Tirando as roupas da máquina enquanto observava a noite tomando o lugar da tarde, um questionamento me ocorreu. Pensei o porquê de as pessoas atribuírem os sentimentos e as emoções ao coração e não ao cérebro. Cogitei o romantismo literário, a arte como um todo, sendo a real propulsora desta premissa, digamos, incoerente. Dei uma olhada no Deus Google e ele me disse que na Biblioteca de Alexandria (III a.C.), destruída por um incêndio na Idade Média, continham estudos acerca do tema. Herófilo (345 a.C.), por exemplo, considerado o primeiro anatomista da história, já defendia a tese de que o cérebro é o centro do sistema nervoso e da inteligência. Ele dissecou e descreveu sete pares de nervos cranianos. Também distinguiu nervos de vasos sanguíneos e os nervos motores dos sensitivos. De quebra, batizou vários órgãos do nosso corpo, como o duodeno (intestino delgado que ele disse medir doze dedos). Hoje, a comunidade científica dispõe de grande acervo de provas de que o cérebro é quem pensa, e não o coração. Mas indo contra a maré, podemos citar Aristóteles, outro filósofo das antigas cuja data de sua existência é incerta (muito provavelmente contemporâneo de Herófilo - século III a.C.), defendia o inverso; ao que parece, o principal discípulo de Platão e de Sócrates acreditava piamente que as emoções transitavam pelas coronárias. Ele deslocou os pensamentos, as percepções e sentimentos para o coração e atribuiu ao cérebro a função de manutenção da temperatura corporal. Ou seja, ele viajava. Desconsiderando o hiato, também podemos lembrar de Shakespeare, outro defensor da ideia de que o coração não serve apenas para bombar o sangue e abrigar colesterol, dada a morte trágica de Julieta, que primou pelo coração no momento em que decidiu apunhalá-lo. Os exemplos também são espessos, desde todo o conteúdo da produção dramatúrgica a qualquer versinho apaixonado no canto de um caderno. O coração ainda hoje é o queridinho dos poetas, dos artistas, dos bêbados. O legal é saber que este órgão, este músculo com o tamanho aproximado de um punho fechado de um adulto, é absolutamente interligado com o nosso cérebro, em todas as instâncias, constituindo o ser. Mas o papel do coração ao enviar sangue rico em oxigênio a cada célula de nosso corpo parece não ser o bastante para nós. A gente realmente gosta dele. É o nosso órgão inspirador, que se viu obrigado, ao passar dos anos, a ser responsabilizado pelos prazeres e infortúnios da vida.