Há alguma coisa errada comigo
Jorge Linhaça

Há alguma coisa errada comigo, não consigo pensar no que escrever, não consigo manter a concentração, fogem-me os temas num átimo de segundo, qual se uma força misteriosa me apagasse a lousa dos pensamentos.
Pó de giz escorre pelo quadro negro onde sucumbem fragmentos de palavras.

Fecho os olhos e tento encontrar o fio condutor de um raciocínio qualquer, sombras bailam entre pontos de luz ocultando o caminho das letras dançantes em minha memória.

Sinto o grito preso na ponta dos dedos, mas não sei sobre o que é o grito.
Sinto o silêncio interior ecoando tão alto que não ouço meus pensamentos.

Leio, estudo , pesquiso, encho a mente de temas que poderiam resultar em algum texto, mas os arquivos jazem bloqueados atrás de um muro sombrio.

Procuro a porta, procuro a chave, procuro a senha...GRITO ABRE_TE SÉSAMO e nada...o muro continua lá.

Meus versos fugiram por um buraco de rato para o lado oposto da parede gigantesca, pétrea...indevassável.

Minha prosa bate e volta nas pedras sem fazer nenhum barulho...desfaz-se em cinzas, em pó de giz.

Meus pobres olhos cansados lutam para encontrar um fresta, um verbo, um adjetivo, um substantivo que me dê uma pista do texto perdido.

Vejo um trema ali esquecido, pobre acento que já não vale nada...ou seriam dois pontos deitados?

Tudo é confuso no mundo de Alice...e sobre o muro passa um coelho ligeiro a dizer:

É tarde...É tarde...É tarde.

Salvador, 25 de julho de 2012.