Lá fora o sol está brilhando mas para as suas mãos, mergulhadas nas vísceras dos peixes, ainda é inverno. Estica o peixe sobre o mármore, abre a barriga, arranca as tripas, corta a cabeça, abre a coluna, delicadamente extrai a carne das finas espinhas, num tique bate com a faca na pedra e raspa a pele de onde extrai uma carne branca e úmida. Mais um peixe.
O movimento em volta não pertuba, o mundo é o peixe, suas mão são sugadas pelo trabalho, sua mente se esvazia num momento zen.
Estaria a eternidade aprisionada na rotina dos gestos impensados?
Chega a lula, sua atenção se volta momentaneamente à freguesia, seus olhos buscam contato com o mundo lá fora e recomeça a sua meditação: corta os tentáculos, joga na pedra, puxa os olhos com as vísceras, chão, mete o dedo no corpo do bicho e lava os restos de órgãos internos, entra água, sai a areia, corta os anéis com a precisão de um samurai.
Seu João não sabe mas suas mãos ensinam a sabedoria dos mestres.