PEDRAS NO CORAÇÃO

24 de Julho de 2012 Isloany Machado Crônicas 834

Há muitos anos fiz uma cirurgia corretora de uma válvula do estômago. Peça consertada, segui feliz da vida por todos estes anos. Mas eis que há alguns meses certa dor tem me assolado novamente e decidi, portanto, procurar um médico.
- O que você sente?
- Uma dor aqui. Apontava eu para meu estômago.
Contei da cirurgia e o médico me apresentou a seguinte hipótese: cirurgia mal feita que poderia ter perdido o efeito. Encomendou uns exames, e que surpresa a minha quando descobri, no outro médico, que tenho pedras na vesícula. Não fossem as lições de anatomia durante a faculdade, eu nem saberia que tenho uma.
- E por que isso ocorre, doutor?
- É engraçado, algumas pessoas formam pedras na vesícula.
- E qual é o tratamento para isso, doutor?
- Arrancá-la fora.
- (?).
Sem que fosse a intenção do médico, me senti como aqueles bonecos plásticos que usam em feiras de ciências para mostrar pela enésima vez o funcionamento do sistema digestivo. Pelo menos era assim na minha época. Agora chamam de digestório. Como as peças se encaixam perfeitamente naquele buraco: estômago, intestinos, fígado, esôfago. Não exatamente nesta mesma ordem. Imaginei o moleque do sexto ano derrubando a minha vesícula no chão. Ao catá-la de volta, não sabia mais o lugar do encaixe e, disfarçadamente, pinchou-a na lata de lixo.
Imaginei imediatamente que iria morrer empedrada. Estaria mesmo tudo acabado. Fim de tudo, sonhos, viagens, tudo enfim. Durante cinco minutos o filme da minha vida passou diante de meus olhos. Escandalizei-me: cinco minutos só? Que vida sintética, pensei, já que tenho quase trinta anos, ao passo que Justin Bieber, aos quatorze lançou sua biografia. Tentando buscar na memória alguma representação da morte, pensei no filme Ghost: do outro lado da vida, com Demi Moore e Patrick Swayze. Ouvi a música enquanto olhava para a luz: “Oh, my love, my darling...”. Lembrei da cena clássica em que Demi Moore está moldando um vaso. Me vi como o fantasma que não consegue se fazer visto.
Inebriada com essa ideia, de repente toda a minha tentativa de drama evanesceu. Uma luz acendeu-se em minha cabeça. Hei, espere aí! Mas se estou com pedras na vesícula, obviamente minha cirurgia de válvula gástrica está perfeita! Fui tomada por uma escandalosa alegria. E o médico que dera a sentença, de origem nipônica que era, estava de olhos arregalados, sem entender nada. Dei-lhe um beijo estalado no rosto e fui embora me sentido um tantinho mais pesada por saber que carregava pedras em mim. Cantarolava: “No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra”. Ou mais de uma.
Indo embora comecei a pensar e imaginei uma cena. Um paciente vai ao médico:
- E então? Diz o médico. O que você sente?
- Ah, doutor, sinto uma dor aqui. Apontando para o coração.
- Há quanto tempo?
- Foi desde que minha mulher me deixou.
- A dor é aguda, moderada ou leve? Quantas vezes sente isso por dia? É uma dor rasgada? Sufocada? O senhor tem gases?
- (...).
- Ok, vou pedir uns exames.
Na semana seguinte:
- Meu caro, você tem pedras no coração. Algumas pequenas e outras grandes. Provavelmente causadas pela partida de sua mulher. É de amor que o senhor sofre. É engraçado, algumas pessoas juntam pedras no coração.
- (!). E qual é o tratamento para isso doutor? Pergunta o paciente.
- Meu querido, sinto muito, mas só arrancando fora.
- Nãããããããoooo!!! Gritaria o paciente em desespero.
Um vizinho curandeiro, observando a angústia do sujeito ao contar sua história, receitaria uns chás quebra-pedra e em alguns meses, depois de rasgar artérias e veias, o amor ferido, em forma de pedras, teria saído todo. O coração não precisara ser arrancado. Mas nos ensina a psicanálise que o amor é um significante e que se ama é com palavras, não fosse isso não haveria amor. Então, após nova decepção amorosa, o paciente decide ir ao médico, pois a dor voltara. Mas recua ao se lembrar de que ele receitara a extirpação do coração. Aconselham-no a ir a um psicanalista.
- Em que posso ajudá-lo? Diz o psicanalista.
- Ah, doutor, sinto uma dor aqui. Apontando para o coração.
- Fale mais sobre essa dor.
- Há uns anos eu tive este mesmo problema depois que minha primeira mulher me deixou. Então procurei um médico que me disse que só me curaria arrancando o coração fora, pois sofria de amor. Diz o paciente, angustiado.
- Calma, no amor trata-se de palavras. É da língua que se sofre.
- Meu deus! Terei que arrancar a língua doutor??? Gritou o paciente com lágrimas nos olhos.
- Absolutamente, não meu senhor. Acalme-se. Digo da língua enquanto palavras, fala, pensamento, lembranças. Por isso o senhor deverá trabalhar com a língua. Deverá falar o que vier à cabeça. O senhor fará um trabalho árduo de expelir as palavras, uma a uma, por alguns anos a fio.
Depois de imaginar tudo isso, pensei que, se para pedras na vesícula não há outro remédio senão arrancá-la, pelo menos as palavras e a língua podem me dar alento.

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