O Zé é um cãozinho srd(sem raça definida-eu o denomino assim porque jamais o vi virando uma lata sequer) de aproximadamente 3 anos e meio, porte pequeno, orelhas que mais parecem antenas porque sempre estão atentas à tudo ao seu redor, uma língua compridérrima sempre para fora da boca, cauda pela metade, uma pelagem tricolor brilhante, olhar penetrante, cabecinha erguida que chega a parecer um puro sangue e uma pinta de esperto que só ele. Mas nem sempre foi assim. Ele foi encontrado à beira de uma sarjeta, todo machudado, sem conseguir se levantar, sem emitir um som, com a cauda sangrando, porém, na menor aproximação seus dentes podiam ser vistos no seu rosnar, a única coisa que conseguia fazer.
Provavelmente ele, que era um cão da rua, sofreu algum tipo de agressão que o deixou totalmente debilitado, pelo menos é o que se imagina, já que ninguém conhece realmente sua história.
Foi carinhosamente recolhido por uma amante de animais com o intuito de entregá-lo a uma instituição que pudesse tomar conta dele. Mas, com tantos animaizinhos soltos pelas ruas, sofrendo de maus tratos, quando alguém recolhe algum desses as instituições protetoras convencem essas pessoas a ficarem com ele até conseguirem um lar para o mesmo, já que essas instituições estão com seus pátios repletos de animais que carecem de cuidados, o que não é de graça e as mesmas sobrevivem de contribuições voluntárias de pessoas que se preocupam e amam os animais.
E assim foi com o Zé. Ele foi levado ao veterinário e o diagnóstico não foi muito animador, tal era seu estado de saúde. O tratamento foi iniciado à base de antibióticos e com muita paciência a alimentação era ministrada diretamente em sua boca, já que não tinha forças sequer para comer. Os dias foram passando e o Zé ia reagindo muito lentamente e parecia mesmo que não sobreviveria ou que se sobrevivesse, ficaria com sequelas, talvez não andasse mais.
Porém, com um misto de remédios, paciência e muito amor e carinho nosso amigo começou a reagir e em algumas semanas começou a cambalear, cambalear, até que um dia andou. Com um aspecto mais saudável ele mostrou-se um cão de fibra. E de maneira espantosa recuperou-se totalmente. Agora estava pronto para ser levado para um lar que o quisesse adotar. Mais dias foram passando e o Zé com aquele jeitinho humilde foi cativando as pessoas da casa. Instalou-se então um dilema: o que fazer com ele, já que na casa existia um cão e não havia a menor intenção de ficarem com dois. É, mas não teve jeito, ele foi ficando, ficando, conquistando seu espaço na casa e no coração de todos e de repente o Zé já era parte da família. Ah! E como ele se chamaria, porque até então não tinha nome. Bem, com aquela carinha não podia ser outro o nome dele: Zé, na verdade fora batizado de José Eduardo, Zé para os íntimos.
Ele continua humilde, mas ao mesmo tempo imponente. É o guardião da casa, não admite um intruso sequer. Ensinou até o Milú, o seu companheiro da raça Cocker, a ladrar para quem passa na rua e a rosnar para os cães que passam em frente ao seu portão. Por falar em Milú, este tinha uma casinha confortável. Sim, tinha, porque o Zé tomou posse dela, mas pelo visto, em acordo com o antigo proprietário, já que este não fez nenhuma questão de expulsá-lo.
O Zé é assim mesmo, tem uma carinha de fanfarrão, humilde, e assim vai conquistando todo mundo, pois é muito carinhoso também. Ah! Ia me esquecendo de um sofá que ele jura que trouxe consigo. É dele! O que ele mais adora é passear pelas ruas. Sai em disparada, puxando a guia e latindo frenéticamente como que gritando para todos aqueles que um dia o viram na sarjeta, que agora ele tem um lar, uma família que o ama e que só vai à rua para passear. No início ele resistiu ao passeio, deve ter pensado que iria ficar novamente abandonado pelas ruas, mas aos poucos ele percebeu que sempre voltava pra casa, e com isso nunca mais teve medo de sair, porque sabe que agora tem pra onde voltar: a sua casa!
Na verdade, outro dia estava olhando bem pra ele e observando a sua esperteza e cheguei a até a cogitar a hipótese de ele ter arranjado tudo isso pra poder morar nessa casa, percebendo que ali moram pessoas que amam os animais e que jamais o deixariam voltar para as ruas...mas foi só uma suposição...acho que ele não seria capaz de arquitetar um plano desses...ou seria...Acho que não, porque olhando bem nos seus olhinhos brilhantes a gente percebe que é uma criatura de coração puro e que tem uma gratidão enorme para com os que salvaram a sua vida e que agora são a sua família.

*Esta crônica foi publicada na Seleções do Reader's Digest de Dezembro/2008

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