S.Paulo Terranova

Depois de morar em várias cidades do país acabei parando em Poços de Caldas, sul de Minas Gerais, limite com o estado de São Paulo, após dez de residência no Paraná, trocando o “BAH! CHE” pelo "UAI SÔ!”
Essa linda cidade com seu clima especial e suas águas termais, que as conheço há mais de trinta anos, fazem essa cidade mineira ser uma das mais procuradas por turistas de diversas estados brasileiros. Nos fins de semana, férias, assim como em épocas de festejos aumenta o número de e turistas e visitantes, comércio ficam agitado e o trânsito de veículos cresce consideravelmente.
Nas semanas que antecederam o natal do ano passado, após as eleições, o povo foi às compras pra valer, demonstrando que o crescimento econômico foi real, assim como aconteceu no resto do país.
Aí começa a minha desventura, resolvi sair de casa, ir a o centro, passar no banco e sacar um pouco de dinheiro, apesar dos cartões algumas compras são mais interessantes em grana ao vivo e a cores. Afinal das contas natal e fim de ano sempre se gasta um pouquinho mais, festas são festas.
Como toda cidades brasileira, aqui também desejam disciplinar o trânsito, nossa Poços possui estacionamento rotativo no centro, regulamentado pela Zona Azul, que também é verde, azul, laranja e obriga os motoristas a colocarem em seus veículos um cartão quando estaciona. Eu como bom paulistano, dez anos de Paraná, outros estados do Brasil afora, além do “UAI SO!” já estou precavido como bom mineiro e ando com os talões da Zona Colorida no carro para levar multa.
Não resido distante do centro, mas resolvi ir com meu modesto carrinho ao centro da cidade, entretanto não foi muito fácil e me senti num congestionamento de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e outras capitais. Comecei a pensar que teria de ter uma sorte megasenica para encontrar uma vaga, aí veio o pensamento, sou brasileiro, não desisto nunca.
Passei em branco na primeira tentativa em uma volta por algumas ruas do centro até que virei à direita e vi uma vaga perto de uma lanchonete tradicional, dei uma acelerada e cheguei em primeiro, dei seta, preparando para estacionar quando surgiu um sujeito parecendo uma guarda-roupa, do tamanho do Maguila, educadamente se dirigiu a minha pessoa com uma voz de tenor perguntando se havia intenção de estacionar naquela vaga. Obteve uma resposta positivam já sem muita convicção e eu tive de ouvir que a vaga estava reservada par um caminhão de bebidas e a vaga guardada por ele, encerrando a conversa elevou sua e disse,
-“TEM ALGUM PROBLEMA?” –.
Posso não ser dotado de uma inteligência privilegiada, mas burro tenho certeza que não sou, muito menos saco de pancadas. Afinal de contas essa era apenas a primeira vaga, tinha certeza que outras surgiriam. Era só ter um pouco de paciência e de sorte, o que não demorou muito, pois próximo a uma das inúmeras agências bancarias havia vaga. Estacionei, preenchi o cartão e quando abri a porta do meu carrinho se aproximaram dois soldados da Polícia Militar e polidamente solicitaram que retirasse o veículo do local, não estava liberado o local, perguntei o motivo e a informação foi de que a área tinha sido ampliada para estacionamento de carros fortes por causa do movimento e seu deixasse lá teria meu automóvel multado e guinchado, mostrando um guincho bem próximo. Com esse argumento forte só me restou ligar meu carrinho e sair bem de mansinho, afinal das contas a cidade de Poços cresceu e mais vagas foram disponibilizadas.
Quando já desanimava numa rua avistei aquela vaga tão esperada, rua sem movimento, tranqüilo, coloquei emparelhado ao carro da frente dei seta engatei a ré e quando olho pelo retrovisor entra um veículo zero bala, surgido não sei de onde, numa embicada e pronto, tomaram meu lugar.
Como dizia a propaganda era a gota que faltava, desci do carro fulo da vida, esbravejando e fui direto as moças no seu automóvel todo reluzente, o meu é um carrinho, a que estava no volante, na maior cara de pau, virou pra mim e perguntou:
- “Você ia estacionar aqui?”
Resposta como míssil:
-“Não! Ia estacionar em Piri Piri no Piauí!
Usar uma expressão mineira, “Ocês num sabi qui conteceu”, tive de ouvir que era preconceituoso, racista,que o povo do Piauí faz parte do engrandecimento de nossa nação, até que consegui acalmar dizendo que tinha sido apenas uma força de expressão, pois estava sem paciência, depois de tanto tempo consegui uma vaga e acabei perdendo, mas que me desculpassem pois tenho grande apreço pelo Piauí.
A que estava no volante era mais calma, resolveu me confortar dizendo que iriam demorar pouco, muito pouco mesmo, só iriam ao salão de beleza, tirar o esmalte da unha e passar um novo, voltando logo, logo. Pensei e filosofei comigo, calado, “mulher que entra em salão de beleza e sai logo ainda está pra nascer”.
O negócio era voltar para casa deixar o carro na garagem, de onde não devia ter saído,pegar um busão e voltar ao centro. Após três tentativas de busão que não pararam por não terem vagas consegui adentrar num que me levou ao Termina Urbano, no centro da cidade. Desci e fui direto ao banco, adentrei a agência e para minha surpresa estava uma fila enorme com apenas uma caixa eletrônica funcionando, parecendo dia de pagamento do funcionalismo público local, junto com o dos aposentados. Resolvi encarar de marra e fique na fila até que outro caixa foi liberado, mas a fila estava grandinha. Aí veio um estalo na minha cabeça, vou sugerir aos bancos que coloquem umas mesinhas, com cadeiras, guarda sol, um barbanco ou bancobar, enquanto os clientes esperam vão degustando uns aperitivos, tomando cerveja, refrigerante, tudo para débito em conta, um serviço a mais, conforto aos clientes e o mais importante, aumentar os lucros dos acionistas.
Depois de uma hora na fila cheguei a uma das caixas que estavam funcionando, aí coloquei o cartão, digitei senha, vi o código na tela, coloque novamente o cartão para sacar dinheiro e aí surge na tela do caixa eletrônica:
TEMPORARIAMENTE FORA DO AR
Eu pensei que fosse brincadeira, mas sai uma voz de trás dizendo: ”MEU SENHOR, SÓ CINCO MINUTOS, TUDO ESTARÁ OK”. Será? Não havia alternativa a não ser aguardar, segundo as explicações demais cinco,cinco e cinco e máquina foi abastecida com notas do Real e aí liberou.
Estava liberado para sacar, estava! Não é que o sistema caiu e vem um rapaz esclarecer que iriam partir para um sistema de micro ondas, ai me preocupei, será que estão precisando esquentar dinheiro, mas não era isso, sim uma alternativa doe satélite e logo estaria resolvido. Após mais de vinte e cinco minutos de espera, já desconfiado como bom mineiro, desisti e fui às compras com cartão, tinha um pouco de dinheiro no bolso e comecei entrar em tudo que era loja, e uma delas era loja de lingerie feminina e a vendedora ficou me olhando de maneira esquisita, aí tive de dizer que estava vendo para dar um presentinho a minha filha, mas pensando bem ia ligar a ela e pedir pra vir escolher. Em verdade tinha vontade de dizer que bicha era o pai dela, preferi evitar porque numa dessas coincidências da vida o homem poderia ser e aí outra esculhambação em cima de mim.
Depois dessa, resolvi tomar um chopinho com uns salgadinhos, não deixando de passar em frente ao banco e a fila estava maior que quando encarei. Isso foi a gota d’água, resolvi ir para o barzinho, mas quando fui entrando o garçom me avisou:
“Olá Mestre! Não temos mesa vaga, na lista há sete pessoas na gente, dá uma voltinha que rapidinho desocupa umas mesas, deixo aquela especial reservada para o senhor, amigo é pra essas coisas...”.
Valeu, mas positivamente, conclui que Poço de Caldas está crescendo tanto que desse jeito, daqui a pouco não haverá “VAGAS” nem para “DIVAGAR”...

OBS.: Esse texto consta do livro CONTOS DE FATOS publicado em 1996 de minha autoria e foi atualizado