São quase duas da manhã. Me levanto, ando pela casa com aquele ar de quem acabara de se mudar. Parece ser tudo novo para mim e, ao mesmo tempo, tudo antigo. De primeira, pego um copo e encho de algo que gosto de chamar de: alívio mentiroso temporário. Na mesa, encontro meu cigarro e resolvo acendê-lo.
Enquanto isso, nesse trajeto, fico à pensar em tudo que me acontece até o momento: sentimentos obscuros, dos quais tento esconder e alegar não possuir; insegurança de não conseguir vencer os desafios diários; e medo. Medo igual de uma criança, quando ouve histórias de bicho-papão que espera a madrugada chegar para atacar.


Prefiro deixar o tempo passar, como fazia antes, contando os meses, dias e até mesmo horas, para que um momento bom viesse à chegar.Consegue me entender? Pode notar a diferença do ontem e o hoje? Talvez eu não esteja conseguindo. Talvez eu esteja perdido nessa transição de tempo. Aliás, sempre estive perdido em meio a ruas e multidões, posso dizer quase com certeza, que só me encontrei uma vez na vida - ou achei ter me encontrado-.
Hoje continuo do princípio e espero poder me encontrar novamente, do mesmo jeito que me encontrei uma vez.


Quando de repente, escuto um barulho próximo aos meus ouvidos. Parecia um estalar de dedos ou algo semelhante.Me deparo de frente ao espelho, me encarando fixamente, imóvel. Lavo meu rosto, resolvo esquecer tudo o que aconteceu e voltar para minha cama.