I N F Â N C I A DE C R I S T A L

21 de Junho de 2011 SUPERTOR4 Crônicas 96

jTorquato

Eu tinha de dar um jeito naquilo.
Meu pai ainda gritava pela casa, andando sem parar da sala para cozinha, minha mãe com a cabeça entre os braços cruzados em cima da mesa da sala de jantar, chorava ruidosamente.
- Não temos como Mara, temos de desocupar a casa imediatamente, são 08 meses de atraso e agora ela entrou na justiça e a justiça mandou este papel, 48 horas, 48 horas repetiu, ir para onde?
- E o Zé da Conceição não disse que te arruma...va em emprego de vigia na construtora?
- Disse, mas não tem emprego nenhum, ele disse quando estava bêbado, eu acreditei porque quis.
- Você com essa mania de querer ser dono de seu próprio negócio, só deu nisso – repetia minha mãe a ladainha que eu já estava acostumado – Agora sem a banca de revista, sem dinheiro, expulsos de casa, sem comida, com três filhos pequenos, Meus Deus, vou me matar.
- Tinha tudo para dar certo, se a chuva não tivesse molhado tudo, estava dando muito bem, já estava me firmando ante a freguesia.
- Eu te avisei sobre aquele Arlindo, disse que ele não fazia nada que prestasse, olha que banca construiu para nós, cheia de defeitos. Agora todo dinheiro virou água e papel molhado. Nada dá certo, NADA – gritou minha mãe – Vídeo Game, lanchonete, carrinho de sanduíches, em tudo sempre há um motivo para não dar certo, o motivo é SUA IRREESPONSABILIDADE, você não conseguiu emprego e agora tá velho demais para conseguir um, acima dos quarenta “tamos” perdidos.
Eu tinha pena do meu Pai, tão esforçado, tão inteligente, um verdadeiro herói, nunca se abatia, queria ser o dono, eu sabia que ele já tinha sido em empregado muito bom e em altas funções, mas sempre pedia demissão para usar o dinheiro da poupança para abrir um negócio “sensacional”. E assim foi passando o tempo, o último negócio, o Vídeo Game não deu certo, fomos assaltados em casa e levaram os aparelhos de vídeo games, ficaram as TV que os assaltantes não puderam levar, com elas sem se abater, logo tratou de fazer outro negócio, trabalhou como vendedor de Porteiro Eletrônico e artigos de segurança eletrônicas, juntando o dinheiro com a vendas das TV 29’, fixou a idéia de uma banca de revistas. Quando estas foram por água a baixo literalmente, não conseguiu mais nenhum emprego, não tinha mais idade. Passou a vender Bilhetes do Alagoas da Sorte, Loterias etc. mas Tb não dava para comprar alimentos, roupas, calçados, material de limpeza e escolar, pagar aluguel, água, energia etc.
Eu tinha de fazer algo, eles não me deixariam trabalhar para ajudar e eu tinha consciência que seja qual fosse meu trabalho, a grana não ia dar mesmo para ajudar. Eu tinha 14 anos, alguma coisa tinha de fazer.
Eu me propus a pensar em algo, virou fixação, à noite fui dormir tão agoniado que me acordei enrolado no mosquiteiro, abri os olhos na escuridão e fiquei pensando o que eu podia fazer pela minha família.
De repente alguém sentou na beira de minha cama e falou:
- Seu pai é um empreendedor, pode não ter capacitação, mas o instinto dele é de empreender, e ele não pode ficar parado, pois isso o consome.
Eu ia falar alguma coisa, não reconheci aquela voz, não era minha mãe, mas calei.
- Quando alguém se preocupa em resolver problemas, seja da família, seja da comunidade, seja de sua pátria, também é uma espécie de empreendedor, a este estão destinados cargos mais árduos e às vezes não compensatórios materialmente, mas imensamente satisfatório para seu coração.
Então vi que Papai estava procurando algo que um dia iria achar, ele era uma espécie de criador, a seu tempo iria achar sua vocação no empreendorismo a que se propôs ao nascer, Eu o Vi e em volta dele uma áurea de felicidade, lá tava imensa loja de artigos de informática e papelaria, ele me mostrava a outra parte da loja era de criação, lá havia serigrafia e muitos desenhos, cartazes e muita coisa pronta, vários computadores eram operados por diversas pessoas jovens fardadas, em seguida me mostrou a Assistência Técnica, em todos os lugares sempre havia muita criatividade e muita gente. Papai parecia mais novo, minha mãe feliz acenava do caixa para meu Pai que incrivelmente me perguntava como iam as coisas na minha luta pela Saúde e pela Educação no País, se eu conseguira a construção de 5 mil escolas especialmente projetadas para o ensino normal e técnico do infantil ao superior e em turnos integral, Eu disse já sim senhor meu Herói, a verba já foi destinada, as construções já começaram e os concursos também.
Me acordei com o barulho de arrumação e choro, era uma caminhoneta velha que Seu Arlindo arrumou, nós estávamos indo para um barraco na Grota de Santa Helena com aluguel de 100 reais/mês, ah a caminhoneta foi um gesto humano do Sr. Arlindo em troca é claro da maioria dos móveis e alguns eletro eletrônicos que não iriam caber mesmo no barraco.
Olhei meu pai e notei surpreendidos alguns fios de cabelos brancos nas têmporas, e o pior de tudo, vi o brilho se apagarem de seus olhos. Aquele brilho eterno ficou na casa que estávamos abandonando.
Pela Rua fomos nós que não cabíamos na caminhoneta, meu pai encurvado pela Idade da decepção, minha mãe com uma trouxa de panelas, arrastando as chinelas, e eu desta vez com a certeza que de real só havia meu choro.


Torquato
Publicado no Recanto das Letras em 08/03/2011
Código do texto: T2835807

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