Telma, a telefonista

08 de Agosto de 2012 Isloany Machado Crônicas 1451

Não acho que eu seja uma pessoa nostálgica, pois não tendo a pensar que as coisas deveriam voltar a ser como eram antes. Nem acho que caminham sempre para pior. Prefiro evitar esses julgamentos de valores. Outro dia estava lendo um livro de Milan Kundera no qual ele fala de nostalgias. Segundo ele, no idioma grego a palavra nóstos quer dizer retorno e álgos, sofrimento. Assim, “nostalgia é o sofrimento causado pelo desejo irrealizado de retornar”. Concluo que não tenho nostalgia grega. Seguindo na descrição de Kundera, na língua espanhola “añoranza vem do verbo añorar (ter nostalgia), vem do catalão enyorar, derivado, este, da palavra latina ignorare (ignorar). À luz dessa etimologia, a nostalgia surge como o sofrimento da ignorância”. Decidi, quando li esse texto, optar por uma nostalgia espanhola ao invés da grega, sofro com alguns não saberes. Acho que talvez a palavra correta seja saudade ao invés de sofrimento, com o pesar do não saber como o outro está. Explico o porquê de dizer tudo isso.
Quando era criança, minha irmã, meu pai, minha mãe e eu íamos ao posto telefônico do centro da cidade um domingo por mês. Era diversão garantida. O posto era longe de nossa casa e tínhamos que tomar ônibus, eram muitas emoções naqueles domingos. Chegávamos os quatro no posto para ligar para os parentes, dos quais nós havíamos nos exilado ao mudar para longe. Tínhamos que ir ao posto porque naquele tempo só havia fichas e elas não duravam nada para fazer uma ligação de longa distância. Tenho lembranças daquele lugar que são fiéis somente às palavras que posso dizer para descrevê-lo. Idos da década de 1990, o posto já tinha ar condicionado, pois a cidade era muito quente e precisava desse tipo de tecnologia, que à época era muito onerosa. Havia muitas cabines telefônicas nas quais as pessoas entravam e podiam ter algum tempo de privacidade para falar com quem quer que fosse. Não cabia todo mundo na cabine, então enquanto meu pai ou minha mãe falavam ao telefone, eu e minha irmã ficávamos sentadas em uns bancos acolchoados. Passávamos o tempo olhando as listas telefônicas ou entrando nas cabines vazias e simulando ligações para longe. Não me lembro pra quem meus pais ligavam, nem do que falavam, mas lembro da sensação boa que era estar lá.
Talvez a “peça” mais importante daquele lugar fosse a telefonista. Ninguém chegava ao posto e fazia uma ligação de forma independente. Era a telefonista que discava o número e, quando alguém do lado de lá atendia, ela dava sinal para meu pai: “pode falar”. Lembro que ele levava os números anotados num papelzinho roto. A moça tinha dificuldade para entender a letra de meu pai. Depois da ligação feita, a telefonista ficava mimetizada com o cenário, lixava as unhas ou lia algum romance policial. Eu a olhava e imaginava a vida dela, o nome. Inventei que o nome dela era Telma, a telefonista. Não tinha cara de quem tem filhos, parecia morar com a mãe, viúva. Telma ligava as pessoas com suas saudades, às vezes parecia comover-se com sua função. Sabia que não havia jeito mais fácil de conectar as pessoas.
Uns anos depois, o posto central foi fechado. Passamos a frequentar o novo posto da rodoviária, que era perto da nossa casa. Por esses tempos a telefonista somente cuidava do lugar, já ligávamos com cartão telefônico. Poucos anos depois esse posto também fechou. Tornou-se uma loja de souvenirs. Hoje, pensando nisso, achei bem curioso, já que a palavra francesa souvenirs quer dizer lembranças. Aquela loja carregava as lembranças das palavras trocadas: saudades, amores, boas e más notícias, rompimentos, reconciliações, planos, futuro, e sabe-se lá o que mais. Quando alguém precisava falar conosco tinha que ligar no orelhão da rua, que ficava em frente ao mercadinho do Sr. Rosalvo. Quando tinha ligação, ele corria lá em casa pra avisar que dali a dez minutos o telefone tocaria novamente.
Os telefones fixos começaram a ficar mais acessíveis e então instalamos um na nossa casa. Eu era adolescente já e então passava horas com minha amiga, rindo, fofocando, falando sobre nada e, sobretudo, chorando por amores frustrados, pelo declínio de minha infância e por inúmeros outros motivos. Quando o telefone tocava, era sempre um sobressalto. Quem seria? Que palavras diria? Para quem? Será que é pra mim?
- Alô?
- Alô, é da casa de Matilde?
- Não.
- Ah, me desculpe. Foi engano.
Quando desertei de casa pra fazer faculdade em outra cidade, usava o orelhão da esquina do pensionato onde morava para matar as saudades. Bem no começo senti certa nostalgia grega, vontade de voltar pra casa. Mas o desejo de seguir em frente era maior. O orelhão ajudou a estancar um pouco das minhas saudades. Durante a faculdade eu ganhei um telefone móvel, mas era só pra emergências, porque a ligação era muito cara ainda. Depois, quando terminei o curso e precisei ficar um tempo longe do meu companheiro, pelo celular mandávamos mensagens e dávamos “toques” um para o outro, era o nosso código para dizer que estávamos conectados em pensamentos. Deixávamos pra falar mais nos finais de semana. Novamente no domingo eu ia ao orelhão que ficava perto de um bar de algum outro Rosalvo. Trocávamos muitas palavras de saudade, mas dessa vez o orelhão não pode dar suporte e meu desejo era de voltar. Nostalgia greco-espanhola, pois sentia, ao mesmo tempo, desejo de voltar e tristeza por não saber com detalhes da vida dele, por ignorar. Eu voltei. Outro dia, andando no shopping, notamos que os orelhões que ficavam num cantinho escondido perto da praça de alimentação foram arrancados. Somente restavam os cabos grossos que levavam as vozes para longe, agora sem função nenhuma. Olhamo-nos imediatamente e fizemos um minuto de silêncio pela morte dos orelhões.
Sinto a mesma nostalgia espanhola em relação à Telma, a telefonista. Por onde andará? O que teria sido feito dela depois que os postos telefônicos fecharam? Imaginei uma história para ela. Telma agora trabalha em uma empresa de telemarketing. Ela continua fazendo ligações, mas não é mais entre saudades distantes. Ela resolve os problemas que as pessoas enfrentam por causa do congestionamento das linhas telefônicas. Com uma nostalgia espanhola que sinto por Telma, todos os domingos escolho algum número de empresa telefônica para tentar encontrá-la. Depois de muitas ofertas de serviços feitas por uma vinheta que se repete e repete, eis que surge uma voz humana:
- Número do CPF, por favor, senhora? Pergunta a voz do outro lado.
- 000.546.786-89. É que eu gostaria...
- A senhora pode confirmar seus dados, senhora?
- Mas eu só queria...
- Confirme os dados senhora?!
- Qual sua data de nascimento?
- Endereço completo?
- RG?
- Estado Civil?
- CPF?
- Mas eu já disse meu CPF.
- Diga novamente senhora, preciso confirmar no sistema.
- Claro, é 000.546.786-89. É que eu gostaria...
- Em que posso ajudá-la, senhora?
- Como é seu nome? É Telma?
- Não senhora. Em que posso ajudá-la?
- Nada não. Era só isso. Você tem alguma colega que se chama Telma?
- Não senhora.
- Sabe o que é, na verdade eu estou procurando...
- Píííííííííííííííííííí...Olá, diz uma gravação, a nossa empresa agradece sua ligação que está registrada para sua segurança, anote por favor o número de protocolo. Atribua ao final uma nota para o nosso atendimento.
Fiquei a pensar. Será que Telma sente nostalgia de seu trabalho de antes? Tell me Tel-ma, please! Pode ser que eu até já tenha falado com ela pelo telefone, mas as vozes são tão parecidas, meio mecanizadas. Se eu pudesse ao menos ver seu rosto, certamente a reconheceria com aquela sombra azul combinando com o uniforme. Mas agora eu não consigo mais vê-la. Agora ela depende da nota atribuída ao final das ligações para que possa manter seu emprego. A lixa de unhas e o romance policial ficam guardados na sua bolsa, intocados o dia todo.

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