(Rocket Man) Uma odisséia no quotidiano

Aqui de dentro não temos a noção de tempo, a paisagem monocromática não nos permite saber se é dia ou noite. Se não fosse pelo relógio no display eu não saberia quando ir embora. Talvez o cansaço fosse um outro modo de saber que é hora de partir, mesmo que mais tarde do que o próprio corpo suporta.

Huston, estou indo para casa. As roupas grossas dificultam os movimentos que se tornam robotizados, as luvas protegem do frio sideral mas impendem sensação do tato; opero meus instrumentos através de uma caneta no touch screen do meu dispositivo portátil.

Antes de sair olho mais uma vez a hora, na ilusão de que controlo de fato o tempo. Os passos são atentos sobre a superfície quase lunar que reflete a luz opaca do céu cinza sobre a cidade. Debaixo do gelo escondem-se mil armadilhas.

À espera do trem somos todos astronautas com nossas roupas sintéticas que nos estufam como um boneco de posto de gasolina, o frio nos curva e nos pressiona ainda mais em nós mesmos, como se estivéssemos debaixo um peso insuportável. O trem chega quase pontual qual uma cápsula de resgate.

Dentro do vagão o silêncio é apenas interrompido pela voz no alto-falante, mas nenhum de nós lhes dá a devida atenção. Aqui dentro estamos tão sós quanto no espaço, nossos olhares não se cruzam e cada um de nós traz nos olhos um brilho distante como o de uma estrela que morreu há milhares de anos-luz daqui.

Agora somos apenas corpos celestes sem vida, cada um a caminho do seu próprio destino. Nossa viagem é curta. Blim blom, próxima parada... Não há mais tempo para pensar no por que fazer todo dia a mesma coisa já sabendo qual será o fim de tudo... Ao menos eu não estou sozinho no caminho de casa. Elton veio comigo, pois lá em casa não sou o que eles pensam. I am a rocket man.

Enviado por Ullisses Salles em 07/02/2012
Reeditado em 07/02/2012
Código do texto: T3485592