Venda a virgindade do seu cérebro... Eu compro.

06 de Dezembro de 2012 Ullisses Salles Crônicas 1700

“...Um dia surgiu brilhante, entre as nuvens flutuante, um enorme Zepelim, pairou sobre edifícios, abriu dois mil orifícios com dois canhões assim...” (Chico Buarque)

Não é costumeiro eu falar sobre temas que considero fúteis, mas tampouco posso me fazer de cego diante do rumo que nossa sociedade está tomando e como a mesma se comporta em relação a certos assuntos tais como sexualidade, religião, religiosidade, machismo e afins...

Embora não seja possível resumir em uma folha formato A4 todo o comportamento social de um país complexo e contraditório como o Brasil, existem tendências que merecem uma reflexão, mesmo que apenas como um gancho para um debate aprofundado mais adiante quando nós tivermos tempo e interlocutores com quem valha à pena confrontar nossas idéias.

O debate no entanto exige que todas as partes tenham um mínimo de conhecimento sobre o tema em questão, um mínimo de bom senso, de respeito e sobretudo muita vontade de aprender, pois quem já tem sua mente fechada para novas idéias e novos pontos de vista, morre de virgindade encefálica...

Quem certamente não vai morrer virgem é a brasileira que se tornou conhecida no mundo inteiro após ter topado participar de um documentário australiano onde dois candidatos colocam sua virgindade a leilão, sem saber a identidade do comprador até o momento do encontro no avião onde será ou já foi (não vem ao caso) consumado o ato sexual.

Entretanto quem se mostrou como um solo completamente virgem e árido de bom senso foi a cabeça dos nossos compatriotas. Não sei se por ignorância, falso moralismo ou compelidos por uma religiosidade doentia que ao invés de ensinar o perdão e o amor, fizeram da nossa sociedade um bando pessoas desejando o mal outrem a troco de nada. Basta que se pense e aja de modo diferente dos textos mal interpretados de suas religiões arcaicas.

O fato de essa garota ter vendido sua virgindade é relevante para nós? Absolutamente não, pois sexo em troca de dinheiro, favores, presentes, carreira, dívidas e escalada social fazem parte da humanidade desde que temos pênis e vagina, muito antes de termos um cérebro pensante. Mas e então por que justamente essa garota se tornou alvo da ira da pudica sociedade tupiniquim? Ora, que pergunta mais boba a minha. Nossa sociedade adora ofender as mulheres sempre que possível, e essa ocasião era um bom-bocado apetitoso demais para ser ignorando por nossos glutões da moral e dos bons costumes.

O mais triste de tudo não foi ver nosso misógino homo-asinus brasilienses usar todas as 4 palavras que seus dois neurônios funcionais conhecem para ofender a garota. Triste mesmo foi ver nossas mulheres em uma postura totalmente medieval xingando e condenando a jovem catarinense. Diante desse show de falso moralismo de uma sociedade que “vai pro baile sem calcinha” e dá “surra de bunda” impossível não lembrar da pobre Geni...

Muito mais importante que o fato da venda e da compra da virgindade, é nos conscientizarmos como grupo social que não temos o direito de nos metermos na vida outrem. A partir do momento que ela não está prejudicando terceiros, que não está sendo obrigada a se vender, não cabe a nenhum de nós julgar. A sociedade brasileira precisa urgentemente aprender a respeitar a liberdade individual de cada um. A sexualidade é apenas um dos cintos de castidade que mantém nossos cérebros virgens de conhecimento...


Como podemos nos tornar um país relevante para o mundo, uma potência se nossa sociedade ainda discute o sexo dos anjos e se une para atirar bosta na Geni? Sei que é errado, mas as vezes penso que apenas um Zepelim gigante e prateado capaz de destruir todos os pilares dessa sociedade corrompida pela ignorância para nos livrar de um futuro que fica a cada dia mais parecido com o passado.

A menina catarinense se tornou uma heroína, uma Geni que curiosamente também se entregará a bordo de um moderno Zepelim sobre nossas cabeças mesquinhas, mas diferentemente da linda poesia do Chico, a ameaça à cidade dos homens não vem do céu, mas está bem enraizada como um câncer no peito do povo brasileiro que insiste em jogar pedras nos pretos, pobres, homossexuais, ateus...

Ocasionalmente um preto, um pobre, um ateu se tornou herói nacional, mas logo raiou o dia, nosso povo em cantoria não os deixou dormir.

E você, vai jogar bosta em quem?

Ullisses Salles
Enviado por Ullisses Salles em 06/12/2012
Código do texto: T4023001
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