A moral imoral

11 de Outubro de 2011 N. Liberator Neto Crônicas 1065

Naquele dia, Josias acordara muito disposto. Pegou seu Mitsubishi Lancer Evolution X e foi direto à igreja onde era pastor, para pegar algo que havia esquecido. Era uma pasta, dentro da qual havia muita papelada. Dentre elas, a arma do dia: uma folha com várias passagens retiradas da Bíblia, as quais condenavam a homossexualidade.
Engajado em uma campanha destinada a conservar a moral e os bons costumes, Josias era famoso por espalhar cartazes incentivando a não-aceitação dos homossexuais. Dizia que são pessoas sem Deus, que não era o mesmo que discriminar negros, por exemplo, afinal os negros não escolheram sua cor, ao passo que os homossexuais, segundo ele, teriam seguido tal caminho por opção própria (seriam masoquistas, com prazer em sofrer preconceitos). Era uma questão de falta de Deus na família, dizia ele.
Naquele dia, o pastor Josias foi a um debate na tevê, contra um homossexual. O assunto do debate era uma polêmica criada por ele, após ter dito que pessoas que fazem sexo com outras do mesmo sexo não possuem qualquer limite moral. Contra ele, o doutor Mazzili, um médico gay conhecido por operar em comunidades carentes sem cobrar nada, além de ser fundador de uma ONG chamada "Cumpridores do juramento" (em referência ao juramento de Hipócrates, no qual os médicos fazem o compromisso de não colocar o dinheiro acima da vida do paciente), que fazia o mesmo em todo o país.
O debate foi muito desigual, pois de um lado havia um homem de grande erudição e compreensão e, de outro, alguém de formação muito humilde, que não teve a oportunidade de estudar, de conhecer o método científico e que, mesmo assim, pensava ser dono da verdade. Josias terminou com um forte apelo:
– Queridos cristãos, criem seus filhos com amor e carinho, não os deixem cair nas garras do mundo, pois o mundo é cruel e tem isso aí a oferecer: sodomia, incredulidade, imoralidade... quem realmente sabe criar filhos impede que eles se tornem homossexuais, pois homossexualismo é castigo divino para pais irresponsáveis, que bebem, que vivem na libertinagem.
Ao chegar em casa, tirou seu terno caríssimo (cujo preço era quase equivalente ao investimento do dr. Mazzili em seu projeto humanitário) e ouviu a voz de seu filho, Estêvão.
– Pai, quero falar com o senhor.
– Pode dizer, meu filho.
– É... bem... eu... eu gosto de homem, pai.
– O quê?
– É, sou homossexual.
– Tá de brincadeira com minha cara?
– Não, pai. Eu achei que o senhor fosse fingir pros outros que ficou bravo, mas que fosse entender...
– Fingir por quê? E por que eu entenderia uma bizarrice dessas?
– Porque eu me lembro de ter visto o senhor beijar o presbítero na boca, num dia em que os dois estavam bêbados. Lembra, pai?

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