Assumpção

10 de Fevereiro de 2013 sergio geia Crônicas 746

Meu amigo Rogério Machado fez um registro bastante interessante no facebook. Ele andava pela Avenida Faria Lima, quando parou atrás de um fusquinha, dirigido por um homem idoso. Fico pensando, disse ele, até quando veremos uma cena dessas. Um senhor e seu fusca dirigindo pacificamente em meio ao trânsito denso e pesado de nossa cidade, onde carros mais novos, com vidros fechados e escuros, dirigidos por pessoas apressadas e ilhadas em seus óculos escuros e som alto, climatizados pelo ar condicionado ligado, disputam cada centímetro e segundos de vantagem em relação aos outros, para chegarem mais rápido aos seus destinos.

É como se para ele, continua, a despeito dos cabelos totalmente brancos e inúmeras funilarias na lataria de seu velho fusca, o tempo não passasse. E não importa o quanto a vida e as coisas se modifiquem, ou mesmo se compliquem. Ele dirige seu fusquinha, e vai embora...

Confesso que saboreei cada palavra desse registro feito pelo meu amigo de justiça. E o romantismo que aflui desse corriqueiro fato do cotidiano me trouxe à mente o velho Assumpção.

Assumpção ?? escreve-se assim mesmo, com o “pê” antes da “cedilha” ?? era um sujeito das antigas, como seu próprio nome atesta. Nasceu no ano de 1922, na pequena cidade de Bananal. Embora com nome pomposo, Assumpção logo passou a ser chamado de Sansão ?? muito mais fácil e simples; para os netos, que nas férias curtiam a casa dos avós e o seu pé de araçá ?? hoje raro de encontrar, e o aguardavam ansiosos para comer as balas e chocolates e docinhos que ele trazia do bar, vô Sansa.

Pois é. Assumpção era dono de um boteco na Marechal Arthur, a poucas quadras da Praça Santa Teresinha: o “Nosso Bar”. E o bar era a sua vida. E, talvez, a vida de muitos.

Dizem os grandes cronistas e os boêmios de plantão, que boteco bom é boteco ruim, simples, barato, largado. Nada de coisa chique, bem arrumada, organizada, confortável. Ao contrário. Boteco bom tem que ter copo americano, mesa de lata, gente vestindo camiseta sem manga e bermuda, petiscos da terra e uma boa cachaça. Tá aí a descrição exata. Tá aí o “Nosso Bar”. Ponto de encontro da nata da cachaça, da boemia taubateana, da jogatina libertária.

Mas me lembrei do velho Sança porque ele poderia mesmo, muito facilmente, protagonizar a bela cena descrita no início dessa crônica, se Deus Nosso Senhor não o tivesse tirado do nosso convívio e o levado, são e salvo, para o paraíso do céu, onde a vida, dizem, é eterna, onde a grama é verdinha, verdinha, onde o branco das roupas torna tudo muito puro e sublime, mas onde não tem cachaça, nem carne seca com macacheira, nem mulher, nem boteco, nem jogatina, nem devassa... Paremos por aqui, amigo. Paremos.

O Assumpção tinha um fusquinha. Um montão de vezes, muitos viram a cena ?? ele serpenteando pelas ruelas dessa terra de Lobato, com seu carrinho branco e seus cabelos cinza. Talvez ele não dirigisse com a mesma calma, e certamente não inspiraria o Rogério a descrever aquela cena com tamanho romantismo. Mas não seria pressa, ou um descompasso por causa dessa vida urbana sem pé nem cabeça, disso eu tenho certeza.

Assumpção era o meu avô.

Às vezes sonho com ele na rua, alegrinho, alegrinho, dando o fusquinha para eu correr atrás de mulher. Às vezes sonho com ele dirigindo seu fusquinha, e indo embora...

P.S.: agradeço ao Rogério Machado por me autorizar a colocar seu texto na crônica.


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