UM BOM REMÉDIO PARA CONSTIPAÇÃO VERBAL

24 de Julho de 2012 Isloany Machado Crônicas 1263

Outro dia ouvi uma conversa assim:
- “Como fazer redação é uma coisa difícil né?”.
- “Sabe o que é bom pra você conseguir fazer uma boa redação? Dizem que tem que ler bastante, porque a leitura faz soltar as palavras”.
Comecei a imaginar coisas: seria quase o mesmo que tomar muita água para evitar outro tipo de constipação? Daí lembrei que o pessoal lá em casa, meu pai e minha mãe, gostavam muito dos livros, ficavam pela casa toda. Tinha livros infantis, de história, de literatura, etc. Lembro de um que eu gostava muito que era a biografia do Che Guevara, tinha mais de quinhentas páginas e algumas ilustrações. Ficava olhando aquelas imagens revolucionárias e de guerrilhas, imaginava as histórias, as palavras trocadas entre eles, aquilo que o biógrafo não conseguira alcançar. Tinha outro enorme que era sobre a história da inquisição. Eu tinha medo dele e nunca o abri porque pensava que sairia fogo de dentro, pois minha mãe me explicava que, naquela época, eles queimavam as pessoas ainda vivas. Outro ainda falava da ditadura militar no Brasil e recordo que na capa havia uma série de bigodes de todos os formatos. Eu abria o livro, olhava as figuras de pessoas torturadas e chorava, sem saber exatamente o que era tudo aquilo. Tinha medo de bigodes. Havia o da revolta dos canudos, ficava então imaginando os canudos plásticos dos meus refrigerantes se engalfinhando. Eu ganhei da minha mãe o livro do menino maluquinho, ele era subversivo, usava a panela na cabeça. Depois, quando já recebia dinheiro pra comprar lanche na escola, economizava e, quando tinha juntado um tanto, ia até os sebos do centro da cidade e comprava livros. Uma fortuna eu pagava! Comprei O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, por R$ 3,00. Era uma viagem. Um dia comprei A pata da gazela, de José de Alencar e ficava horas olhando o nome do livro tentando imaginar que diabo aquilo queria dizer, pensava que era a história de uma pata, e era, mas era da pata (pé) da gazela (moça). E assim foi que meus pais me deram, em doses homeopáticas, o remédio que a moça do diálogo receitou à outra. Se você tem constipação verbal, o melhor remédio são os livros porque eles fazem soltar as palavras, mas há que se tomar cuidado para não virar verborreia, pois um dos efeitos colaterais pode ser a dor de cabeça.

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