamento. Tirei minhas roupas e as coloquei no chão. Entrei no banheiro, liguei a ducha no gelado, para me acordar de uma vez. Pareciam que pedaços finos de gelo penetravam no meu corpo. Desliguei e regulei para quente. Sentei no chão e em posição de meditação, apenas respirava fundo, ouvindo as músicas e relaxando. Senti todas as partes do meu corpo, sendo aquecidas, como se fosse um abraço. A música e os sons pareciam estar longe e senti um silêncio confortável. 

   Não sei quanto tempo passei no banho, que costuma ser de ducha gelada e mais ou menos uns dez minutos. Preparei meu café, olhei meu apartamento. Vi outro celular no meu quarto, o que uso para o trabalho. Tinha algumas chamadas perdidas e algumas centenas de mensagens no whatsapp. Deixei ele na mesa da sala e sentei no meu sofá. Pensei no que me acontecera hoje. Pensei...

                                                                                             continua...

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Gostaria da opinião de vocês e claro, das críticas, sempre bem vindas. Tenho essa história completa e irei escrevê-la toda por aqui. Valeu.


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