Água. Sabão. Esfrega. Enxágua. Pega outro prato. Repete.
Amor.
— Dá pra viver de amor, mãe? — perguntei enquanto ela revirava com uma colher a mistura marrom homogênea.
Esfrega. Enxágua.
Ela cantarolava uma canção desconhecida.
— Dá pra viver de amor, mãe? — retomo a pergunta.
— Só se o “amor” te encher a barriga todo dia e pagar suas contas no final do mês.
— Isso não é viver. Isso é existir.
— Dá.
Esperei que continuasse, mas a mistura na panela pareceu trilhões de vezes mais interessante do que aquilo. Disfarcei a vergonha me concentrando na louça.
— Mas eu não sei como é — disse subitamente. Houve alguém por um tempo, que ficou comigo e me mostrou o que era amor. Só que além de mostrar, me fez sentir, ver, ouvir. Mas viver? Nem de longe, porque não era amor. Senão não tinha partido, tanto o meu coração como para outro caminho.
Risquei o chão com os pés, matutando a pergunta que não queria calar na minha cabeça. Disparo:
— E você, por acaso, acha que eu tenho alguma chance? Você sabe... De viver de amor.
Fecho a torneira e fico esperando a água coagulada descer pelo ralo, já me arrependendo de ter perguntado tal coisa idiota. Lorena acaba de ganhar o prêmio de maior babaca da Terra por pensar que aos 16 pode viver de amor, enquanto sua mãe admite, aos 40, que nunca viveu.
— Desculpe mãe. Que pergunta mais...
— Sensata. Sim. Vejo você como uma eterna amante. Da vida, do amor, dele. A única coisa que está no seu caminho é você e esse seu pessimismo que te impede de crer.