Conheço uma moça chamada Ana. Ela tem os olhos amendoados que olham rasgando pra gente. Rasgam não só pela forma com que se desenharam no rosto dela, mas também porque são negros e carregam perguntas. Também são negros os cabelos, que carregam assim essas mesmas misteriosas perguntas. Ou outras, não sei. O rosto de Ana é desenhado com ângulos e dá vontade de pegar o esquadro e sair medindo. Além disso, ela é extremamente inteligente e já não sei se a pergunta implícita em seus olhos é dela ou de quem a vê. Neste instante já me parece que ela porta todas as respostas. Outro dia vi os olhos serenos de Ana se avermelharem e rapidamente a ponta de seus dedos estancaram uma lágrima. Eu nem sabia o motivo, mas amaldiçoei aquele que arrancara dos olhos dela o negrume costumeiro. Que outros olhos podiam ser mais cativantes do que os de Ana? Quem poderia ousar se desviar deles? Somente alguém que não buscasse neles as respostas ou alguém que acreditasse que dali não poderia mais saber nada novo. Quanta ingenuidade! Os olhos dela são rasgados, negros e profundos. Essa profundidade porta perguntas e respostas infindáveis, torrenciais, que não cessarão jamais. Pode-se dizer que ali está uma fonte que não se esgota. Quem se atreveria a afirmar exatamente quando se esgotará todo o oceano? Ela já foi dilacerada, esteve no chão, teve partes de si esmagadas, estilhaçadas, mas a água lavou as feridas e ela ficou de novo em pé, com algumas cicatrizes. Com isso descobriu que “não morre fácil”. Ficaria feliz se Ana cativasse alguém que pudesse apostar na infinidade das perguntas e respostas a serem encontradas no negrume de seus olhos. Alguém que perceba que ela, apesar de parecer ser simplesmente a mesma, sendo lida pelo do lado esquerdo ou direito (Ana ou anA), carrega em si todos os mistérios do mundo.