Encontrava aquela exuberante mulher sempre no mesmo lugar. Havia pouco que eu morava por aquelas intermediações da cidade, mas sempre, pela manhã, no caminho para o trabalho, cruzava com ela no mesmo local: um prédio em construção ao meu lado esquerdo e uma árvore araucária na minha frente, de uns dez metros. Mas era sempre ali, naquele cenário, pontualmente todos os dias que a encontrava. Ela não me olhava. Pelo menos os óculos escuros que ela usava não me permitiam perceber.

Sempre que cruzava com ela, era inevitável olhar para trás, analisar por inteiro o seu dorso, as suas costas, por vezes despidas no vestido de seda, por vezes encobertas por alguma roupa apertada. Era impossível não dar aquela sutil conferida. Isso se repetia religiosamente.
Com certeza eu não era o único a virar o pescoço para vê-la por trás. Mas naquele local, sob aquela araucária encobrindo o sol e o prédio em construção ao lado, era privilégio só meu.

Mas a alegria matutina teve o seu fim. Dado dia, aproximando-me do sugestivo local, noto que a araucária não estava mais ali. Algo ou alguém havia a derrubado. O sol então fez com que eu protegesse meus olhos. Chegando perto daquela mulher, ao cruzá-la, noto que o mesmo sol projetava a minha sombra, de modo que ela notava a costumeira olhadinha. Fiquei constrangido. A minha sombra denunciava a minha volúpia curiosa. Tive que mudar o caminho para o trabalho.