Vamos ficar nus?

30 de Março de 2012 Ullisses Salles Crônicas 1019

Faz vinte anos que cheguei na Suíça, desde o início me deparei com as gritantes diferenças entre a sociedade brasileira e a complexa sociedade helvética, que apesar de viver em um território menor que a ilha de Marajó, fala 4 idiomas e diversos dialetos, fazendo do país uma verdadeira Babilônia. Desde então, cada dia aprendo algo novo e não me canso de me maravilhar com o alto grau de senso cível e respeito outrem que ainda reina na aqui na Suíça.

No entanto, como nada é perfeito, nem todas as minhas descobertas sobre a sociedade local eram vistas com bons olhos, pois até aquele momento eu havia sido criado em uma sociedade ainda muito atrasada e cheia de preconceitos como a brasileira, mas viria a descobrir isso apenas anos depois. Entre as novas descobertas o que mais me chocou foi o modo com o qual os locais lidavam com a nudez. Lembro-me como se fosse hoje.

Eu tinha 15 anos e estava em uma piscina pública, (algo parecido com nosso clube aí no Brasil), quando duas garotas de cerca 20 anos chegaram e se alojaram a poucos metros de distância, estenderam suas toalhas, retiraram seus apetrechos das bolsas e... Tiraram completamente a roupa e vestiram seus biquínis como se estivessem em seus quartos. Fiquei paralisado, com a bochecha queimando de vergonha.

Minha mente que até aquele momento havia sido moldada para tratar a nudez como pecado, como crime, como algo proibido, como pornografia, tomou um tratamento de choque. Nudez completa em um lugar público, e para minha surpresa nenhum “pai de família” reclamou, nenhum PM veio prender as garotas, nenhuma esposa pediu para que as moças fossem expulsas do local.

Mais adiante aprendi que aquele gesto era visto com total naturalidade, que homens e mulheres de todas as idades trocavam suas roupas e vestiam seus trajes de banho onde quer que estivessem sem que isso fosse visto como pornografia, depravação ou atentado ao pudor. Para minha surpresa, quando comentei com meus colegas que aquilo era impensável no Brasil, todos ficaram estarrecidos, pois tinham para eles que nas terras brasilis a nudez fosse tratada com mais naturalidade, visto o clima quente e os já famosos micro biquínis brasileiros (naquela altura ainda não muito usados na Europa).

Foi a partir daquele momento que eu notei o quanto éramos atrasados e o quanto passávamos também uma imagem errônea da nossa sociedade ao mundo. Fruto do carnaval e suas mulheres nuas nas avenidas, (mas esse é outro tema). Mais adiante tive a oportunidade de freqüentar clubes de nudismo, saunas e vestiários mistos, onde homens e mulheres tiram, trocam ou simplesmente não usam roupas sem que tudo isso seja levado para a pornografia ou assédio sexual.

Curiosamente não demoraria muito e surgiria o Tchan e suas “tchecas”, “abundância” e outras alusões ao corpo feminino. A partir do irritante sucesso obtido pela banda, muitas outras surgiram cantando sempre o mesmo tema; nudez extremamente maliciosa e erotizada. O que se viu desde então foram músicas com calão cada vez mais baixo e gosto cada vez mais duvidoso até culminar com o pornofunk que alguns chamam de “proibidão” onde fala-se abertamente de p***, c*, bu****, sexo anal, grupal, oral, orgias, e incitação ao sexo com menores de 18 anos.

Apesar de toda essa libertinagem na música a nudez continua a ser tratada como algo não natural. Não é raro ver notícias sobre turistas e brasileiras autuadas por praticarem topless nas praias do país, como se um par de seios fosse ofender ou erotizar as crianças, que se fossem criadas corretamente não teriam maldade diante da nudez e nem tampouco se chocariam com um simples topless. No entanto como crescem rebolando pornofunk e pornoaxé diante do olhar complascente dos pais e da sociedade que acha aquilo completamente natural, nossas crianças estão crescendo com a mente completamene erotizada e uma relação pouco natural com a nudez.

Esses mesmos seios que causam furor nas praias, são fotografados, filmados e transmitidos para mundo inteiro durante o carnaval onde balançam ao som dos tambores nas escolas-de-samba, em que as moças saem completamente nuas com injeção de dinheiro público em nome da “cultura”. No entanto o estrago que isso faz à imagem do país é muito mais destruidor do que o topless das praias e clubes europeus.

Faz poucos dias que tivemos em São Paulo a pedalada pelada, parte de um movimento mundial em que vários ciclistas saem nus pelas cidades do mundo com a finalidade de chamar a atenção dos motoristas para os ciclistas e diminuir o número de acidentes entre ambos. A nudez ainda choca, e ainda pode ser usada como ferramenta de protesto. Talvez, a aceitação e participação em eventos como esse, possam ser o primeiro de muitos passos a serem dados até que nossa sociedade se distancie da imagem distorcida que temos da nudez.

Queria estar em São Paulo para sair completamente nu sem ser por um motivo fútil como o carnaval, mas sim como forma de protesto de algo muito mais importante e muito mais nobre como o respeito mútuo no trânsito. A educação dos motoristas e ciclistas, que se aprenderem a respeitar leis, estarão salvando vidas.

Vamos nos despir, não apenas das roupas que cobrem nossos corpos, mas também da ignorância, do preconceito que reinam no Brasil. E então, vamos ficar nus?

Enviado por Ullisses Salles em 29/03/2012
Código do texto: T3582157

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