Não me pergunte se sou capaz. Não me pergunte se fui capaz. Não me pergunte se lutei, esbravejei ou briguei. Não me venha com questões que não saberei entender, compreender e responder. Não me venha com casos complicados, com o caos e a incerteza. Não me venha com suas dúvidas, seus destemperos e muito menos sua misericórdia.
Caro amigo, a vida não é esse emaranhado que você prega, que você vive, que você faz. Ela é tão simples. É beija-flor que pousa e leva seu mel, é borboleta que baila pelo ar sem precisar de explicações, é passarinho que te acorda cantando, é a primeira brisa leve da manhã, é o primeiro raio de sol que invade sua janela, e nada se explica. Apenas sinta.
Viver para sonhar e sonhar para sobreviver, é uma das coisas carrego comigo desde menina. Ainda que as histórias de príncipes e princesas me deixassem com uma pulga atrás da orelha eu não economizava em meu sentir na hora de imaginar o momento em que eu encontrasse o meu verdadeiro amor. Não fazia mil e uma questões para isso, pois eu tinha a certeza que o amor verdadeiro estaria logo ali, bem depois do arco-íris. Mas aí eu fui crescendo, fui vendo a vida com outros olhos, os príncipes já não eram tão príncipes assim e as princesas... Bem, as princesas não eram tão puritanas assim. Pois assim surgiram mil e uma questões, e a incerteza se fez presente em minha vida. A descrença em histórias de amor foram surgindo, as duvidas, os casos complicados, o caos, os destemperos e até a mesmo a misericórdia. O que mais doeu foi a dúvida se eu seria capaz de conseguir encontrar meu amor verdadeiro. E perceber que eu não poderia atravessar o arco-íris para encontra-lo era terrível. Perdeu-se a cor, o efeito, o jeito, o pretexto... Tudo foi se perdendo a partir do momento em que mil e uma questões se fizeram presente em meu imaginário. Por isso hoje eu digo: Não me pergunte se sou capaz. Não me pergunte se fui capaz. Não quero novamente deixar de acreditar nas cores do arco-íris e voltar a questionar-me se meu amor verdadeiro está mesmo depois dele.
Eu quero viver o hoje e sonhar o amanhã. Com as coisas que estão aqui, ao meu lado, segurando minhas mãos trêmulas e dizendo para mim “Relaxa minha menina”
Eu não precisei atravessar o arco-íris para encontra-lo. Eu não precisei fugir de bruxas e maldições para encontra-lo, eu não joguei minhas tranças do alto de uma torre e muito menos precisei comer uma maçã envenenada ou beijar um sapo. Acho que não lutei, não esbravejei e nem briguei. Ele veio como borboleta que baila pelo ar sem explicação, como beija flor que recolhe seu mel, como o passarinho que canta no primeiro raio de sol da manhã. Veio como a vida. Surpreendente. Disposta a contradizer todo o caos, os gritos de misericórdia, as incertezas, e as questões que não saberia responder. Ele veio. Simplesmente veio. Meu amor verdadeiro... Ele é tão lindo.


• Manhã de domingo de um futuro não tão distante

Imagine eu e você. Não precisaríamos de muito. Apenas boa música, um chá quente no fim das tardes, nossos filhos correndo pela casa, você, eu e o amor que nos une.

Acordar pela manhã e tê-la em meus braços era a mesma sensação que eu tive ao encontrar-nos pela primeira vez. Era engraçado, porque mesmo depois de anos de casadas, dias difíceis enfrentados juntas, momentos de derrota, momentos de vitória, olhar para ela cada manhã era como reviver a primeira vez. O primeiro toque de mão. O primeiro olhar. O primeiro sorriso. O coração ainda acelerava, palpitava mais forte, as mãos ainda ficavam trêmulas, meu sorriso bobo se estendia pelo rosto e meus nervos tomavam conta de si próprios aos sentir o paladar dela no meu.

_Bom dia, meu amor! – Falei ainda me espreguiçando.
_Bom dia, minha menina. - Falou me dando um beijo casto nos lábios. Nesse mesmo instante eu cubro meu rosto com travesseiros e suspiro longamente.
_Fecha as cortinas. Preciso voltar a dormir.
_Aah, você precisa? - Disse negando com a cabeça - Continua manhosa, e preguiçosa. - Disse enquanto tentava tirar os travesseiros do meu rosto.
_Não é preguiça nem manha. É a necessidade que seu filho tem em me deixar com sono. Morta de sono. E fome...Amoor - fiz cara de pidona - Você bem que podia fazer aquele pavê né?
_Aquele que eu levei pra você no nosso primeiro encontro e você rejeitou ele, resolveu comer uma colherzinha dele no meio da rua e depois nem elogiou? - Fingiu estar irritada.
_Você ainda lembra disso? Eu já me redimi. E outra, não sou eu que quero. É o teu filho. Ele está pedindo. Pedindo muito. - Ri descaradamente.
_Golpe baixo.
_O que exatamente? Eu usar o nosso filho pra conseguir teus doces ou o meu sorriso?
_Um pouco dos dois. – Apertou um dos olhos com um meio sorriso enquanto me puxava para mais um beijo. Dessa vez afoito e um tanto voraz.
_Amor, seu filho. – Segurei a barriga indicando que poderia machucar o bebê.
_Ele gosta. – Ela se aproxima da minha barriga e acaricia levemente com a ponta do nariz – Voraz – Ela sobe um pouco e volta a me beijar – És intensa, minha menina... Se lembra?
_Como esquecer? – Voltei a rir brevemente.

Manhãs intensas. Era o que tínhamos. Minha barriga de 9 meses me impedia de ver os meus pés, me impedia de dormir de bruços como eu sempre gostei, me impedia de correr e subir nos pés de árvores como eu sempre gostei. Mas recompensava ao saber que dentro de mim eu carregava um pedaço de nós duas. Ele estava ali, pulsando e dizendo com todas as forças de uma pequena vida, que nos amava e não se importava no jeito que ela me dava amor, o dava amor. Selvagem ou carinhoso, era forma de dar e receber amor. E nós retribuímos. Com um beijo mais voraz ainda e mãos atrevidas passeando pelos corpos uma da outra, ela para por um instante para olhar em meus olhos e me sorrir aquele sorriso mais uma vez.
Suas pernas por sobre as minhas, sua cintura encaixada na minha, sua respiração quente por sobre a minha e Edgar em meu ventre dormia tranquilamente. Na porta vejo uma pequena sombra e deduzi.

_Sua filha! – A afastei para o lado
_Hum? – Ela fez um gesto mostrando que não havia entendido.
_Sua filha na porta. Sai de cima.

Tentei me recompor, ao ver os olhos de Maria Helena fitando nós duas naquela posição. Na porta de nosso quarto estava segurando seu bichinho de pelúcia, amigos inseparáveis desde os 3 meses de idade, seu dedão na boca e o mesmo lençol de princesas que mais gostava se arrastava pelo chão.

_Entra, minha pequena. – Sorri para tentar disfarçar. Ela entrou meio desconfiada, mas logo foi subindo na cama colocando toda a sua força de uma menina de 4 anos, e como pode se ajeitou entre nós duas.

Era sempre a mesma coisa. Quando algo a encucava ela tomava aquela posição. Seus olhinhos cor de mel assim como os da mãe piscavam para o nada, encaravam o nada e só depois de alguns minutos resolvia explodir. Quanta característica nossa.

_Mamãe. – Ela ficou sentada na cama entre nós duas, e logo em seguida pôs suas mãozinhas pequenas sobre meu rosto fazendo com que eu olhasse diretamente em seus olhos.
_Diga meu amor.
_Meu irmãozinho.
_O que tem ele?
_Quando ele nascer... Vai demorar muito?
_Faltou pouco, meu amor. Bem pouco...
_Pouco quanto? – Ela insistia.
_Pouquíssimo. – Indiquei com os dedos, minimamente fazendo com que ela entendesse que o tempo era curto – Alguns dias.
_Hm...

A expressão da testa franzida voltou a tomar conta do seu pequeno rostinho. Os cachinhos largos caíam por sobre o olho que piscava freneticamente. Ela era assim, minha menina, cheia de características minhas e da Gabrielle. Maria Helena veio depois de anos de planejamento. Lembro-me até hoje do dia em que Gabrielle e eu não nos conhecíamos pessoalmente e conversávamos sobre coisas da vida e ela disse a mim: “Quando eu tiver uma filha, eu quero que ela se chame Maria” Minha euforia ao descobrir que nossa conexão até a esse ponto era tamanha, que até o desejado nome de nossos filhos eram o mesmo. Maria, Maria Helena. Nossa pequena Maria.
Numa noite de chuva eu tive a melhor notícia da minha vida, minha esposa carregava dentro dela nossa menininha. Nossa pequena vidinha. Tão planejada e tão desejada. Em meu ver, a chuva foi a benção e no dia do parto o sol foi a contemplação da benção. O mesmo sol que presenciou e abençoou nosso primeiro e o início da nossa relação, se fazia presente na manhã do parto de Maria Helena.

_Mamãe... – Ela se virou para Gabrielle, dessa vez colocando suas mãozinhas sobre o rosto da mãe obrigando com que ela olhasse em seus olhos também – Quando meu irmãozinho nascer, você vai gostar mais dele do que de mim?

Ela tentou desviar os olhos até a mim, como se perguntasse o que responderia, porém Maria Helena segurou o rosto da mãe com mais firmeza, obrigando-a manter o contato visual.

_Meu amor. – Foi a vez de Gabrielle – Senta aqui. – Deu uma leve palmada no colchão indicando que ela devia se sentar entre suas pernas. – Quando eu conheci sua mamãe, fomos a um lugar e sabe qual era o meu maior medo nessa época?
_Qual mami?
_Todos. – Abriu um leve sorriso, fazendo com que Maria Helena fizesse uma carinha de desentendida, caindo a cabeça pro lado e voltando a deixar o cachinho largo por sobre o olho – Carinho, ao ir me encontrar com sua mamãe eu era uma pilha de nervos. Minhas mãos tremiam, suavam, minhas pernas se movimentavam sozinhas, eu cheguei a chorar e as pessoas me olhavam achando que eu era doida. Talvez eu fosse. Eu tinha medo, pequena. Eu tinha medo de ela não gostar de mim, ou sei lá, acho que eu estava insegura, ou ansiosa para vê-la, ou talvez... não sei. Mas sei que um sentimento parecido com o seu nesse momento tomava conta de mim naquele dia.
_Mas mami... o que isso tem a ver?
_Meu amor, nesse mesmo dia eu deitei no ombro dela, minha cabeça estava a mil, porém eu me sentia leve. Meu corpo e meus pensamentos estavam leves. Eu pensava inúmeras coisas, mas o meu sossego era saber que ali eu havia encontrado a mulher que seria a mãe dos meus filhos. Numa pausa dos meus pensamentos, eu levantei o rosto, olhei para ela e prometi que seríamos muito felizes. E estamos sendo até hoje. A vida nos trouxe você, você é alegria para os nossos dias, nossa luz irradiante de todas as nossas manhãs, e seu irmãozinho será quem vai te ajudar a tornar nossos dias mais luminosos.
_Mas mami...

Eu revirei os olhos nessa parte e mordi os lábios inferiores segurando o riso. A insistência dela era igual a minha, e o ciúmes de uma coisa que ainda nem havia chegado era total da Gabrielle. E a ansiedade... Bem a ansiedade era nossa.

_E se ele brilhar mais que eu?

Não aguentei e explodi numa gargalhada.

_Meu amor – Minha vez – Se ele brilhar mais que você, eu diminuo a luz dele para se ajustar a sua. Até porque eu não vou deixar ninguém brilhar mais que a minha princesa.

Puxei ela pelas pequenas pernas e comecei um ataque de cosquinhas. Ela ria escandalosamente, e tentava se esquivar. Foi a vez de atacar a Gabrielle, logo em seguida a minha vez.
Minhas manhãs. Minha família. Minha vida. Os mínimos problemas diários não tinham a menor importância ao saber que tudo ali cabia. Cabia amor. Cabia risadas e gargalhadas. Cabia aconchego e até mesmo suplícios.

“A gente vai ser muito fez. Mais do que a gente já é”

Tudo estava sendo cumprindo. As promessas, e as palavras que ela dizia que não eram apenas palavras. Ela estava certa, não eram apenas palavras. Era a nossa vida descrita através não só de verbetes mas também de sentimentos.

Senti o lençol úmido, e uma leve pontada na costela.

_Ai. Falei baixinho.
_Mamãe, você fez xixi. – Os olhos de Maria Helena, se arregalaram perante os meus e logo em seguida os de Gabrielle também.
_A mamãe não fez xixi. A bolsa... A bolsa... – Gabrielle falava quase que automaticamente. Sua voz se perdendo em meio ao nervosismo. – A bolsa estourou?

Afirmei com a cabeça, novamente mordendo os lábios inferiores. Era hora.

A gravidez.
Eu jamais imaginei que seria a pessoa mais feliz ao descobrir que dentro de mim eu carregava uma vida. Logo eu que sempre achei tudo isso tão estranho. Como pode ser, um alguém dentro de outro alguém?
Sentir meu corpo tomando outras formas, minhas pernas inchando, minhas mãos também, meu rosto tomando mais formas redondas do que ele já tinha por si só, a barriga crescendo e o primeiro sinal de vida; o coraçãozinho batendo. Que alegria! Eu tinha a certeza que eu tinha sido abençoada pelo sol, pela chuva e pela lua. A lua que ouviu meus casos mais complicados desde menina, a chuva que me fazia feliz e me banhava desde menina, o sol que eu tanto chamava por ele quando me cansava da chuva. Foram os três se mesclando a força do universo, fazendo-me acreditar que eu poderia sentir e trazer vida à Terra.
O primeiro chute foi a minha maior emoção, e os carinhos em minha barriga me faziam sentir-me um criança novamente, que era tão amada por naquele momento mostrar-me tão valiosa. Uma criança desta vez com suas responsabilidades, com sua casa para cuidar e com sua família para proteger e zelar.

O parto.
Todas as aventuras que já vivi não se comparavam àquela. Indo para a sala de parto eu vi os olhos de minha esposa me olhando. Sentia que ela tentava segurar minha mão. E já na maca, minhas mãos voltavam a ficar trêmula como da primeira, o suor escorria pelo rosto, a língua travava, mas eu não poderia desistir. Força eu precisava. Ele precisava sair. E eu precisava que ele saísse. Eu precisava olhar para ele e tocar nele. Sentir ele, e sentir o coraçãozinho batendo na palma da minha mão. Ainda que tivesse passados anos, eu não perdia a mania de ver para crer. E naquele momento eu me encontrava exatamente como eu estive há anos atrás: “Eu preciso te encontrar e saber que você é real” Eu precisava tocar em meu filho e saber que ele era real, saber que eu não sonhei esse tempo todo, saber que dali em diante meus dias seriam mais felizes do que já eram.

“Pai soberano, dai-me força, e traze-me a certeza de que não estou sonhando. Obrigada por tudo o que me concedeu até hoje.”

Agradecer. Era tudo o que eu tinha para fazer naquele momento.
Ouvi a enfermeira pedindo que eu fizesse força e mais força. Ela contava de um até o três e pedia que eu empurrasse com toda a força que eu pudesse. Doía, mas eu já não me importava. Sentia seu pequeno corpo que naquele momento parecia um gigante saindo de minhas entranhas. O suor no meu rosto escorria, em meus olhos escorria uma gotícula de lágrima e se mesclava ao suor. Ouvi minha esposa começar a sussurrar uma canção. E desabei por completo:

“A voz de um anjo sussurrou
Eu não duvido, eu já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio no sino das catedrais.
Tu vens, tu vens...
Eu já escuto os teus sinais”

No ultimo verso, eu ouvi um choro agudo. Ele veio, numa manhã de domingo.

Eu andei por caminhos perigosos, trilhei estradas incertas, passei por ruas esburacadas, corri perigo longe de suas mãos firmes. Minhas pernas fraquejaram ao sentir as desilusões. As decepções me tomaram de uma tal forma que eu já não sabia se poderia continuar. Desacreditada no amor e na vida, ela veio até a mim, e só então eu percebi. Ali era meu lar. Onde eu deveria ficar. Pra todo o sempre.
É engraçado essa coisa de viver, e aprender a viver. Você nunca sabe como será o amanhã. Você não prevê o minuto seguinte, muito menos o dia seguinte. É tudo tão surpreendente que se eu for parar para contar histórias, achariam que eu estou mentindo. Talvez eu seja um sentimental, mas de uma coisa eu tenho certeza, tudo o que vivi não foi em vão. Ou melhor, tudo o que vivemos não foi em vão. Nossos caminhos opostos tiveram seus motivos. Nossos olhos que um dia foram tão marejados e inchados por caminhos incertos também tiveram seus motivos, as palpitadas mais fortes de nossos corações bobos por casos incertos também tiveram seus motivos. Pequenas coisas nos fizeram crescer. Tornou-nos fortes. Fortes o suficientes para estarmos hoje, depois de anos, ainda de mãos dadas, perdidas nos olhares e nas carícias. Perdidas no paladar uma da outra, perdidas no suor do rosto, nos nervos trêmulas e no novo olhar que chega para nos alegrar.
Tão lindo quanto o dela. Tão lindo quanto o meu.

_Bem vindo, Edgar!

Fim!