Livro: RENOVAÇÃO - Capítulo 2

20 de Junho de 2014 challenger Contos 894

Puta que pariu! Como eu tinha me metido num lugar como aquele? 

   -Será que fui drogrado? -Mas por quem? 

   Eu cheguei até o meu limite, cansei dessa vida. E por que eu cheguei até aqui mesmo? Uma porcaria de desilusão amorosa. Um namoro que dura quase quatro anos, a gente pode muito bem fazer planos de casamento e de como será a casa em que viveríamos. Tudo bem que minha maldita sogra colaborou com a destruição do namoro, já que para ela, eu não era o homem ideal para sua filha. Até hoje, se eu ver aquela idiota, a única coisa que farei é comprimentá-la e mandar se foder. Eu não merecia àquela mulher como sogra. 

   Nunca traí minha namorada e sempre fui apaixonado. Diferentemente dos outros babacas com quem ela namorou. Teve um que deu-lhe um tapa no rosto que ficara roxo por um mês. Fora os que a traíram e mentiram na sua cara. Mas na boa, acho que minha ex gostava mesmo era de ser maltratada. Acabou o namoro comigo por meio de uma mensagem de facebook. Vê se pode? Depois de quatro anos de namoro! A filha da puta teve a audácia de fazer essa merda comigo. Me machucou muito. É uma dor que é foda, não acaba, não passa. Uma dor irracional, que mesmo você sabendo que passa, não passa na hora que você quer. 

   Meus pais ficaram preocupados. Eu tinha acabado de me mudar para meu apartamento. Eles ligavam todos os dias, achando que eu talvez faria alguma besteira. Na minha religião, o suicídio era a pior coisa do mundo, tanto para os que estavam vivos, assim para os que iriam vagar eternamente por outras esferas e tal. Não, não tinha coragem e nem pensava em me matar. 

   Mas sofri por meses, tentanto esquecê-la. Tentei várias fórmulas. Sair com outras mulheres. Dar um tempo. Fazer cursos. Ocupar a cabeça com outras paixões. Me apaixonei por Comunicação e entrei na faculdade. Foi quando alguma coisa mudou em mim. Conheci as pessoas e desenvolvi uma filosofia pessoal. Entendi algumas mensagens que a vida me mandava. Mudei meu ponto de vista. Algumas coisas foram boas, outras... Comecei a ver a mulher como simples escape para o sexo, apenas para gozar. Métodos para conquistas e estratégias para levar mulheres para o sexo eram minhas novas metas da vida. Transei com várias mulheres, de todas as classes sociais e idades (nada de menores de idade, é claro). Mães, tias, solteiras, coroas, feias, babás, mulatas, loiras, gostosas, magras e gordinhas. Encoxadas bem recebidas, em outro emprego que tenho, dentro de arquivos e bibliotecas de faculdade. Banheiros, garagens, outros apartamentos, na cozinha, no elevador, atrás de paradas de ônibus. Na chuva, a noite, de dia e de madrugada. Uma, duas ao mesmo tempo, três na mesma noite. 

   Isso durou uns dois anos. No começo era ótimo. Descobri que não podia ter filhos, mas mesmo assim, usava camisinha. Me arrependia às vezes do que fazia com algumas mulheres, mas mesmo assim, algumas gostavam. Não queriam saber de paixão ou amor, caíam na real que isso não existia e que realizar suas fantasias corporais era muito mais fácil. Tapas na cara, puxões de cabelo, amarrar braços e pernas na cama, serem pegas com força e violência. Gozadas no rosto, xingamentos, humilhações. Estava ficando insano com esses momentos, não sabendo quais os meus limites. 

   Uns três meses para cá, venho definhando. Comecei com bebidas, leves e depois as mais fortes. Passava três dias em festas e baladas. Conheci e reconheci mulheres que só queriam ter sua conta paga e apenas sorrir e se divertir. Algumas usavam drogas pesadas e o sexo com essas era como transar com cadáveres. Não era isso que eu queria. Não era mais isso que eu queria. 

   Meu trabalho como freelancer estava à beira do fracasso. Projetos estavam nos fundos das gavetas. Fisicamente estava exausto e mentalmente estava um lixo, completamente viciado no que havia de mais baixo no mundo. Pensamentos muito ruins me atormentavam. E depois desse final de semana, onde acordei num lugar que não sabia como havia chegado e de não lembrar absolutamente de nada, cheguei a conclusão que era hora de parar. Já estava farto disso.

   Quando dei por mim, o dia estava escurecendo. Não tinha comido nada até então e não estava com fome. Lembrei que meu telefone fora roubado. Fiquei feliz com isso afinal de contas, pois naquele celular só havia contatos dessa minha vida que estava largando. Telefones de mulheres que gostavam de sexo tanto quanto eu. Casadas com filhos, recém casadas, aquelas que você nunca suspeitaria. Santas e sonsas, religiosas, às de caráter moralmente intactas. As que só faltavam receber por sexo, mas que não eram putas. Não havia nada naquele celular que valeria a pena, fora que era um nokia das antigas e não um smartphone dos caros que tenho aqui em casa.

   Olhei para meu apartamento. Havia aqui muitas coisas que me ligavam para meus problemas. Peguei um saco preto de lixo e comecei a colocar tudo o que não prestava. Agendas com anotações e telefones de mulheres, dos quais a maioria não sabia o rosto. Acessórios sexuais, como vendas e cordas. Filmes e vídeos no computador. Tudo no saco de lixo ou apagado. Fotos e conversas. Algumas redes sociais bloqueadas e com perfis falsos deletados. 

   Era hora de recomeçar. Eu precisava conversar com alguém, mas não sobre meus problemas. Queria apenas conversar. A única coisa que não deletei ainda foi o meu facebook. Ali também era um caminho de perdição, mas havia contatos dos meus trabalhos e outros muito importantes, copiei seus links e nomes, para que no próximo novo perfil, eu poderia adicionar novamente. Passei por uma colega de faculdade e parei ali. Olhei não sei por quanto tempo sua foto. Lembrei que ela era de uma turma de que fiz algumas matérias, acho que jornalismo. Eu fiz um trabalho com ela e conversamos algumas horas na sua casa. Conheci seus pais e descobri que ela não tinha nem dezoito anos e já estava na faculdade. Senti algo estranho quando me lembrava dela. Pensei em mandar uma mesagem, quando vi a hora. Como o tempo está voando hoje. Já eram uma da manhã. Resolvi mandar mesmo assim:

   "Oi Nathália, tudo bem com você? Lembra de mim? Fizemos algumas matérias juntos na faculdade. Estava pensando em te encontrar hoje (mais tarde é claro) para apenas conversar. Não tem problema se não estiver afim ou se não quiser. Bom, abraços."

   Sempre fiz as coisas de supetão. Melhor arriscar do que ficar se perguntando o que poderia ter acontecido se... Caí na cama e meu último pensamento era não porque não estava com fome e sim se iria realmente conseguir me mudar...


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