A exposição do corpo humano nunca fora tão interessante. Entrávamos nele, literalmente; um corpo gigantesco repleto de músculos, vísceras, coração, tecidos, caminhos e labirintos de tubos e partículas minúsculas e intermináveis. Tão pequenas que, para enxergá-las, utilizávamos uma lupa em forma de olho. Lindo!
Era o ano de 1910 e não sabia o que era a biologia em si. Ora, a gente sentia na pele e pronto! Só uns anos à frente, percebi que aquilo que fazia parte de mim, aos montes, não é o que se usa agora, em 2009. Dá para entender? Não, - eu sabia – mas, de qualquer forma, por qualquer eventualidade, terei de explicar. Dizia meu professor que a estrutura celular é composta por carioteca, núcleo, citoplasma e outras gosmas que não convêm comentar. Anos depois, alguém na rua gritou – e, acredite, aquilo soou, literalmente, como a trilha sonora da minha vida – nervosamente: “Deixe-me atender meu celular!” O quê? De repente, a imagem daquela exposição me veio à cabeça. Estava aquele alguém no meu livro de Biologia, ou no meu corpo? Desconhecia a resposta, mas até onde sei, célula não toca, não manda mensagem e, muito menos, liga a cobrar.
Na semana passada, comprei uma célula prateada para mim. Papeava tanto, que me cessavam as forças. Ainda não tentei conexão com o fígado. O pâncreas já foi e o coração será o último. Nos neurônios é que não chegou, ainda pela falta de antena. Meu Deus, até ouço música! De início, pensei que fossem as batidas do coração, mas aí ouvi a letra.
De célula a celular faltava pouco, mas para mim era muito. Até eu integrar a ideia de que um não era outro, já se passara muito tempo. Foi o tijolão, agora um fininho e fiquei, então, mais íntima deles. Eis que aconteceu um fenômeno inesperado: acabou a bateria. Até me dar conta de que minha célula não tinha parado de fagocitar - um órgão vital perdido suas funções e eu não tinha morrido - meu celular foi desativado por falta de uso.