Magnétika- cap. VIII

21 de Dezembro de 2017 latiumbr Crônicas 133

Cap. VIII
Além de animais, recolhia pessoas; sim , não era capaz de passar por indivíduos caídos na rua sem ajudar, animá-los, trazê-los para tomar um prato de sopa ou levá-lo in loco. Eu, que sempre recebia de casa essas recomendações: “cuidado com essa gente, é perigosa; são vagabundos que não querem procurar emprego; se procurar, acha...”, fiquei estupefato com tamanha humanidade.

Havia um mendigo, muito mal-humorado; xingava-a com frequência, entornava a sopa...Ela só dizia:

-Zé, se fizer isso de novo, não venho mais...”

Um dia, com lágrimas nos olhos, ele contou sua história: tinha sido abandonado pelos pais; a mãe, nunca conhecera; só recebera pontapés , e revidava da mesma forma. Ela tinha sido a única pessoa a trata-lo com respeito...
Histórias assim, conhecia muitas; o próprio Ivan às vezes a maltratava; não voltava por dias; via-se a preocupação em seu rosto, embora não procurasse demonstrar.
Um dia, vi na casa um jóia: uma bicilcleta magnífica que Seu Josivaldo tinha montado com pelas de sucata; era um modelo antigo, dos anos 50, reformada com zelo e primor por ele, que percebeu minha admiriação.

- Volte com ela pra casa; depois me devolve...”

Fiquei espantado:
- Não tem medo que a estrague nessas ruas esburacadas?
-Não tem importância; monto outra, se preciso. Você está pensando como os banqueiros...

Voltei para casa com aquela jóia; todos na rua me olhavam; alguns amigos me paravam e me perguntavam onde tinha comprado, pois iriam pedir uma igual para os pais. Senti-me parte do mundo de novo, pois sempre me tacharam de “estranho” por ser ensimesmado.

Cheguei a casa; meu pai me viu, pois estava na garagem, onde deixei a bicicleta.
-Que bicicleta bonita! De quem é?- disse com seu ar sério e elegante.
-De meus amigos...
- Lá de baixo?
-Sim , eles mesmos!

À mesa, comentou com minha mãe, com um ar de reprimenda:
-Ele vem se misturando com aquela gente?
-Ainda! Não sei o que vou fazer...
-Mande eles virem falar comigo!...

Comentei, muito sem graça, na semana seguinte, com Dona Zulmira, que falou com Seu Josivaldo. Ele consentiu em vir falar com meu pai.

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