Coletivo

16 de Agosto de 2011 Jeff V. Pavanin Crônicas 1011

Mais uma tarde chuvosa. Saio do trabalho e o ônibus está atrasado de novo. Quando queremos chegar cedo em casa, preparar a janta e esperar pelo nosso amor, o ônibus atrasa. É o fato da sexta-feira, o atraso. No ponto estamos em três: eu, uma mãe e seu filho de colo. Reparo que a fralda da criança está amarrada na chupeta que ele saboreia com gosto. Ele olha pra mim e eu aceno, expressando alegria. É difícil nas noites de sexta-feira, expressar alegria. Mas faço pelo filho da mulher, que me parece feliz.

A mulher, pelo contrário, não me parece. Não cansa de consultar o relógio de pulso a fim de verificar os minutos de atraso. Acho engraçado o relógio: é de menina, cor-de-rosa. Por um instante penso que ela pode, talvez, ter uma filha. Seus cabelos espessos estão presos a uma presilha amarela, na qual o filho deposita bastante atenção. Ele se empoleira nos ombros da mãe querendo brincar. Olho para o final da rua e percebo que o ônibus está chegando. Aceno para a mulher, avisando-a. Ela agradece e prepara o dinheiro.

Dou espaço para que ela suba primeiramente com o filho, e logo entro. O motorista é conhecido, deseja-me boa noite e toma-me as moedas. O ônibus não está cheio, mas há muitas pessoas sentadas. Avisto um acento vago na parte de trás, e me dirijo até ele. Reparo que um jovem casal oferece à mulher e seu filho os acentos elevados logo ao lado da porta de saída do ônibus. Eu me sento e o casal permanece de pé: logo vão sair. As pessoas conversam e um burburinho agradável toma conta do ambiente. Levei sorte, pois hoje não há ninguém ouvindo música alta no celular. Uma noite limpa.

As ruas passam, o dia vai sumindo. Sinto o sono costumeiro chegar e ir embora. As pessoas sentadas são as mesmas de ontem, de anteontem. Todos os dias nós nos encaramos, rimos e choramos, sem nos conectar. Posso dizer que troquei palavra com poucas delas. E, apesar disso, estamos juntos. A rotina é a mesma, o caminho também. Um a um eles vão saindo e entrando. É um ciclo que só termina à meia-noite, quando o próprio motorista deixa seu posto e volta também à sua casa.

A porta traseira abre mais uma vez, um homem desce. A porta logo se fecha e um grito quebra o burburinho. Viro-me para trás e percebo que o resto das pessoas também vira. A mãe da criança está gritando pelo motorista. Motorista! Abre a porta, abre a porta! O dedinho do menino está preso. Algumas pessoas tentam alertá-lo. O resto, assim como eu, percebe que a única pessoa apavorada é a mãe. O menino só ri da situação. As portas do ônibus são emborrachadas, e entre uma e outra há um pequeno vão. A mão de qualquer criança caberia inteira nele e sairia sem nenhum arranhão.

O ônibus pára e a criança retira o dedo da porta antes que ela se abra. Mais calma, a mulher grita com o menino e lhe senta um safanão no braço. Está tudo bem. Ele ainda sorri e as pessoas acham graça. Quando a mãe percebe seu erro, a vergonha toma conta de seu rosto, que enrubesce. Finge não ouvir os comentários e não ver a ironia estampada nos rostos dos passageiros. Dentro de alguns instantes ninguém se lembrará do fato de o garoto ter pregado uma peça na própria mãe. Com certo atraso reparo que ele já é um pouco grande pra ainda andar no colo e chupar chupeta. Deve ser mimado.

Olho para frente e avisto meu ponto quase chegando. Levanto-me e faço sinal para que o motorista pare. Comigo descem duas pessoas: Maria, a vizinha que pensa que eu sou pervertido, e Juliano, marido de Pedro. Seguimos a rua sem lançar comentários. Despeço-me de ambos com um boa-noite sonoro, mas somente Juliano responde. Maria parece não se dar comigo. Entro em casa e tiro os sapatos, meus pés agradecem. A chave do carro não está na mesa. Olho o relógio e concluo que Rita já deve estar chegando de viagem. Talvez seja melhor eu preparar o jantar.

Esse texto está protegido por direitos autorais.
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