A TAL MEIA IDADE

17 de Agosto de 2011 ivanlimasp Crônicas 1574

Na verdade não sei bem quando começa a meia idade, mas acho que já estou nela. É como estar na adolescência quando não somos crianças nem adultos ainda. Na meia idade não somos mais jovens e ainda não somos velhos, nos dois casos vivemos um período de transição, uma espécie de buraco negro no tempo, o que acaba criando uma certa crise de identidade. Mas isso não é de todo mau, acaba dando oportunidades de autoconhecimento e uma certa dose de uma gostosa irresponsabilidade.
O adolescente acaba podendo fazer o que quiser, pois, se faz coisa de criança tudo bem, afinal, ele ainda não é adulto e se faz coisas de adulto todos acham que já está se tornando um. Na meia-idade não é diferente. Podemos nos comportar como jovens, porque afinal, nos dias de hoje os quarentões estão podendo mesmo e se nos comportamos como velhos ninguém nos cobra nada porque já estamos a caminho da terceira idade. Mas é um tempo de confusão mental porque os jovens nos acham velhos e os velhos nos acham jovens. Para os meus filhos e seus amigos(que geralmente me chamam de tio num tom pejorativo, o que eu detesto) eu já estou velho, se faço coisas de jovem estou “pagando mico”, já para minha mãe, suas amigas, meus tios, eu ainda estou “novo”, o que me deixa pra cima, envaidecido até. Por isso ultimamente tenho preferido a companhia dos mais velhos. Me acho muito jovem, minha cabeça pensa como jovem, ainda tenho um pique maior que muitos garotos. Trabalho, estudo, passeio, corro, vou a festas, ando pra lá e pra cá, não deixo de fazer as coisas que gosto e com quem gosto, aliás, acho que hoje faço muito mais coisas do que quando tinha menos idade.
Certo dia estava numa festa junina quando se aproximou de mim um senhor de idade avançada e começamos a conversar. Ele me contava que tinha quase noventa anos, o que me admirei porque estava em excelente aspecto, apesar de apoiar-se numa bengala por um pequeno problema na perna acontecido há poucos dias na academia. Isso mesmo, na academia. Contou-me de suas muitas aventuras na vida, de como era muito mais ativo quando era jovem como eu. Nossa! Fiquei ali ouvindo suas histórias e pensando em quanta coisa ainda tenho a realizar, afinal, para eu chegar à idade dele ainda me faltam quase os mesmos anos que vivi até hoje, o que não são poucos.
A juventude é cruel com os mais velhos porque não sabe tirar proveito de sua companhia. Envelhecer não é e não deve ser motivo de tristeza, porém, muitos jovens fazem com que seus pais ou avós sintam-se como se estivessem perdendo o valor por adquirirem anos de vida. Pessoas não são como objetos que com o tempo depreciam, pelo contrário, pessoas são como obras de arte e bons vinhos, com o passar dos anos ficam mais e mais valorizadas. Num mundo onde cada vez mais o que se tem é mais valorizado do que o que se é, os jovens correm o risco de achar que seus pais, avós, tios, professores, enfim, pessoas mais experientes tornam-se obsoletos muito rápido, com isso acabam perdendo a referência na vida. Estão tão acostumados a descartar roupas que saem da moda, computadores, aparelhos eletrônicos e celulares logo que lançam um modelo mais novo, mesmo que o seu esteja funcionando bem, que já não têm prazer em curtir a vida, vivem em função de ter coisas, por isso não sabem dar o valor necessário às pessoas mais velhas. Os anos ensinam muito a todos nós, inclusive a saber que envelhecer é um processo natural em que a vida vai tirando aos poucos a energia e a força física mas vai dando em contrapartida a tolerância, a sabedoria e uma força emocional que podem transformar as vidas de quem se dispuser a conviver com os mais velhos.
A meia idade está sendo talvez o melhor momento da minha vida, pois é nela que estou descobrindo sua verdadeira beleza e seu sentido. Tenho aprendido a controlar a nau, a direcionar as velas na direção do norte, a controlar o leme tanto na calmaria quanto nas tempestades de sensações, não colocando em risco minha embarcação nem a tripulação que comigo navega. Já dizia o poeta: “navegar é preciso, viver não é preciso.”
A vida não pode e não deve ser precisa, só assim podemos experimentar o verdadeiro sabor do que é viver. É justamente nessa incerteza que a tornamos mais bela, escrevendo em cada dia uma página da nossa história, sem sabermos qual será o final.

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