A tecnologia vem alterando o meio familiar e social de tal maneira nesses últimos quarenta anos, que mesmo no mais recôndito grotão desse Brasil de Todos Nós, todos tiveram que acatar as mudanças, as quais não param de acontecer.

No início de minha existência, almoçávamos todos os dias, a família unida em torno de uma mesa imensa em salão de uma ampla casa, em interior atrasado, o patriarca a sentar-se sempre por último, na cabeceira, onde devem sentar-se reis e autoridades. E qualquer um que ousasse levantar-se antes dele, pedia licença e não podia demorar-se mais que alguns parcos minutos, onde a única distração após o almoço digerido era um ficar olhando para a cara do outro, sem qualquer diálogo ou brincadeira; somente a ouvir a voz irritante de um locutor em um imenso rádio, a transmitir em Ondas Médias (OM), mais conhecidas como rádios AM. Com o passar do tempo, a postura patriarcal continuou a mesma, o rádio num canto desolado e mudo, a dar lugar à imperiosa televisão, ainda em preto e branco, os mais espertos a utilizarem uma tela de plástico sobre o monitor, em cores na horizontal em azul, amarelo e verde, dando o efeito de “colorido”.

Hoje em dia, quando chego em casa para o almoço, já encontro um dos filhos a banquetear-se em frente ao monitor de um computador, teclando entre uma garfada e outra; o outro vidrado em frente da televisão, sentado no sofá, prato no colo, a levar o garfo à boca sem ao menos dar-se ao trabalho de analisar o que vai ser ingerido, a não perder um minuto sequer da programação; e o terceiro, no quarto, sentado em almofadas, o vídeo game ligado em uma luta interminável, ou em tresloucada corrida de carros, o prato desprezado ao lado, no chão, o alimento já frio, pela metade, onde a batalha já dura mais de vinte minutos e não tem hora para acabar.

E os estudos? Quando não existia erros ou falha na semana, ganhávamos o direito de irmos à missa, aos domingos, e ficarmos meia hora na praça, sem qualquer direito a ampliar-se o tempo. Íamos para o colégio pela manhã e passávamos as tardes da semana com a cara enfiada nos estudos, sem direito a qualquer interrupção, salvo os quinze minutos do lanche. E mal escurecia, jantar devidamente engolido, já estávamos embaixo dos cobertores, dentes escovados, a rezar o pai nosso. Aniversários, todos eram repassados para a sexta ou o sábado, à noite, onde o direito ao acesso eram as notas da unidade sempre beirando o máximo. Hoje em dia as brincadeiras em sua diversas opções atropelam o estudo, a nem saber como os meninos conseguem passar de ano, visto que nunca os vejo estudar, por mais que façamos disso uma batalha diária. Aniversários acontecem todos os dias e a qualquer hora, e os meninos ampliam a noite de tal maneira, que dificilmente algum dorme antes das nove da noite.

Naquela minha época de filho mal saído da infância (a televisão já tinha aposentado o rádio), quando o telefone tocava na sua estridência de toque único e intermitente, a empregada corria a atendê-lo, e só repassava o recado após o término do almoço, a não ousar incomodar. E o patriarca prendia os inquietos rebentos por sacrificantes minutos, a palitar dente por dente, na maior calma, a mão fechada em concha à frente da boca, a denotar educação. E quanto mais impaciência ele notava nos filhos queridos, mais achava dente a futucar. E ai daquele que esticasse conversa ou ousasse levantar-se antes dele. Castigo na certa.

Hoje em dia os filhos dormem com o celular embaixo do travesseiro e o carregam para qualquer canto que for, os minutos no trono dando o espaço para iniciar algum joguinho, enviar torpedos, ou ficar a bater papo com amigos entre uma abertura do esfíncter e outra.

O computador, que me atropelou já adolescente e o utilizei exclusivamente para editar textos e desenvolver planilhas ou ativar algum outro programa voltado exclusivamente para o trabalho, hoje em dia está a satisfazer os filhos em fazer sua colheita diária, visto que todos possuem fazenda virtual, a interagir virtualmente com mais de cinco amigos ao mesmo tempo no tal do Messenger, a arranjar assunto para mais de uma tarde, todo os dias, quando não estão a ler dezenas de e-mails que chegam em seu endereço eletrônico diariamente, não salvando um sequer com assunto pertinente.

E assim, vamos nos adaptando, diferentemente de nossos pais que, a manter a lei severa desse passado hostil, quando não estava a nos castigar dolorosamente com taca de cavalo, cinto, cabo de vassoura, palmatória, ou bordoadas pelas ventas, por qualquer erro banal, vez ou outra, por pura diversão, nos punha com a cara de encontro a parede e a satisfazer sua sordidez, joelhos em cima de caroços de feijão, arroz ou milho, conforme o grau do castigo. Isso por no mínimo, meia hora. Hoje em dia, a rebeldia dos filhos se inicia antes dos doze anos de idade e ai daquele que ouse peitar um adolescente macho e púbere em seu mais de metro e oitenta e peitoral bombado. Melhor aprender a fazer a colheita virtual deles e ficar em sua ausência a amealhar mais pontos no dia a dia de tantas novidades.