Livro: RENOVAÇÃO - Capítulo 3

20 de Junho de 2014 challenger Contos 1124

Acordei como sempre quase de madrugada. Eram umas seis e pouco da manhã. Dormi torto na cama, mas minha cabeça e meus pensamentos estavam ótimos. Malhei em casa, fazendo flexões e abdominais. Tomei meu café, forte e com pouca açúcar, que mesmo preparei. Tomei meu suco de laranja com gominhos e esquentei um queijo para comer com torradas. Coloquei minha roupa de corrida/caminhada que há meses não usava, fora meu tênis que estava uma lástima de sujo. Peguei meu mp3 e coloquei algumas músicas novas, como Jack White, The Black Keys, Limp Bizkit e outras músicas eletrônicas para a caminhada, como Tiesto e deadmau5. Antes de sair olhei meu facebook e tive uma ótima surpresa. Nathália respondeu minha mensagem:

   "Claro que lembro de você Julius, sumiu... o que houve? Podemos nos ver sim. Pode ser hoje? Você acha ruim a gente se encontrar para tomarmos um café na Livraria Cultura? Pode ser lá pelas oito e pouco da noite, saio do trampo, passo rapidinho em casa para me trocar e te encontro. Vou mandar meu número do celular. Ah, e me adiciona no whatsapp. Beijinhos."

   Fiquei pulando de alegria, como um garoto quando consegue chamar atenção da mulher que é apaixonado. O que está acontecendo comigo? Mantenha a calma, nada de afobação. Desci de elevador, rezando para não encontrar nenhuma mulher para transar loucamente. Passei na banca do Portuga, dei um "bom dia" e um abraço. Ele sempre foi um "tio" que nunca tive. Contei uma parte do que me aconteceu no fim de semana e disse a ele que iria mudar radicalmente.

   -Sabe senhor Julius, o senhor precisa de um novo amor. Uma mulher que te faça sentir vivo e feliz. 

   -Portuga, para de me chamar de senhor. -Tudo bem que o senhor está bem mais charmoso que eu, mas não me envelheça.

   Rimos juntos e nos olhamos, como se fôssemos parentes de verdade. Disse a ele que iria ver os relatórios e fazer novos planejamentos para sua banca de revistas. Estava com novas ideias e queria ter um tempo com ele para discutí-las. Combinamos então de almoçarmos juntos no restaurante ali perto, ao meio dia em ponto. Falei que daqui a uma hora estaria de volta para tomar minha garrafa de 1,5 litro de água. 

   Primeiro fiz minha caminhada, por um lugar que nunca havia andado antes. Tentei me concentrar apenas nas músicas, sem olhar para mulher alguma, que passava com suas roupas coladas e corpos definidos, sem pensar em putaria ou em safadezas. Queria apenas fazer me sentir livre e comecei a correr, de leve, sentindo meus músculos e claro, a dor. Corri pouco, mas foi ótimo. Suar por correr e não por transar. E durante uma hora caminhei e corri, alternadamente. Voltei para a banca. Estava totalmente cansado. Bebi minha garrafa de água, sentado numa cadeira, apenas olhando ao redor da banca, vendo suas dimensões. É, dava certinho, pensava comigo mesmo.

   -Portuga, vou ali tomar um banho e já volto para irmos almoçar. -Poderia levar algumas folhas em branco e uma caneta?

   -Senhor Julius, que ideias o senhor anda bolando nessa sua mente?

   -Se o senhor gostar das minhas ideias, será boas novidades para sua banca.

   -Vejo o senhor daqui a alguns minutos.

   Subi até o meu andar, o dezenove, de escada. Não queria tentações. Quase morri ao abrir a porta. Peguei meu samsung Galaxy SIII mini, que ganhei de aniversário da minha mãe querida, quando esta fora aos EUA à passeio. Adicionei a Nathália no meu whatsapp e vi o da minha mãe querida por lá. Nossa, que saudade da minha mãe e do meu pai. Olhei as horas e decidi ligar para aqueles dois idosos, depois do meu banho. Ri tão alto que não tive vergonha. Eles odiavam quando eu os chamavam assim. Fui para o banheiro tomar uma ducha gelada. Demorei um pouco mais pois sentia meus músculos doerem e na água gelada fico mais relaxado. Ao terminar, liguei para meus pais. Conversamos rapidamente e quando disse que estava com saudades, minha garganta travou e comecei a chorar. Prometi que iria visitá-los em breve. Desci para almoçar com seu Portuga, que já estava pronto e bem vestido, me esperando.

   -Seu Portuga, quero aprender a me vestir como o senhor.

   -Vai ficar zuando?

   -Estou te elogiando, ô carrancudo. Você se veste como os malandros cariocas dos anos vinte, fora que esse seu chapeu de palha dá uma sensação de paz e tranquilidade. Eu gosto de como o senhor se veste, de verdade.

   -Aham. Fico só observando.

   -kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. -Adoro quando o senhor começa a falar assim. -Mas vem cá, trouxe o que pedi?

   -Sim. -Sim.

   Ele parou e me olhou nos olhos, com desconfiança e curiosidade. -Vem cá senhor Julius, o senhor está muito diferente. -Não só por causa de ontem, mas completamente diferente. -Fazia tempos que eu não o via assim. -Nova paixão?

   Pensei um pouco sobre o que ele me falou e respondi:

   -Seu Portuga, estou apaixonado por estar bem e de poder recomeçar a minha vida, antes de ter acontecido algo pior. -Mas vamos almoçar que estou varado de fome.

   Sentamos, escolhemos nosso prato, pedimos nossas bebidas. Ele sempre pedia caipirinha. -Caipirinha coada, por favor. 

Eu ria dele, não caçoando, mas porque ele me deixava feliz. Queria poder chegar na idade dele com aquela disposição. Enquanto esperávamos o almoço, peguei as folhas em branco e a caneta e expliquei minhas ideias a ele. Desenhei, melhor dizendo, tentei desenhar minhas ideias e ele, me entendendo e colocando as dele.

   -Senhor Julius, o senhor acha que pode dar certo? -Essa molecada não está com internet e o senhor mesmo já havia me explicado que estão até deixando de ir ao cinema e assistindo filmes pelo computador?

   -Sim, mas os filmes que terá na sua banca, não estão na internet, não a maioria. E o senhor terá o que sempre quis, uma banca de revistas e uma locadora, mas só com filmes clássicos e alternativos. -Sem falar que o senhor já tem mais ou menos duzentos filmes.

   -Mas como assim, se ainda não comprei e...

   -Vou doar a minha coleção de filmes para o senhor.

   Toda vez que quando eu entro com dinheiro ou alguma coisa que é minha, ele sentasse ereto na cadeira, toma uma posição como ditador e já começa negando.

   -E nem adianta o senhor vir com esse ar de Fidel Castro, me negando e falando "não", que já me decidi. -Vou doar meus filmes ao senhor e já estão encaixotados, prontos para ficar na sua banca.

   -Senhor Julius, eu... Ele começou a ficar emocionado.

  -Ô seu Portuga, engole o choro. Sabe que estamos nessa juntos não é? -Eu quero fazer sua banca referência na cidade. Com os meus textos espalhados em sites e jornais alternativos, o senhor já conseguiu equilibrar suas finanças.

   -Por isso mesmo que me emociono. -O senhor fez muito por mim e ainda não sei como agradecer, mas vou recompensá-lo. -Pelo menos pare de pagar pelo que consome.

   -Portuga, tudo o que o senhor vende na sua banca, tem que estar dentro da contagem. -O senhor acha que vou ficar pegando revistas e garrafas de água sem pagar? -Nem louco. Você tem fornecedores e precisa manter a confiança deles. 

   Ele me olhava com admiração, muito diferente de alguns anos atrás, onde ele tão mal educado e grosso quanto ao jornaleiro que...cacete, tenho que devolver os dez reais do soldado que me ajudou. Mas eu queria recompensá-lo...peraí, tive uma ideia.

   -Seu Portuga, posso interromper nossa conversa para fazer uma ligação importante?

   -Claro meu jovem. -É para mulher, não é?

   Ri dele e quase gargalhei quando falei o nome do meu amigo pelo telefone. Seu Portuga virou os olhos de impaciência.

   -Fala Gustavo, como está? -E a família? -E os negócios? -A cara, sumi um pouco sim, mas estou de volta. -Vem cá, lembra daquele presente que você me deu? -Pois é, eu gostaria de dá-lo para uma pessoa que me salvou de uma enrascada outro dia e estou em dívida com ele. -Se você não ficar chateado também...não? -Que ótimo Gustavo. -E posso te pedir mais um favor? -É porque essa pessoa trabalha bem perto de você...isso, ficaria feliz se você conversasse com ele. -Ah, ele é um soldado da PM e o posto onde ele trabalha ficar a uma rua de onde você atende. -Isso, o sobrenome dele é Cunha. Isso, sim, ele é meio pançudinho sim. -Ah, faz mais outro favor para mim? -Entrega para ele dez reais, foi ele quem me emprestou. -Gustavo, passo aí essa semana para te pagar... -Que isso cara, você não me deve nada. -Muito obrigado Gustavos, qualquer coisa pode me ligar. -Valeu, abraços.

   Seu Portuga ficara impressionado comigo e nem sei porque. Expliquei que o Gustavo era dono de um carrinho de açaí e dei algumas dicas para o seu negócio, assim como uma mudança de estratégia, o que o livrou da falência precoce e ampliou seu negócio, tendo diversos carrinhos de açaí, espalhados por toda a cidade, aumentando seu faturamento, criando uma empresa forte no ramo. Ele tinha ganhado seis meses de compras num mercado da cidade e havia me dado o presente, que por minha vez, dei para o soldado Cunha, que havia me ajudado ontem. Não queria dar mais dinheiro, nem cerveja ou qualquer outra coisinha que não serviria. Mas como vi que o soldado Cunha era casado e provavelmente teria filhos, um presente desses me alegrava bastante. 

   Tratei com seu Portuga um designer, amigo meu, que poderia fazer o projeto da sua banca. Almoçamos e trocamos mais algumas ideias. Fiquei de mandar outras ideias, só que agora, escritas, do que conversamos e de algo que não havia me lembrado.

   Voltei para meu apartamento para escrever algumas matérias pendentes para os sites que eu era colaborador. Li outros artigos e bateu uma curiosidade sobre a Nathália. Impressionante como as redes sociais e a internet podem dar tantas informações. Comecei a rir do que ia descobrindo e a ficar impressionado de ter tantas coincidências. Mas não entendia o por que de ela ser tão...

                                                                              continua...

Capítulo 1

Capítulo 2


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