Não precisa ser cientista político para prever a iminência de um segundo turno para as eleições presidenciais deste ano, caso Marina Silva seja confirmada a candidata do PSB. A vacância do posto se deve à precoce partida de Eduardo Campos deste mundo.

Já nesta quinta-feira (14), o Datafolha começou uma nova pesquisa considerando, entre outros cenários, Marina Silva como cabeça de chapa. Antes de anunciar a aliança com Campos, em outubro de 2013, ela aparecia com 26% das intenções de voto. Esse potencial, somado aos 20% de Aécio Neves, ultrapassa os 36% de Dilma Rousseff e garante o segundo round desta batalha rumo ao Palácio do Planalto. Sem contar os cerca de 10% de Eduardo Campos, que ninguém ainda sabe para onde vão. Por enquanto, tudo é incógnita, aliada à comoção que prorrompeu no espectro político brasileiro.
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Falo sem a menor cerimônia que Eduardo Campos me inspirava confiança e reforçava o meu otimismo na política. Conhecia pouco sobre ele até o ano passado, quando tive a honra de poder, junto com meu chefe, deputado estadual Artagão Júnior, estar no gabinete dele, em Recife. O então governador de Pernambuco externou sua visão e discutiu meandros da administração pública. Em menos de meia hora me fez admirá-lo convictamente. Lembro que um dos parlamentares que estavam na reunião o questionou sobre a unificação das eleições no Brasil. “Sou a favor”, disse ele. O parlamentar objetou em seguida: “Mas o senhor já se manifestou contra em algumas entrevistas no passado”. Serenamente, Campos treplicou: “Era contra sim. Hoje sou a favor. Que bom que as pessoas mudam, né?”.

Lembro também que ele se queixou da falta de autonomia dos Estados. “Não podemos legislar nem sobre o uso do capacete para os ciclistas. Tudo depende do Congresso Nacional”. Na ocasião, discutia-se o grande número de mortes em acidentes de bicicleta, em Recife. Também reiterou a importância do Pacto Federativo, que propõe redefinir a divisão do bolo tributário brasileiro. A reivindicação é de praticamente todos os prefeitos e governadores do país, pois cerca de 60% de todos os tributos ficam com a União; 23% com os Estados e 17% com os municípios. Eduardo Campos argumentava com números, exemplos e alternativas. Impossível não encher os olhos.

Falando em pacto, o programa “Pacto pela Vida”, que ele implantou, enquanto governador, promoveu a redução de 40% na taxa de homicídios em Pernambuco e de 60% no Recife. Nada mal, né? O segredo de tais resultados, segundo ele, era uma política de segurança baseada em metas e bonificações por meritocracia.

Ainda em Recife, no dia seguinte, após uma palestra a deputados estaduais de todo o país, Eduardo Campos foi sabatinado. Enquanto falava sobre os equívocos históricos do Brasil a respeito da infraestrutura, um parlamentar tucano do Rio Grande do Sul indagou: “Enquanto nossas estradas estão um lixo, enquanto não temos ferrovias e portos decentes, o governo federal suga a classe média para financiar o Bolsa Família. O que o senhor acha disso?”. “Uma coisa não tem nada a ver com a outra. São áreas e demandas diferentes. Como criticar um programa que, por exemplo, aqui em Pernambuco, a maioria das famílias o utiliza pra comprar arroz, feijão e fubá?”, devolveu, mesmo rompido com o PT e já articulando a campanha para presidente.

E por aí vai. Ou ia. Recordo-me ainda que Eduardo Campos falava sobre a eficácia “singela e gratificante” de um projeto que realizara com soldados do Corpo de Bombeiros, que, quando estavam em dia de folga, levavam idosos e pessoas com deficiência para ir à praia ou fazer alguma atividade de lazer. “Não gastamos praticamente nada para fazer isso. E está fazendo um bem danado a muita gente”.
Poderia escrever mais. Mas recolho-me ao silêncio, ainda enlutado, ainda chocado, mas com a certeza no coração de que realmente não devemos desistir do Brasil.