A sabedoria não escolhe a cor da pele, nem pobreza nem riqueza e nem a região onde alguém nasceu para iluminar seu cérebro e torná-lo sábio. Ela não é idiota como o são todos os preconceituosos. De mansinho como lhe convém, desponta quase de súbito e se mostra nas palavras daqueles cuja simplicidade aflora na maneira de falar. Porque ser sábio é perceber quão frágil e insignificante é o viver humano, quão pobre de espírito é o que, imaginando saber algo e por isso se tornando petulante, não passa de um reles ignorante.

Conhecer para aprender, pesquisar para compreender, ler para saber são pilares da inteligência, um sábio não se forma nunca, está sempre e diariamente alcançando novos saberes, é um eterno aprendiz e consciencioso estudante dedicado à curiosidade a respeito do conhecimento. Da mesma forma que um diamante, cuja composição é por demais comum, vai sendo aprimorado ao longo dos anos até que, mesmo que ele mesmo jamais reconheça isso, se torne a pedra mais preciosa de todos os minerais. O sábio é assim mesmo, tem atitudes eivadas de humildade, repudia o egocentrismo, esconde-se dos holofotes e cultiva por onde passa as pérolas de sua sapiência.

É quase impossível reconhecer um sábio, a menos que o ouça falando ou agindo no seu cotidiano. Em meio ao povo ele se mistura e aprende, observa o vai e vem, o ruge-ruge, o suspirar e o sorriso dos circunstantes, entra nas livrarias e sorri apaixonado pelo ambiente onde a cultura impera, compra livros, visita as bibliotecas e se deleita em descobrir e imaginar, sonhar, viajar através do universo silencioso e quieto do aprendizado ali tão propício, tão amplo, tão conveniente. E quanto mais o sábio conhece, aprende e lê ainda mais percebe que realmente não sabe nada, não sabe tanto, precisa de muito mais sabedoria pois tudo é deveras dinâmico e as informações se mostram como correntezas de rios transbordantes seguindo apressadas rumo aos oceanos. Cabe a ele aproveitar a passagem dessas correntezas e dar o máximo de si para lograr absorver o que lhe for possível desse manancial.

Quer tornar-se um sábio? Então provavelmente você não é um deles, porque o sábio já vem à luz do mundo predisposto a essa condição assim como o ouro encontrado nas montanhas e nos rios, brota tal qual acontece com as flores repentinamente surgidas no asfalto quente, nasce à guisa de orquídea onde somente tulipas são semeadas, surpreende, provoca surpresa, deixa todos atônitos. O sábio não procura nem almeja ser um, já que isso realmente não tem querer, ele simplesmente já é e está em franco desenvolvimento com o passar dos anos, mas em hipótese nenhuma se reconhecerá como sábio, nunca se declarará como detentor desse título arrogante na voz de quem se autoproclama, porém aveludado e sutil no comportamento dos que se revelam por meio de seus gestos.

O sábio assobia e chupa cana ao mesmo tempo, ele sim guarda o segredo há milhões de anos perseguido de dar nó em pingo d'água, ordenha as pedras de onde flui leite, cutuca a onça até sem vara, coloca o guizo no gato, arruma as estrelas no céu deixando-as simétricas, desenha a trilha do infinito, mensura o incomensurável, acende o sol ao amanhecer apagando-o no crepúsculo para, em seguida, clicar no botão da lua para iluminar o firmamento com a beleza dum lindo luar. Tudo isso com uma mão só, a outra amarrada às costas, um olho fechado e o outro semicerrado.