A DERROTA NA EMPANADA

16 de Agosto de 2011 Abreu Contos 992

O voo transcorria na maior normalidade. Como estava sem qualquer companhia e ao meu lado prolongava-se um gordo irritante, a invadir continuamente meu espaço, aproveitei para destrinchar cada página do jornal Folha de São Paulo, que realmente necessita de um voo continental ida e volta para serem lidas completamente, tantos são seus cadernos. E assim se passaram as horas, eu quase sem senti-las – tirando um desconto o ronco ritmado e estridente do gorducho vizinho em boa parte da viagem –, entretido que estava com assuntos tão diversos que só despertei daquele transe quando ouvi o sinal característico de apertar cintos, a confirmar que estávamos próximos do destino. Passei os olhos ao redor e vi que estava tudo normalíssimo e fiquei a olhar pela janela a tentar enxergar lá embaixo resquícios de luzes. Sentia vontade de fazer xixi, mas só em pensar a arriscar travar qualquer diálogo com o gordo chato, que fui logo me prendendo. De repente, a troco de nada, o avião reduz de chofre a velocidade, sem qualquer aviso prévio e começa a rodopiar. Em murmúrios de dúvidas todos se entreolham, casa um buscando em olhares desconhecidos alguma resposta para aquela nova situação, como se a qualquer momento alguém fosse gritar: “Calma gente! Daqui a pouco normaliza. Está tudo em ordem!” Mas nada disso ocorreu e o avião foi despencando e na mesma proporção, rodopiando, o respirar se angustiando e as luzes piscando e máscaras caindo e gritos e mais gritos se entrecortando e eu, a nunca me imaginar numa situação dessas, me vi em segundos revisando minha vida, de tal maneira, que nem acreditei como consegui coordenar meu pensamento. Em coisa de alguns segundos repassei da infância à vida adulta, envolvendo família, mulher, ex-mulher e todos os filhos, que de imediato meus olhos marejaram. E quando já estava todo atrapalhado a tatear o celular para alguém avisar, quem sabe um parente mais próximo, senti um forte impacto e uma dor aguda embaixo das costelas do lado esquerdo, que de pronto abri os olhos e empapado de suor, vi-me sentado na cama, a respiração ainda ofegante, uma vontade louca de ir ao banheiro, o alívio estampado na cara: “Pesadelo! Ainda bem...”

Aí então foi que a preocupação se acentuou, porque a tal dor continuou a lacerar e fiquei ali, ainda sentado, a mulher a dormir ao lado sem nem imaginar meu suplício, eu ainda todo azoado a concatenar as ideias; tentei me aprumar melhor, a dor a se repetir em intervalos menores que um minuto, já a imaginar besteira de quem não tem resposta para o que está a se avizinhar, eu a recolocar-me naquele avião, a subentender que a mente estava sim, a avisar-me dentro de meu sonho o risco real já a se apresentar. Ainda atordoado, pensamentos aos turbilhões, ainda relutante em a mulher acordar, fui ao banheiro e depois do xixi extraído, senti pelo estômago um rebuliço e me mantive por ali, largado no trono, aguardando alguma novidade, sem nem me aventurar a levantar-me. Nesse momento o esfíncter teimoso enfim rendeu-se e algumas lufadas de ar expelidas em sequência, acompanhadas por dois provenientes arrotos aliviou por completo aquela sensação de desprazer e semblante já aliviado, pensamentos devidamente coordenados, em regozijo exclamei enquanto estava a lavar mãos e rosto, este ainda vincado pela apreensão causada com toda essa situação: “Gases! Ainda bem...”

Como em alguns minutos saí de um avião em voo de cruzeiro e acabei sentado em trono sem reino, descobri desolado que o baque foi tão pesado que sono nenhum fosse de volta me querer. Por mais que pouco tenha dormido, o jeito foi visualizar o dia amanhecer enquanto visitava o site “Autores”, a ler novos escritos, já a acatar acompanhar a mulher em praia matutina, a saudar os orixás, quem sabe a equilibrar mais um carnaval na terra da magia quando aquele ronco inicial voltou a se manifestar. Parecia mais um motor desgovernado. E no meio da leitura de um texto de “Agathe”, o ronco foi se acentuado, a se transformar em um verdadeiro rally, daqueles infernais, a fazer aquele esfíncter teimoso de outrora soltar as amarras antes da hora, que num arrepio medonho corri para o banheiro e mal sentei ao trono, o pau quebrou. Amigos... Junto àquela cólica monstruosa, desceu latrina abaixo um trio elétrico estrondeante com todos seus cinco mil foliões ululantes, que fui obrigado a ficar ali por um bom tempo, aguardando toda aquela música acabar. E enquanto ficava a aguardar a dor amainar, admirando os poros comprimidos e arrepiados dos braços e os pelos que de tão eriçados, logo me imaginei um gato preto prestes pela presa a ser dilacerado, que de pronto encontrei o culpado: a maldita da empanada. E sabia de cor os avisos para não degustar nada na rua em época de carnaval. Só não avisaram o que fazer, depois daquelas latinhas de cerveja já na cabeça a rodar, exigindo o estômago de imediato, forrar. E não tinha como nova vítima arranjar. Me saciei com uma empanada. Das grandes, verdade. E agora continuava ali, foliões já debandados, música em seus últimos acordes, maldizendo aquele vendedor de sorriso fácil, guarda-pó branco a engabelar otários, sentado naquele trono triste e infestado de um odor agourento que não desejo nem para o pior inimigo. E depois de nove idas ao banheiro, a esquecer praia ou qualquer nova ocupação, passei toda a manhã a buscar entender como uma simples e inocente empanada de frango pudesse se resultar em tanto volume de foliões mal cheirosos, a pularem incansáveis ao som do Chiclete, Asa, Ivete... E a compensar meu triste penar comecei a fincar dentro de mim uma réstia de prazer, e com um risinho sardônico plantado num canto da boca, fiquei a imaginar uns dois amigos em pior situação, na gulodice de terem repetido a arriscada iguaria. E esse do carnaval é só o primeiro dia... Tensão, suspense, horror, medo, dor, alívio, tudo em tão curto espaço de tempo. Imaginem!

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