PESADELO É ACORDAR

21 de Junho de 2011 SUPERTOR4 Crônicas 867

J.TORQUATO – MACEIÓ
03/11/2010
Estava acordada, estava?
Não, “tava” dormindo querendo acordar, algo me tentava pegar, eu bem que tentava escapar, mas umas mãos frias nos meus ombros me puxava, eu virava e tentava morder, sabia que “tava” dormindo e queria acordar.
Bem consegui e ainda sentia um peso nos meus ombros, estava sozinha, uma esteira aparecia entre os lençóis amassados e fedorentos, úmido. O chão estava molhado, havia o que mãe diria: água do chão de terra logo abaixo, Minando.
Minha dor de cabeça era da fome que eu sentia, não sei quantos dias não comia, hoje de manhã comi papel com água.
Olhei pela sala para ver se tinha algo para comer, havia umas trouxas de roupas sujas, num canto meia dúzia de garrafas de aguardente vazias, cascos para vender e comprar mais cachaça, noutro canto “bitoca” de cigarros e um cigarro estranho que mãe chama de “tapa”, mais adiante outra trouxa que não era de roupas, quase me esqueci meu irmão Tonho, era um bebê, devia estar morrendo de fome e chorando, mas tava muito quieto.
Fazia uns dois ou três dias que mãe não voltava, saiu com um monte de rapazes e a vizinha, uma maluca que bebia muito também, beberam aquela cachaça toda ali do canto e saíram com um “Som” para vender na “feira do Passarinho” Não sei como apareceu aquele Som, que parecia mais um rádio grande, não sei se com um dos rapazes que não sei o nome ou se com a maluca cachaceira, mas estavam muito alegres por ter algo de valor para vender e tomar mais cachaça e fumar mais “tapas”, só não prestaram atenção que nós, eu e meu irmão Tonho estava “esticados” de fome, eu ainda comi papel e tomei água, e Tonho?
Fui até o Tonho e desembrulhei os panos, ele estava me olhando fixamente, sem fazer nenhum movimento, nem com os olhos, não chorava só me olhava. A Cor... a cor do seu rosto era diferente, pequei nele e estava frio, muuito frio, Meus Deus será que ele morreu?
Saí correndo até o porta para chamar os vizinhos, a porta estava trancada, me desesperei e gritando cai no choro, mas não tinha forças para chorar, e nem mesmo chequei a gritar, bati na porta de madeira, bati sem forças, nem sei se fazia som, mas bati tanto que dormi de novo.
Passou mais uma noite, eu tremia de medo e de terror, tomei mais água da torneira que ficava na cozinha, lavei um copo de plástico e tentei molhar o rosto e a boca de Tonho, mas ele continuava me olhando sem se mover, ouvia um som de televisão ligada muito longe, eu ainda gritei socorro muitas vezes, onde tava todo mundo?
De manhã acordei enroscada perto da porta, recomecei a bater, já não tinha mais lágrimas, me lembrei do calço do fogão, fui até lá, arranjei forças para empurrar o fogão velho que já estava caindo mesmo, ele caiu com um estrondo, a mangueira do gás estourou, mas não havia mais gás, eu pequei o calço que era um toco de madeira grossa e fui até a porta e recomecei a bater.
De repente alguém perguntou o quem era, eu Falei é Rosinha, meu irmão ta morto e minha mãe não está em casa.
Passou-se mais de meia hora pela minha angustiada contagem, e ouvi muitas vozes, mandaram eu me afastar da porta, e de repente a derrubaram.
Não sei onde encontraram mãe, sei que ela estava suja e arrepiada, com os olhos parados e estava com as mãos amarradas por uma pulseira de metal, junto dela mais três pessoas também sujas e amarradas do mesmo jeito. Pessoas com palavras para bebê novinho se dirigiam a mim, e depois me levaram para uma casa grande onde havia muitos meninos, todos com cara de mau, e disseram que era ali que eu ia ficar. E Meu irmão?
Já providenciamos tudo, fique tranqüila que aqui cuidarão de você
Olhei para os adultos com ares de Tios rigorosos, para os meninos com a cara de mau, bem pelo menos ali deveria ter comida.


Torquato
Publicado no Recanto das Letras em 03/11/2010
Código do texto: T2595092

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