Esta crônica é uma continuação de outra, sugiro uma retomada na primeira parte (http://www.texton.com.br/cronicas/12411/#!/a-fotografa-e-o-roqueiro), é rápidinho, deixa a preguiça de lado. ;)


Dizem que tem fenômenos galácticos, como o perfeito alinhamento do Sol, Lua e Terra no mesmo instante, improváveis e, por isso, raros. Porém, ninguém acredita no improvável, talvez, apenas, Ana, aquela lunática. Não é hipérbole. A garota andava com uma pedra da lua pregada numa gargantilha que por sua vez era pregada no pescoço d'Ana. Explicado. Ela chegou atrasada, a apresentação da banda que abrira o show estava na sua penúltima música. Correu para o camarim da banda, já encaixando as lentes e ajustando a câmera. Pediu licença e foi ignorada. Entrou de qualquer forma. Pedão estava ajudando Maria com a roupa, enquanto a outra dupla conversava e fumava um. O quarteto heterogêneo formava uma banda feminista, Maria era colega da Ana, havia visto alguns projetos dela aleatoriamente em blogs e se identificou. Os cabelos coloridos da fotografa atraíram os olhares confusos de todos, acharam que era groupie. Ana, toda bagunçada, se identificou. Se desculpou num embaralhado de palavras que supomos que todos entenderam, despertando o interesse de Jão, ou João. A conversa prosseguiu, Ana fez algumas fotos, umas preto e branco. Outras no colorido. Qualquer ser humano era infinitamente interessante em sua pecularidade para Ana, então, a história da banda paulista foi facilmente assimilada e admirada. Pedão tocava violão, violino, flauta, zabumba e sanfona nos metrôs de São Paulo. Sua origem nordestina e sua necessidade de ganhar dinheiro numa megalopole o levaram a profissão. Conheceu o Jão, um publicitário frustrado apaixonado por música brasileira que tocava baixo e cavaquinho quando tava no chuveiro. Jão sempre dava uns tostões pro Pedão, a amizade fluiu como a nascente do São Francisco. Logo que o Pedão conheceu e, posteriormente, começou a namorar a Maria decidiram ir num galpão e formar uma banda rústica. Descobriram a Julia numa história de boteco. A menina era linda, mas o namorado dela vazou fotos dela pelada pro mundo e um pouquinho da galáxia ver. O triângulo entrou na briga. Julia tinha a voz linda, era linda. Julia era agora a formadora final do quarteto. Feminista, nacionalista e futurista. Os sonhos daqueles jovens enchem os olhos desse que vós escreve de lágrimas. Mas, amigos, a sociedade é tresloucada e atenção a minoria só é dada quando uma uma maioria os mostra. Sabemos, contudo, que a minoria está na maioria, mas a maioria não tem minoria. De qualquer forma, a banda cresceu pouco, tem letras boas e os hipster do outro lado do país os chamaram para ritmizar a cena de rock. Era o momento. Mostrar aos daqui que lá são bons, lá são ótimos, lá são um mito. Fotografias, resenhas seriam a base da divulgação que precisam. E agora, sabemos como encontraram a Ana. Amaram Ana. Há o que não amar? A áurea doce da moça lembra uma tia que tive na pré-escola; conseguia me convencer a fazer atividades. Imagina. Não há o que não amar. Até quando brigam. Jão quis saber mais, quis saber da cidade, da cultura, da gíria, da comida. Foi uma entrevista reversa, Ana ficou sem jeito. Deu a hora, Jão perguntou se um boteco dava. Ana confirmou. Teorias conspiratórias nunca eram demais. Ana sabia que ela e Jão não davam certo; não que ele não a atraísse, mas a ideia de cultivar um sentimento que teria de ser esfarelado, enforcado, sufocado e esmagado era terrível. Por que se torturar se na terça ia-se amor, ia-se respiração. Daria tempo? O que? Até parece que não a conhece; em dois dias já estava apaixonada. Corações e flores. A apresentação se seguiu, a banda era surreal. Fazia tempo que não via nada tão bom, a espiritualidade confundia o rock estrangeiro com um soul brasileiro, um samba carioca, e um leve cantar nordestino. Eu confesso que não sei se era só eu e Ana que sentíamos esses temperos porque conhecemos a história, mas pra nós dois, aquilo ali era puro baião de dois no sábado.

O nosso alemão brasileirado estava exausto. Bateria num galpão fechado, numa cidade que fazia 37 Cº, era febre. Buscou o ar livre, acendeu um cigarro e deixou sua tristeza balançar, de forma libertadora. Pura libertinagem. Não deixava-se mostrar aquele sentimento na frente de ninguém, mas o ritmo perturbador não o largava. Seus psicólogos nunca entenderam a origem precisa daquele, avassalador, sentimento. Óbvio. Veja só: ele nunca havia ido em nenhum. E nem planejava. Alguém mergulhando no mar do moço era mais desagradável que o próprio sentimento estranho. Aliás, com tamanha convivência, havia aprendido, majestosamente, a lidar, a sentir: permite-se sentir, antes de tudo. Deixa eu abrir um parênteses, Klauss amava pessoas. Ele procurava não as evitar, contudo essa sua característica era conflituosa com o seu sentimento. Era uma questão de organizar as coisas. Como brasileiro, não compreendo, alguém? Os pensamentos de Klauss voavam multidimensional, tridimensional. Chegou o filtro. O jogou no chão. Alcançou o maço no bolso, desistiu. Observou as risadas, gargalhadas, as conversas da rua. Numa mão cerveja, noutra aberta. Sempre dispostos a aceitar a idéia do outro. Admirador. O fato é, os olhos dele enxergavam amor, o dos outros enxergavam a possibilidade de ampliar a o conhecimento. De qualquer forma, decidiu entrar. Procurou pelos deles, os encontrou. Fabuloso. Os viam sorrindo e já o chamando, disseram que a banda era das boas, mas eles mitaram, certeza que iam sair em algum blog alternativo. Positividade. Klauss duvidada, mas deixou-se levar pela vaidade, imaginou posando ao lado da babe. Quero dizer, a bateria.


- preciso fazer um intervalo aqui.