Sobre gatos e ônibus!

Esperava o ônibus, com um gato miserável nos braços.
Um gato feio e magro.

Poderia ser o menino mais triste com o gato mais feio do mundo.
Não pagaria passagem, de certeza.

Sempre passou por debaixo da roleta sem reclamações do cobrador. Embora tivesse onze anos, o tamanho e a magreza lhe deixavam com corpo de criança de bem menos que isso.

A rota era a mesma, no mesmo horário, o motorista era o mesmo.

O cobrador também. O menino continuava o mesmo, porém agora tinha um gato.
Ele sabia que ninguém lhe cobraria a passagem, mas e o gato?

Deixariam o gato ir sem pagar? Tinha uns trocados que ganhara da mãe para comprar pão. Aliás, deveria voltar da aula com o pão, e não com um gato.

Gato feio. Gato pobre. Gato sem comida. Magro. Mas cabia direitinho no colo do menino, mais magro ainda.

O gato se aninhava, como se nunca tivesse ganhado um colo em toda a vida.
Chega o ônibus.

- Deixa o gato! – Berra o motorista

- Eu pago pra ele... choraminga o tristonho guri.

- Gato não anda de ônibus, moleque!

– Ele reconheceu a voz do cobrador ecoando no ônibus quase vazio.

– Gato faz xixi e fede. Deixa ele, ou vai a pé pra casa hoje.
- Mas agora ele é meu amigo!

– hesitou e soltou o que lhe agoniava há muito tempo
- e você também fede!


Virou as costas e foi para casa a pé, sem pão e com o gato.



By Menina Ruiva